Fico imaginando como seria viver numa ilha. Numa ilha isolada, sozinha. Fantasio que sou a única habitante do que poderia ser um paraíso, se tivesse água encanada, gás para acender o fogo, uma hortazinha com verdurinhas verdinhas e nenhum réptil. Nenhum mesmo.
Uma biblioteca completa - gibis, inclusive, uma coleção de discos, de DVDs (pirateados ou legítimos). Máquina de lavar roupas, cozinha equipadíssima, máquina disso, daquilo e de fazer pão. Despensa completa. Adega digna. De enólogo algum botar defeito. Lavanderia? Precisa não, obrigada: no paraíso a roupa é prescindível, basta um avental para evitar acidentes desagradáveis na cozinha. No guarda-roupas sempre encontraria um conjunto de ban-lon (sou do tempo deles...) cor-de-rosa e outro preto, básico. Também só, para não complicar e ter que ficar escolhendo.
No momento do isolamento - voluntário ou não - agarraria alguns trecos. Jamais prescindiria, por exemplo, dos batons, do creme hidratante, da escova de dentes, do sabonete. E da lixa de unhas, pelo amor de Deus! Pensando bem, voltaria por um instante ao guarda-roupas só para pegar uma camiseta que trouxe do Rio em 1986, quando fui assistir, pela primeira e única vez, ao desfile das escolas de samba.
A família implica com ela: é muito feia e deselegante, com o que concordo plenamente. Insisto no uso porque é minha, quando ponho fico parecida com a Luma de Oliveira, acho (embora ninguém concorde comigo). Sem horários a cumprir, sem agenda a satisfazer, sem lenço nem documento, eu viveria feliz por... uma semana, porque esse negócio de ficar isolado deixa a gente meio mal-acostumado e depois voltar a viver em sociedade ficaria muito difícil. Mas não custa fantasiar: tá aí um excelente exercício.
Porém posso dizer como é viver numa outra espécie de ilha com certa propriedade, um pouco de conhecimento e alguma experiência. Numa Ilha com séculos de civilização, que atravessou anos e anos de guerras, que possui cultura invejável, escritores, cientistas, artistas, músicos, compositores, filósofos fantásticos e consagrados, monumentos arquitetônicos de cair o queixo, terras férteis, deslumbrantes e variados panoramas e, sobretudo, habitada por diferentes pessoas vindas de diferentes países outrora cativos e que, libertos, acham-se no direito de fazer com ela o que ela lhes fez no passado. (Esse negócio de opressão nunca deu certo!)
Tivemos, em casa, três objetivos básicos com relação à educação dos quatro filhos. Teriam que aprender natação, primeiro; teriam que fazer curso superior - qualquer, nem que fosse só para possuir diploma; falariam inglês, idioma reconhecido por nós como absolutamente fundamental. Não vamos deixar fortuna para eles.
Mas, se for preciso, com um pouco de treino atravessam o Canal da Mancha. Todos possuem terceiro grau - já dá para começar a preencher um currículo. Falam inglês fluente aprendido na Ilha: são diplomados, com certificado reconhecido por súditos da Rainha Elizabeth. Cruzei o oceano várias vezes ao longo de quinze anos para vê-los.
Somando entre a chegada do primeiro e a dos outros três, que vieram alternada e seguidamente, contabilizo um bom tempo vivido por aqui. Fui hóspede deles, nos seus habitats, quase sempre. Flats, casas, estúdios, quartos em casas de estudantes: depois de madura é que fui viver essas experiências diferentes e bastante ricas. Consequência disso, tenho histórias sobre passeios, pessoas, cidades, parques, monumentos, ruas, lojas, bibliotecas, museus, shows... Quem quiser me ouvir, põe o coração aqui! ...
Não, não há cidade mais linda que Paris, construída pelo homem. Sim, o Rio de Janeiro é uma obra divina. Lençóis Maranhenses? Absolutamente incomparável. Não, Londres não possui o charme nem de uma, nem de outra, nem deslumbra à primeira vista. É uma cidade feminina, imprevisível, charmosa, sedutora, seletiva, não é bonita, nem feia. Misteriosa, só se deixa ser descoberta aos poucos. Absolutamente contraditória. Circunstância perfeita para a mulher que mora aqui, diante de quem o mundo inteiro, com respeito pelo seu significado, se curva em reverência.
Aspas
“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano. Por isso não me perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.” John Donne, poeta inglês.
Formação
Há quem saiba e não se dê conta de que o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte - United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland, mais conhecido como Reino Unido - é formado por diferentes países: Escócia, Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte. Um doce para quem se lembrar dos nomes das capitais. Na Escócia nasceu Sean Connery. Na Inglaterra, os Beatles. Na Irlanda (quando ainda tinha a do Norte e do Sul) Oscar Wilde. E no País de Gales, a Catherine Zeta-Jones.
Incrível
Motivos para inveja, há muitos. O mais próximo - ando perturbada com a quantidade de acidentes em Franca - é com relação ao trânsito. Aqui os carros respeitam os sinais. Respeitam! Há avisos escritos no chão, nas placas aéreas: olhe para a direita, olhe para a esquerda, nos pontos nevrálgicos. E quem está a pé também respeita! As faixas para pedestres também existem e são observadas por todos! É fácil atravessar de um lado para outro mesmo empurrando um carrinho de bebê: os motoristas param para a gente! É doce a sensação de segurança que essa travessia nos dá.
Comentário
...engraçado na estação de rádio com notícias daqui, sobre o presidente Lula ter sido colocado ao lado da Rainha na foto estampada na primeira página dos jornais: de um lado ele, do outro o Gordon Brown, primeiro-ministro inglês. É que eles são baixinhos, quase da estatura da Rainha. Sendo o Obama daquele tamanhão, podia tapar a visão dos outros...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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