Depois de ser brutalmente atacado por dois cães da raça rottweiler e ficar internado 40 dias, o caseiro Antônio Gomes Filho, 58, tenta recomeçar a vida com a ajuda dos irmãos e dos filhos. Com cicatrizes por todo o corpo, sem parte do nariz, da orelha esquerda e do couro cabeludo, e com problemas de amnésia desde o acidente, ele aguarda as cirurgias plásticas que poderão lhe devolver a aparência normal. A revolta é com o proprietário dos animais que lhe procurou apenas duas vezes desde o acidente.
O ataque ocorreu no fim da manhã do dia 3 de fevereiro, em uma chácara no Recanto Mococa, em Cristais Paulista. Gomes se lembra com detalhes de tudo o que ocorreu. "Eu dividi a ração que tinha, virei as costas para arrumar a água dos cachorros como sempre fazia e eles me atacaram", disse. Os animais lhe derrubaram na grama e arrancaram suas vestes. Na sequência, a fêmea agarrou sua perna esquerda com uma mordida e não soltou. O macho iniciou o ataque visando, especialmente, a cabeça. "Fiquei vendo tudo o que estava acontecendo e comecei a gritar por socorro".
O caseiro contou que suas forças estavam acabando quando uma vizinha subiu no muro. Ela gritou, jogou pedaços de carne, balançou um lençol para chamar a atenção dos animais, mas que não adiantou. Seguindo sugestão da mulher, a vítima tampou o rosto e se virou. "O macho arrancou meu cabelo e couro cabeludo". O tempo todo lúcido, Gomes se acalmou quando ouviu as sirenes da polícia e da ambulância e pensou: "Graças a Deus estou salvo". Os tiros espantaram os cachorros e ele foi socorrido. "Só perdi os sentidos quando era atendido no pronto-socorro", disse. Além de quase uma centena de ferimentos pelo corpo, o caseiro foi internado com traumatismo craniano.
O ataque, no entendimento da vítima, foi motivado pela falta de alimento. "Toda segunda-feira, o rapaz (proprietário dos animais) levava ração, mas no dia anterior falhou". Na terça-feira do ataque, ele contou que só tinha uma latinha e dividiu entre os animais, que estavam acostumados a comer mais. "O macho recebia quase quatro latinhas de ração e a fêmea duas".
AS CICATRIZES
Desde que recebeu alta, Gomes vive na casa de uma irmã no Condomínio Belvedere dos Cristais, em Cristais Paulista, e todas as vezes que precisa viajar para Ribeirão Preto, onde realiza tratamento no Hospital das Clínicas, conta com os filhos de 28 e 21 anos, que residem naquela cidade. A próxima consulta será dia 22.
Para não expor a cabeça que está sem a pele, Gomes usa uma faixa que é trocada todos os dias no pronto-socorro de Cristais Paulista. Para os curativos, uma ambulância da prefeitura daquela cidade faz o transporte, inclusive aos domingos e feriados. O nariz do lado direito exibe um enorme buraco. Da orelha esquerda, só sobrou uma pequena parte e as cicatrizes pelo corpo somam mais de uma centena.
Gomes está traumatizado e quer distância de cachorros. "Não voltaria (à chácara) e nem chegaria perto (dos cães).Fiquei deformado".
Para ele, o rottweiler é um animal perigoso e traiçoeiro. "Fazia quase 90 dias que eu cuidava desses cães e veja o que eles fizeram comigo", disse o homem que hoje tem uma vida limitada entre sair para os curativos e ficar na casa da irmã.
No início do ano passado, os mesmos animais escaparam da chácara onde ficam, invadiram a chácara do irmão de Gomes que é vizinha, mataram um bezerro e tentaram lhe atacar. Ele contou que foi salvo por um cercado com telas. Mesmo depois do susto, o caseiro não pensou para aceitar a proposta de alimentar os cachorros uma vez por dia em troca de R$ 150 por mês. "Nos três primeiros dias o rapaz esteve comigo na chácara, depois passei a ir sozinho".
Gomes contratou um advogado para mover uma ação de indenização contra os proprietários dos animais, que, segundo ele, não lhe pagaram o último mês de serviço prestado nem prestaram qualquer ajuda durante o período de internação e agora depois que recebeu alta. "Nem me ligaram para saber como estou passando".
O dono dos animais foi procurado para comentar as declarações de Antônio, mas não foi encontrado. Seu celular foi atendido por uma mulher que se identificou apenas como Elenice, que disse ser sua funcionária. Ela informou que ele não estava e disse não saber a que horas voltaria. O dono dos animais não retornou a ligação até o fechamento desta edição.
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