<p>O prefeito de Igarapava, Francisco Tadeu Molina (PSDB), 47, nunca foi tão assediado pela imprensa como nas últimas semanas. Re-eleito para o cargo no ano passado, foi personagem de um escândalo que no dia 18 de março levou para a cadeia mais da metade dos vereadores da cidade de 27 mil habitantes, às margens do Rio Grande, na divisa com Minas Gerais. Molina foi detido, algemado e preso por policiais militares e promotores de Franca, integrantes do Gaeco, o grupo montado pelo Ministério Público para combater o crime organizado. Mais tarde, a convicção dos promotores de que o prefeito não tinha culpa alguma os levou a indiciá-lo apenas como testemunha no caso. Na condição de chefe do Executivo de Igarapava, com um orçamento de R$ 42 milhões nas mãos, começou a receber visitas de cinco vereadores que queriam um "mensalinho" para poder aprovar suas contas na Câmara e garantir "seu sossego" por todo o mandato. O grupo de parlamentares formava a maioria no Legislativo - são nove vereadores ao todo - e podia, de fato, atormentar ou agradar o prefeito, conforme sua conveniência. São acusados de participar do esquema Alan Kardec de Mendonça (PSDB), presidente da Câmara; José Laudemiro Alves, o “Zé Bola” (DEM); José Eurípedes de Souza, o “Zezinho da Boate” (PT); Roberto Silveira (PSDB) e Sergio Augusto Freitas, o “Serginho” (PP). Após quatro reuniões, duas delas em Uberaba (MG), onde eram negociadas as bases do negócio ilegal, uma denúncia levou o MP a monitorar, com autorização da Justiça, o gabinete do prefeito e os telefones de todos os envolvidos. No dia 18, às 10 horas, Gaeco e PM invadiram a prefeitura e prenderam quatro vereadores em flagrante. O quinto parlamentar, Alan Kardec, passou quase 24 horas escondido em um armário, coberto com papelão. Foi encontrado pela PM no dia seguinte. Nesta entrevista, Francisco Tadeu Molina, médico urologista e nascido na roça, como fez questão de frisar, explica por que não denunciou os vereadores - o que pode lhe render um processo por prevaricação-, como foram as negociações e o momento da prisão. "Eu nunca daria dinheiro a eles. Eu renunciaria no dia 30, mas não trairia aqueles que votaram em mim", disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Qual o saldo político para o município após o que aconteceu (a prisão dos cinco vereadores)?<br />Francisco Tadeu Molina</strong> - É difícil dizer porque pegou todo mundo de surpresa. É uma situação que jamais imaginaria que fosse acontecer em Igarapava. Eu tentei por várias vezes ir prorrogando, com reuniões e mais reuniões, na tentativa de que houvesse uma possibilidade de que as coisas não chegassem ao ponto em que chegaram. É um saldo negativo. Temos um passado ruim na cidade. Desde 2005 tentamos fazer uma administração mais centrada, visando os interesses da população, corrigindo o norte da prefeitura, resgatando o crédito e a credibilidade do município. Nossa esperança para os próximos anos era - e ainda é - investir no desenvolvimento da cidade, mas o que aconteceu nos pegou num contrapé muito difícil. </p>
<p><strong>Comércio - No seu primeiro mandato houve algo que se aproximou do que aconteceu agora? Como foi seu relacionamento com a Câmara e, individualmente, com os vereadores?<br />Molina</strong> - Minha eleição foi curiosa. Eu fui eleito sem nenhum candidato a vereador e não fiz nenhuma coligação partidária. Eu e o meu vice saímos pelo mesmo partido (PAN - Partido dos Aposentados da Nação) sem nunca termos sido vereador e nem prefeito. Durante 2005 inteiro corremos atrás de processos que atravancaram um pouco nossa vida. Na Câmara, nossa aproximação se fez através de lideranças da cidade, de forma muito diferente. Conseguimos levar os quatro anos sem trocas, da forma como tinha de ser feito. Creio que a turbulência daquela eleição, que perdurou até o início de 2006, acabou tirando um pouco o ânimo de algumas pessoas (possíveis opositores) e nós pudemos governar sem problema. </p>
<p><strong>Comércio - Quando se iniciou o assédio dos vereadores e como ele se deu?<br />Molina</strong> - Quando começaram as primeiras reuniões da Câmara, no final de fevereiro e início de março, eu comecei a ser procurado por vereadores, mas num momento vinham dois, em outro momento mais dois, e eu sempre tentando ganhar tempo. </p>
<p><strong>Comércio - Tinha algum que se destacava, que assumia a liderança do grupo?<br />Molina</strong> - Não, nenhum. Quando um aparecia, eu perguntava se ele tinha procuração para falar em nome do grupo. Vinha outro e eu perguntava a mesma coisa e ele dizia que falava em nome do grupo também. No dia 16 de março, conversando com dois deles, o Sérgio (Freitas) e o Roberto (Silveira), eu disse que ficava difícil assumir um compromisso. Foi quando ele pediu para eu marcar uma reunião no gabinete com os cinco, a fim de deixar claro que as ideias eram as mesmas e que o grupo estava fechado. Eu marquei para terça, mas o Serginho falou que não podia porque tinha prova na faculdade. Então marquei para quarta-feira, às 10 horas. Foi quando todos vieram e aconteceu tudo aquilo que você já sabe. </p>
<p><strong>Comércio - Antes disso foram feitas reuniões em Uberaba...<br />Molina</strong> - Tínhamos nos reunido duas vezes em Uberaba, uma vez aqui em Igarapava e duas vezes no gabinete. A primeira com dois deles e a segunda, no dia 18, com os cinco. </p>
<p><strong>Comércio - Como foi o momento da detenção?<br />Molina</strong> - Fomos abordados nesta sala (mostrando). Dois deles, os vereadores Roberto e Sérgio, entraram por essa porta (aponta para a entrada principal) e disseram que o Alan queria entrar pela porta dos fundos porque não queria ser visto entrando no gabinete. Entraram o Alan, o Zé Bola e o Zezinho da Boate. Na saída, todos deixaram a sala pela porta que dá nos fundos. No momento em que eles começaram a descer a escada, o Sérgio e o Zezinho da Boate ficaram conversando comigo aqui. Nesse momento, alguém começou a bater na porta e o telefone tocava sem parar. Quando eu fui abrir a porta da frente, vi que eram os promotores. Entraram na minha sala dando voz de prisão, inclusive para mim, me algemando, dizendo que eu estava preso e que descesse junto com eles. Fiquei sem saber o que estava acontecendo, com aquele volume de polícia. Foi quando eu vi os quatro vereadores, mas estava faltando o Alan. Também tinha dois funcionários da prefeitura detidos. Em seguida colocaram algemas em todo mundo. Na delegacia o promotor me disse que eu estava sendo indiciado como vítima e testemunha e que era para eu contar a verdade. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor foi informado sobre o que aconteceu?<br />Molina</strong> - Sim, disseram que os telefones estavam sendo monitorados depois de surgir uma denúncia anônima e que precisavam que eu falasse a verdade. </p>
<p><strong>Comércio - Em algum momento o senhor desconfiou das escutas? O senhor tem ideia de quem pode ser o autor da denúncia?<br />Molina</strong> - Não tenho ideia. Se eu tivesse noção de que fosse acontecer a denúncia eu teria tomado qualquer outra atitude, porque nessa condição eu sairia como acusado e as consequências poderiam ser maiores. Eu não tinha noção do que estava acontecendo. Pelo contrário, eu pensei que os vereadores tinham armado para me pegar. Foi a impressão que eu tive na hora. Começou a passar um filme na minha cabeça. Mas eu tinha e tenho a minha consciência tranquila, porque eu não tinha executado o ato, não tinha dado nenhuma quantia a eles e não daria. Eu tinha jogado para o dia 30 e acordado, entre aspas, que o repasse só seria feito no final do mês. </p>
<p><strong>Comércio - Se o Ministério Público não tivesse feito a operação, aonde iria parar essa história, prefeito?<br />Molina</strong> - Com 100% de certeza eu renunciaria ao cargo de prefeito e vou te explicar minhas razões. Igarapava tem um divisor de águas em sua história política que foi a morte do prefeito Gilberto (Gilberto Soares dos Santos, o “Giriri”), em 1998. Ele foi assassinado por "n" motivos. Uma vez que você entra nesse jogo de contrapartida, você não tem volta e daí para a frente as consequências vão sendo cada vez maiores. Então, eu tinha duas saídas: primeiro, a minha vida como médico em Igarapava. Eu retomaria minha clientela, minha função, minha responsabilidade e poderia me manter desvinculado desse processo. A segunda opção seria aceitar essa situação e levar isso adiante até Deus sabe quando. Então, eu te afirmo: preferiria renunciar e por isso fui jogando cada vez mais para a frente. Vinha conversando com minha esposa, dizendo que o meio é complicado, que estava sofrendo muita pressão, que estava cansado. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor chegou a contar para ela o que estava acontecendo?<br />Molina</strong> - Não, não contei. Eu a vinha preparando para que até o dia 30 eu pudesse chegar e falar o que estava acontecendo e que eu não poderia continuar. Era minha intenção. Por isso fui amadurecendo a idéia de falar para ela para poder dar um desfecho final nesse negócio. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor disse que renunciaria ao cargo se continuasse sendo pressionado. O senhor nunca pensou em ir à polícia ou ao Ministério Público?<br />Molina</strong> - Como eu vou para a polícia sem nenhuma prova concreta? Se eu chegasse contando o que estava acontecendo e eles me pedissem uma prova eu não teria nenhuma para dar. Da mesma forma que se isso chega à Câmara e eles descobrem que eu não tenho nenhuma prova, você sabe o que poderia acabar acontecendo. Por outro lado, se eu abdicasse do meu cargo de prefeito teria muita gente falando que a população acreditou em mim e eu estava abrindo mão. Mas é preferível abrir mão e não dar prejuízo para o município que entrar nessa e trair aqueles que votaram em mim. Porque depois que você entra é um caminho sem volta. Não tem volta. </p>
<p><strong>Comércio - As exigências são as divulgadas, resumindo-se ao repasse de dinheiro?<br />Molina</strong> - A conversa inicial era de R$ 5 mil para cada um, totalizando R$ 25 mil. A partir de abril, seriam R$ 7 mil, num total de R$ 35 mil para o grupo. </p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor tem visto os reflexos de tudo o que aconteceu? Tem conversado com a população ou se retraiu depois dos eventos?<br />Molina</strong> - Como prefeito da cidade e condutor da gestão tenho uma preocupação muito grande em aguardar o fim da investigação, saber como tudo aconteceu e não tomar nenhuma atitude precipitada. Não posso mudar os destinos da cidade em virtude do que aconteceu. Preciso ter responsabilidade com a Câmara e com aqueles que ficaram para que eles tenham condição técnica e habilidade para conduzir o trabalho deles. É fácil querer usar o atual momento para querer tirar proveito político. Por isso é importante colocar a cabeça no lugar e aguardar a decisão judicial para que o município não sofra. A única coisa que eu pedi para as pessoas (...) é que elas não incitem a população contra quem está sendo investigado nesse momento. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor votou em algum dos cinco?<br />Molina</strong> - Não votei em nenhum deles. </p>
<p><strong>Comércio - Como anda sua segurança ao andar pela cidade? O senhor solicitou segurança ao Estado?<br />Molina</strong> - Eu continuo como antes. Conversei informalmente, mas não solicitei segurança ao governo. Ainda não tive condição de parar e raciocinar sobre a situação.</p>
<p><strong>Comércio - Mas a lembrança do que ocorreu com o Giriri continua por aí.<br />Molina</strong> - Sem dúvida. É uma coisa que exige cuidado. Fico preocupado e intranquilo, mas como sei que não fui o autor desse processo, espero que todos os que estão presos também pensem bastante nisso. </p>
<p><strong>Comércio - Mas o senhor acabou atingindo muitos interesses...<br />Molina</strong> - Ah, sim, sei bem disso. Mas é algo inevitável. Ou a gente dá um rumo diferente à política ou não mudamos nunca. </p>
<p><strong>Comércio - E a família, como tem enfrentado o problema?<br />Molina</strong> - A família fica abalada. Tenho duas filhas, com 18 e 16 anos, e isso não deixa de trazer intranquilidade. Mas tenho que tocar; não posso parar. </p>
<p><strong>Comércio - Se o senhor tivesse que fazer uma carta aberta à população de Igarapava, o senhor deixaria claro que não compactuaria com o grupo de vereadores?<br />Molina</strong> - Em hipótese alguma isso (ceder dinheiro aos vereadores) aconteceria. Porque se fosse outra a situação eu já teria pago para garantir o meu sossego. Por que eu iria ficar me desgastando com reuniões e encontros? Era mais fácil eu chegar e comprar minha tranquilidade mesmo que fosse contra minha forma de viver. Só que eu não coaduno com isso. Sou da roça e meu pai morreu para que eu pudesse ter uma formação. Eu não consigo conviver com esse tipo de coisa. Então eu afirmo à população de Igarapava que isso jamais aconteceria. </p>
<p><strong>Comércio - Se o senhor pudesse sair da condição de prefeito para apenas expressar sua opinião como cidadão sobre o ocorrido, qual seria ela?<br />Molina</strong> - Eu ficaria extremamente deprimido com a situação, porque as pessoas que votaram em você, e até mesmo as que não votaram, esperam um mínimo de dignidade de sua parte. E no seu dia-a-dia, para ganhar R$ 2 mil, R$ 3 mil, não é fácil. Agora, de repente, ver que uma pessoa que foi eleita para trabalhar pelos nossos interesses está exigindo R$ 7 mil é deprimente. E eu vou reiterar: tive muita dificuldade para chegar aonde cheguei. Eu sou médico e agora que tenho a oportunidade de estar do outro lado da cadeira, não faço mais que a minha obrigação ao trabalhar pela cidade. Igarapava é viável, desde que você trabalhe decentemente para ela.</p>
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