Adélia Prado em Franca


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Nascida em 1935, Adélia Luzia Prado de Freitas é mulher de José de Freitas, mãe, avó que às vezes tem que se haver com a cozinha e seus mantimentos. Adélia Prado é uma poeta e ficcionista que figura no panteão das grandes damas da literatura brasileira. Uma Adélia não exclui a outra Adélia. A primeira necessariamente constitui esta aqui, mulher do ato criativo, escritora que vem balizando tanta gente com a sua obra de entrechos epifânicos, poeta seminal que incide sobre outros criadores como Caio Fernando Abreu e Rubem Alves, para citar apenas dois, em seus vocativos, linhagens, clareiras, vigílias. Pois, não necessita da pedra de toque toda a criação artística que perpassa o poético? Adélia Prado não é aquela que foi descoberta e, sim, revelada, como disse Affonso Romano de Sant`Anna, quando, em 1975, Carlos Drummond de Andrade publicou uma crônica sobre a poesia da mineira de Divinópolis, em que traduziu o seu encantamento: "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo (...) Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?" Daí veio o livro Bagagem (1976). Depois, O Coração Disparado (1978); Solte os Cachorros (1979); Cacos para um Vitral (1980); Terra de Santa Cruz (1981); Os Componentes da Banda (1984); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Poesia Reunida (1991), O Homem da Mão Seca (1994); Manuscritos de Felipa (1999); Oráculos de Maio (1999); Filandras (2002); Quando eu era Pequena (2006). De suas incursões na dramaturgia destaca-se, em 1987, a estreia do espetáculo teatral Dona Doida: um interlúdio, em montagem protagonizada por Fernanda Montenegro e Naum Alves de Souza, um sucesso que chegaria aos Estados Unidos e à Europa. Sua vinda a Franca, no último sábado, para a inauguração do espaço Calendas, reuniu, no Teatro Municipal, 320 espectadores que pareciam ouvi-la como a um oráculo, com a avidez dos que têm sede e fome de transcendência, do alimento que exatamente ela propõe e oferece, em sua obra e sobre o qual discutiu: "A fome profunda da alma é a vida simbólica. Todos temos a capacidade para a experiência poética. Tudo aquilo que, `sem valor` podemos chamar de `bonito de demais`, é alimento espiritual. Tudo o que vai além da minha necessidade básica me engrandece. A arte é religiosa na sua origem e superior ao artista. O livro deve necessariamente ser melhor que seu autor. Deve suplantá-lo". No encontro, falou ainda de religião, literatura, ciência, escola, modernidade, da vulgarização na modernidade. Confirmou seu desconforto diante do abandono de valores da convivência humana, da diluição dos ritos, da não diferença entre formal e informal, profano e sagrado. <i>Leia, a seguir, trechos desse colóquio:</i> <b>ESCOLA</b> "A esterilidade da nossa juventude vem de uma escola que não forma com enfoque nas humanidades, que não educa para a sensibilidade. Está imersa no utilitarismo, não sacia a fome espiritual dos alunos. O aluno vive de maneira vicária, não tem opinião própria", disse ela, emendando sua crítica à atual discussão acerca da vacuidade no sistema de cotas e do fim dos vestibulares. "O sistema de cotas nas universidades é um grande equívoco. É carimbar o outro, não o chama para a inclusão, ao contrário, exclui logo de entrada. O acesso ao ensino superior tem de se dar por valores acadêmicos, pelo seu preparo. O desastre na educação é um dos mais fatais". <b>RELIGIÃO</b> Adélia Prado afirmou que ciência supera-se a si própria todos os dias, sem respostas definitivas, no entanto, a arte e a fé permanecem. "A arte e a experiência mística estão fora do tempo e, por isso, consolam a nossa alma. Não aguentamos saber que não há nada nem ninguém maior que nós. A alma quer adorar. Temos sede do infinito. Jung (Carl Gustav, o psicólogo suíço) era luterano e devolvia seus pacientes à sua religião de origem, lá onde estão todos os símbolos da divindade. Sem essa divindade, somos aleijões", disse. Advertiu contra os excessos que vêm ocorrendo em todas elas e, também, no catolicismo. "Nossas igrejas estão contaminadas por músicas horrorosas e pseudoliturgias. Saímos da igreja querendo um lugar para rezar".

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