O pai, o professor e o juiz


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Diz o jargão popular que se começa a educar uma criança uns vinte anos antes de ela nascer, educando-se os pais dela. Pois, bem, estamos testemunhando diariamente, tanto na rede pública de ensino, como nas escolas particulares, atos de violência e vandalismo que chocam e amedrontam toda a sociedade. De quem é a responsabilidade? Os pais "pós-modernos" alimentam uma "ideologia de paternidade" que não condiz com o mundo em que vivem. Uma criança não deveria ter satisfeitas somente suas necessidades primárias, como alimento, brinquedos, lazer. Ela necessita desenvolver sentimentos de pertencimento tanto à família, como à escola, assim como ao meio social. A família, como a principal instituição formadora de cidadãos se perdeu num círculo de individualismos nunca antes visto. A mobilidade provocada pelo modelo econômico transformou os núcleos familiares, antes fortalecidos pelas solidariedades locais, em indivíduos parcelados, tanto em carnês de pagamento de contas, como em parte pais e parte empregados de empresas que os obrigam a constantes distanciamentos dos entes familiares. A escola encontra-se numa situação embaraçosa sem vislumbre de oferecer à criança e ao adolescente atrativos capazes de sustentar um ideal de vida no meio em que vivem. O professor é mal remunerado e não dispõe de material pedagógico capaz de reorientar a criança, o adolescente e o jovem que muitas vezes são originários de pais separados, ou pais que ignoram o contexto do mundo em que vivem e não se interessam pela vida do filho, ou envolvidos com ilícitos penais ou morais, fatos esses que provocam traumas que acompanham o indivíduo onde quer que esteja. Quando a família negligencia, a escola nada pode fazer. Ainda se ouve nas portas das escolas quando se inicia um período letivo as frases: "graças a Deus que esse menino vai ter aulas às manhãs/tardes inteiras, já não aguentava mais tanta amolação". Ora, parece que os pais querem "empurrar" a obrigação de educar o próprio filho ao professor. É bom que se tenha em mente que a escola vai oferecer uma educação intelectual, tentará desenvolver capacidades cognitivas nas crianças e adolescentes, ainda que precariamente, tendo em vista que a Educação no Brasil é sucata dos anos 50. Só que ninguém se engane. A obrigação de cuidar dos filhos, de encaminhá-los na vida, de trabalhar a capacidade afetiva, de valores, de respeito aos mais velhos e ao próprio professor é dos pais. Platão, lá na Grécia antiga, tentou implementar um modelo de sociedade onde a responsabilidade pela educação total das crianças era do Estado. Não deu certo. Quando se lê uma reportagem no jornal que um garoto de 12 anos quebrou a secretaria inteira da escola só porque ficou irritado por ter sido repreendido, pergunta-se: a reação violenta ocorreu porque esse garoto nunca foi repreendido em casa pelos pais, portanto não está acostumado a ouvir "não", ou ele estava vivendo um dia de fúria, comum a qualquer pessoa que passa por estresse ou que não tem nenhuma educação ou limite? O juiz, braço do Estado a atuar em face das controvérsias sociais, é o último recurso de que a sociedade dispõe para que haja respostas a tantas agressões tanto às pessoas como ao patrimônio. Mas ele também está sob a égide das leis. Não pode punir os pais por negligenciarem com relação à educação dos filhos. Não pode punir um adolescente infrator na medida do dano que ele provocou à sociedade. O círculo vicioso se realimenta e todos se transformam em reféns dos próprios conceitos sem se questionarem quais os motivos de tantos desajustes sociais. Nadir Ap. Cabral Bernardino Advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental

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