Colecionando os novos tempos


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Recordo muito ultimamente de minha infância. Talvez pelas saudades da ingenuidade daquele tempo, talvez saudades da ingenuidade que eu tinha naquele tempo. Colecionar objetos de pouco ou nenhum valor era parte dessa ingenuidade, além de um divertido passatempo... Durante as merecidas férias de Luiz Neto, titular desta coluna, o amigo me pediu para agir como seu interino em alguns de seus muitos afazeres e assumir temporariamente esta coluna entre esses. Em homenagem aos momentos de lazer e descanso do titular, optei por um tema ameno: coleções - do passado e atuais. Vamos lá! Como todo menino, era curioso sobre tudo. Sobre o diferente então, totalmente apaixonado. Meu avô uma noite recebeu a visita de um amigo seu de décadas. Trazia este senhor sob o braço uma grande caixa de madeira bem talhada que parecia iluminar seus olhos. Despertou minha curiosidade de menino, claro. Fui me chegando de mansinho, dando voltas no sofá, esticando os olhos para ver o conteúdo da bela caixa: canivetes... dezenas - talvez centenas - de canivetes, grandes, médios, pequenos, micros. Do clássico suíço até uma pequena adaga com cabo em forma de peixe, todas as cores, formas e usos. Babamos junto - meu avô e eu - sobre a coleção, que o vizinho nos dava o privilégio de ver. Foi um momento curto e inesquecível de minha vida. Alguns meses depois meu avô pedia meu auxílio para organizar centenas de moedas que guardava desde criança, algumas herdadas de seus pais e avós. E selos, muitos selos também. Por alguns anos nutri prazeres junto à filatelia (coleção de selos) e à numismática (coleção de moedas), mas os afazeres colocaram de lado esses hobbies e um assalto encerrou de vez minhas coleções. ... O incentivador das memórias descritas foi um conhecido, ao comentar sobre seu novo hobby de colecionar: - Não queria nada de selos ou moedas. Não teria tempo ou dinheiro para manter este tipo de coleção. Guardo coisas de meu dia a dia - disse, desfilando perante meus incrédulos olhos suas caixas... - Anotações com meus endereços de e-mail: são 27 no total, mas já estou abrindo mais. Vírus, chatos, trocas de servidores, provedores que quebram ou trocam de nome... tudo isso me fez chegar a este total; - Papeizinhos com anotações de senhas: tenho mais de 100 só entre bancos, cartões de crédito, computadores, redes, sites, e-mails, alarme de casa... isso sem contar as contrassenhas alfabéticas de caixas eletrônicos. Decorar todas é impossível e creio que até o melhor dos assaltantes desistiria diante do desafio de encontar a senha certa para cada coisa; - Boletins de Ocorrência: só este ano juntei mais cinco - dois de assalto e três de furtos que sofri. Já tenho uma caixa de sapatos cheia deles... Já as multas eu guardo em outras caixas separadas. Uma para mim e outra para a mulher; - Cartões de crédito, de banco, de convênio médico, convênio odontológico, locadoras de veículos, companhias aéreas, locadoras de filmes, crachás, clubes, ufa... É minha maior coleção até agora e fecho três caixas abarrotadas só com os cartões que não uso mais. Cartão telefônico sei que muita gente coleciona, mas a minha é maior e mais original; - Chave e controle-remoto de carro e portão de garagem. Tenho um mural que cobre toda a parede da garagem só com os controles estragados, ou de alarmes trocados, de carros que tive... chaves e mais chaves, controles e mais controles. Não guardo os de TV, vídeo, DVD, computador, som do carro, ar-condicionado, ventilador, brinquedos, pois o espaço não seria suficiente. Misturada discretamente no meio da curiosa coleção de meu amigo notei uma pasta de documentos de considerável tamanho e não resisti à curiosidade. - Essa é minha coleção de documentos de divórcio - até agora somam quatro - e ações de pensão alimentícia e afins. Estou pensando em aumentá-la depois que minha coleção de canecas de chope (relíquias de infância) viraram vasos para flores e vasilhas de cachorro. Sinal dos novos tempos. (Alexandre Fischer) ESTRANHOS COLECIONADORES Segundo o psicanalista italiano Sérgio Lebovici, o colecionador é um narcisista, que se apropria do objeto, independentemente de seu valor real. Coleções podem ser, como no caso acima, curiosas: a atriz francesa Catherine Deneuve nutre verdadeira obsessão por sua coleção de pulôveres de cachemir da década de 1940. Já a estilista italiana Biki mantém uma sala refrigerada em sua casa para conservar chocolates comprados nos mais diversos cantos do mundo. E o francês Michel Point construiu uma pista e um enorme hangar, em seu sítio na Borgonha, só para estacionar e eventualmente dar uma voltinha em um de seus vários aviões de guerra - Mìgs e Mirrages incluídos. O colecionador dedicado é um poeta de valores. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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