Marcas de uma tragédia


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SOBREVIVENTE - Luís Henrique Faccion, 14, durante atividade na Apae de Batatais; adolescente convive com sequelas após ser agredido por irmão com barra de ferro em 2002
SOBREVIVENTE - Luís Henrique Faccion, 14, durante atividade na Apae de Batatais; adolescente convive com sequelas após ser agredido por irmão com barra de ferro em 2002
A maior chacina que a região já conheceu completou, na quinta-feira da semana passada, sete anos. No dia 26 de março de 2002, o pintor de paredes Carlos Fabiano Faccion, o “Fabinho”, então com 24 anos, assassinou os próprios pais e três irmãos - entre eles uma irmã grávida de nove meses - em Batatais. Teve como comparsas sua namorada, Edna Emília Milani, 20 anos à época, e um menor, de 13. As armas utilizadas foram uma barra de ferro e uma faca, com as quais esmagaram as cabeças e cortaram os pescoços das vítimas. A frieza com que os crimes foram cometidos e a crueldade dos matadores fizeram com que o caso ganhasse repercussão internacional. A reportagem do Comércio da Franca voltou ao palco da tragédia e encontrou um cenário desolador. Chegar ao número 155 da Rua Luiz Tassinari, no Bairro Nova Alvorada, foi fácil, já que na cidade é raro quem não conheça o imóvel, desocupado desde a madrugada dos crimes. Com a família morta e Fabinho preso, a casa está vazia. Da rotina agitada de um local onde viviam nove pessoas nada ficou. O quintal de terra está tomado pelo mato. No portão de grades que dá para a rua, assim como na corrente que o tranca e nas venezianas externas, há muita ferrugem. Vigas de madeira presas à parede indicam que na parte frontal do imóvel havia uma varanda. Não há, porém, cobertura. Somente alguns cacos de telha de amianto no chão. Em uma mureta desta varanda, ainda é possível ler a palavra “Lucas” - nome de um dos irmãos de Fabinho que foram mortos por ele. A porta da sala está arrombada. O interior da residência de quatro cômodos cheira a bolor. Não há móveis. Os vidros permanecem, em sua maioria, intactos. O único sinal de vida são latas de cerveja e “corotes” de cachaça deixados por andarilhos e usuários de drogas que, não raro, passam a noite no local. Nas paredes, muitas manchas escuras. Algumas delas, possivelmente, remanescentes da tragédia, já que o sangue das vítimas tomou conta do imóvel no dia da matança. A casa está às escuras e sem água. A janela de um dos quartos estava travada com um arame, muito enferrujado, que se partiu na primeira tentativa de destorcê-lo. Provavelmente estava lá desde a época dos assassinatos. Teias de aranha e poças de água pelo chão - havia chovido na véspera - cobrem o piso, originalmente encerado na cor verde, e completam o cenário. A missão de carpir o mato e manter o local limpo ficou a cargo de Antônio Roberto da Silva, 49, irmão da matriarca da família, Maria Aparecida da Silva, a Dona Cida, morta na chacina. “Não é sempre que meu marido pode ir até lá. Faz bastante tempo que não vai, mas sempre que possível, dá uma manutenção”, disse Márcia Helena, mulher de Antônio. <b>O CRIME</b> <B>Veja a reconstituição do crime</b>: <a target="_blank" href="http://gcncomunica.wordpress.com/files/2009/04/tema-local-da-chacina-21.jpg"><img src="http://gcncomunica.wordpress.com/files/2009/04/tema-local-da-chacina-21.jpg" alt="arte/comércio da franca" title="arte/comércio da franca" width="500" height="399" class="alignnone size-full wp-image-2432" /></a> <em>*Clique na imagem para ampliar</em> Madrugada de terça-feira, 26 de março de 2002. Por volta de 2h30, os membros da família Faccion dormiam na residência da família. Menos um. O pintor de paredes Carlos Fabiano, o “Fabinho”, estava na sala, acordado. Preparava-se e repassava mentalmente o plano por meio do qual, instantes depois, mataria toda a sua família. Aguardava a chegada de sua namorada, Edna, e do menor CRSD, então com 13 anos, que o ajudariam a cometer os crimes. O ódio que o casal sentia era desproporcional à motivação alegada nos tribunais para o crime: a desaprovação dos pais de Fabinho ao relacionamento do filho com Edna. Surgiu, então, a idéia de simular um assalto, eliminar toda a família e ficar com os bens a ela pertencentes. Uma casa avaliada hoje em R$ 15 mil - praticamente o valor do terreno - e dois carros, uma Belina e uma Variant. O relato dos assassinatos ocorridos na casa dos Faccion é baseado nos depoimentos que os criminosos prestaram à Justiça durante as investigações e os julgamentos. Também foram considerados os laudos dos peritos, que pelo estado em que encontravam os corpos constataram que a matança começou entre 2h30 e três horas. E foi neste horário que o pintor abriu a porta da sala para que Edna e o menor, que ganharia meio quilo de maconha para ajudar na execução da chacina, entrassem. O trio ficou, por instantes, combinando como agiria. A mulher disse que quase desistiram. Enquanto ainda discutiam, Carlos Roberto Faccion, o “Carlinhos”, 48, acordou, saiu de seu quarto e entrou na sala. Fabinho foi em sua direção e, com uma barra de ferro em mãos, passou a agredir o pai com socos. “Que está fazendo comigo, filho?”, teria perguntado Carlinhos antes de ser atingido na cabeça com o cano. Tentou reagir, mas não deu tempo: foi novamente atingido por socos e pelo cano. Caiu, provavelmente já morto, na cozinha. Fabinho, então, entrou no quarto dos pais e atingiu com o cano de ferro a cabeça de sua mãe, Maria Aparecida Silva, 46, a “Dona Cida”, que dormia. O pintor voltou-se, então, para seu irmão Luiz Henrique, o “Dudu”, 7, e o golpeou na cabeça também com o ferro. A pancada foi tão violenta que a caixa craniana se abriu e o garoto sofreu perda de massa encefálica. A irmã caçula de Fabinho, Talia Faccion, 3, também teve a cabeça esmagada pelo pintor. Ela morreu. CRSD vinha logo atrás de Fabinho, cortando as gargantas das vítimas para assegurar que estavam mortas. Assim fez com Carlinhos, Dona Cida e Talia, que quase foi degolada. Seu pescoço ficou preso apenas pela pele. Dudu, provavelmente por ter sido dado como morto, não foi esfaqueado e sobreviveu. Fabinho, então, acompanhado de Edna, foi ao quarto onde dormiam seus irmãos Elaine, 25, e Lucas, 15. Também estavam no cômodo Laira, 3, filha de Elaine, e Alice Faccion, 72, avó do pintor. Elaine foi atacada por Edna, que tinha uma faca em mãos. Grávida de nove meses - tinha o parto marcado para aquele dia - foi ferida nas mãos e no ombro. Fabinho desfigurou seu rosto com a barra de ferro. Laira também sofreu vários golpes na cabeça, mas sobreviveu. Lucas, ao ver as agressões, avançou sobre Fabinho e pulou em suas costas. Mais forte, o irmão mais velho se desvencilhou e também o atingiu com o ferro. O número de golpes – a maioria na cabeça - é incerto. Em seguida, o trio deixou a casa na Variant branca de Carlinhos - dirigida por Fabinho. Pouco depois, o pintor percebeu que não havia pego os documentos e os três retornaram à casa dos Faccion. Para “aproveitar a viagem”, os assassinos levaram um rádio e a bolsa de Dona Cida. O menor e Fabinho, então, escutaram gemidos e notaram que Lucas ainda agonizava. Recebeu um golpe de misericórdia na cabeça - provavelmente aplicado pelo irmão -, uma facada no pescoço, atribuída a CRSD, e morreu. Fabinho e o menor voltaram ao carro, onde Edna aguardava, e tentaram deixar a cidade, mas a Variant quebrou. Foram então, os três, à casa de uma amiga de Edna, onde o casal dormiu. Poucas horas depois do crime foram presos pela polícia. O menor também foi detido no mesmo dia, um pouco mais tarde.

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