Um verdadeiro mentiroso


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Há a boa e a má mentira. A boa é concreta. Quando se fala em mentirinha, o pessoal mais antigo já fica até com água na boca. Trata-se de uma espécie de biscoito frito. As avós gostavam de fazer. Principalmente nos dias chuvosos, para agradar os netos com aquela massa de polvilho, ovo e água. Pena que é uma iguaria frita, em forma de filetes discoidais. Atualmente, a mentirinha tornou-se vilã em qualquer cardápio. Imagine o semblante de um nutricionista diante de uma fritura. Ah, e se a massa for então frigida diretamente na gordura de porco! A recomendação do profissional será de que o colesterol passará dos duzentos só de o glutão olhar para o disco de polvilho frito. Não precisa nem de comer para passar mal. A má mentira, aquela de caráter subjetivo, sempre tomou o tempo de pensadores, estudiosos e escritores de todos os tempos. Já na Grécia antiga, do arauto de sua sabedoria, Platão chegou a uma conclusão que faz qualquer político rir de orelha a orelha. Para o filósofo, somente os dirigentes da nação deviam ter o privilégio de mentir. Eles mentem para o bem da Pátria. Nessa linha de filosofia, o povo não deve reclamar. A mentira acaba sendo uma dádiva governamental. No fim, tudo se reverte para o bem da própria população. Não reconhecer o despojamento de quem está no poder é coisa de oposição (político sem cargo). Todo mundo sabe que os governantes não têm porcentagem sobre o valor de obras ou compras públicas. Essa fica por conta do 1º de abril. A vida de político no poder se resume a muita conversa (sinônimo de mentira, sabia? Dicionário faz bem e não engorda!). Freud chegou a essa proposição depois de analisar os governantes de sua época. Na ótica do psicanalista, a classe política não é muito estável em seus relacionamentos. Seus membros têm necessidade compulsiva de mentir entre si e para os outros. Está explicado! Um recente estudo sociológico chegou a conclusões estarrecedoras sobre o comportamento dos políticos norte-americanos. Após pesquisas entre familiares e amigos deles, descobriu-se que eles nunca gostaram de trabalhar. Antes, em seus empregos, a vida dos governantes sempre foi pautada por muita conversa e pouca atividade. Às vezes, a negligência atrapalhava até os colegas de serviço. Mesmo sem análise confiável, o estado vigente na vida pública brasileira está muito bem esclarecido. Não só através de estudos externos, mas até pela ficção interna. Mário de Andrade criou o personagem Macunaíma com a cara do Brasil. Aliás, ele é conhecido como o herói sem nenhum caráter. Suas mentiras começaram durante o parto. Nasceu falando e trapaceando a própria mãe. Depois de crescer, a vida de Macunaíma passou a ser somente tapeação. Quando se via descoberto nas suas tramoias, exclamava candidamente: “Eu menti!” Isso deixava o interlocutor sem saída. Mas no caso de insistência sobre o motivo de o herói ter mentido tão descaradamente, a vaticinada resposta vinha de pronto: “Eu não sabia de nada.” Ou: “A culpa é desses branco de olho azul.” Um dia, após ter percorrido parte do Brasil, Macunaíma acaba em São Paulo. Como mentia para todo mundo à sua volta, sempre em benefício próprio, seu irmão lhe disse que todos o tinham como um verdadeiro mentiroso. O herói assume um ar bem característico e anuncia: “Mano, vou virar político!” Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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