Estamos chegando ao fim da Quaresma. No próximo domingo iniciaremos a Semana Santa, com o Domingo de Ramos. Neste dia, também concluiremos a Campanha da Fraternidade 2009. Com o gesto concreto da coleta manifestaremos nossa atitude de partilha e solidariedade.
Na celebração de hoje somos convidados a ver Jesus em sua missão recebida do Pai. Seguimos os passos dos gregos que subiram a Jerusalém para adorar a Deus. Mas eles querem ver Jesus. O que significa ver Jesus? Por que ver Jesus? Ver Jesus é compreender sua atitude e desvendar seu projeto. Jesus mesmo o explica, fazendo uma meditação sobre a “hora”.“Hora” é o final de sua vida terrestre. Tudo caminha para essa hora.
A “hora” é o momento no qual o amor gratuito de Deus, materializado em seu carinho pelos pobres, encontra-se com a força social e religiosa que o rejeita: o pecado. Esse conflito expressa-se na cruz. Por isso, a cruz é levantada como denúncia daquilo que leva Jesus à morte e como testemunho de sua entrega de amor. Jesus pregado na cruz revela, com sua morte, o Deus da vida. Este é o Jesus que será visto pelos gregos e que nós encontramos na celebração de hoje.
O que Deus quer nos falar através da sua Palavra?
No livro de Jeremias, no capítulo 31, é anunciado que um dia Deus estabelecerá uma nova aliança com o seu povo. Este é um texto referencial do Antigo Testamento. Após o reinado desastroso e corrupto de Manassés, sobe ao trono o rei Josias. Ele é ainda criança quando assume o poder, mas, aos poucos, revela-se muito piedoso e inicia uma profunda reforma religiosa. Jeremias observa tudo em silêncio e mostra-se favorável à escolha do novo monarca.
Em todos se despertam esperanças de dias melhores. Está em andamento uma renovação espiritual e política. Nos bastidores dos novos tempos há, porém, uma inquietante reflexão: é preciso descobrir os erros do passado e tomar providências para que certas coisas não mais se repitam. Nos versos 31 e 32, o Senhor responde dizendo: o reino do Norte foi destruído por causa da sua infidelidade à aliança. Sim, algumas centenas de anos atrás, os israelitas no Sinai tinham feito uma aliança com Deus, que os tirou do Egito e que tinha se comprometido em defendê-los e havia-lhes prometido uma vida feliz e próspera.
Essa promessa tinha, no entanto, uma condição: que eles observassem seus mandamentos e ouvissem seus profetas. O povo tinha jurado fidelidade, mas, na prática, tinha acontecido o contrário.
Na carta aos Hebreus, encontramos um Jesus marcadamente humano. Ele não fingiu ser homem, ele passou verdadeiramente por todas as dificuldades e tentações comuns aos seres mortais. Tudo isso, porém, com uma diferança: nunca se deixou vencer pelo mal e sempre se manteve fiel ao Pai.
Hoje, aparece claramente a reação de Jesus frente à morte e ao sofrimento. Sentiu na carne aquilo que se passa com o ser humano nessas situações. Dirigindo-se ao Pai pediu que Ele o ajudasse e, se possível, o poupasse da dor e da morte. Orou, sentiu necessidade de invocar o Pai para acolher a sua vontade e para ter forças para realizá-la.
No evangelho de João é narrado um fato acontecido poucos dias antes da última páscoa de Jesus. Um grupo de gregos ou de estrangeiros que se tinha convertido à religião judaica ouvira falar de Jesus e queria encontrá-lo, ou melhor, vê-lo. Para João, ver Jesus não significa só contemplá-lo com os olhos, mas conhecê-lo em profundidade, descobrir quem ele é realmente.
Os gregos querem penetrar no íntimo da pessoa de Jesus. Eles antes eram pagãos, adoravam ídolos e tinham práticas supersticiosas. Mas um dia conheceram o Deus de Abraão e aceitaram a religião hebraica. Por ocasião da Páscoa, sobem até Jerusalém não para fazer turismo, mas para rezar, para encontrar-se com Deus e descobrir o que Ele ainda quer deles.Tomam consciência que ainda não alcançaram aquilo que o Senhor lhes pede. Sentem que Deus quer que eles se dirijam a Cristo. Eles, no entanto, não se dirigem diretamente a Jesus, mas a Felipe e André, os únicos apóstolos com nome grego, portanto, os interlocutores e mediadores mais apropriados.
Na primeira leitura temos a profecia de Jeremias sobre a nova aliança a qual nós vivemos hoje. Em Cristo realiza-se a nova aliança. Para estar nessa aliança, precisamos da força pascal do Cristo. Essa força nós recebemos no Batismo e continuamos recebendo na celebração dos sacramentos e na oração da Igreja: é o Espírito de Cristo, a lei da nova aliança, escrita no coração de cada um de nós.
Da carta aos Hebreus, colhemos uma lição preciosa: Jesus não permaneceu nos céus, contemplando as nossas angústias, mas tornou-se companheiro de viagem. Percorreu o caminho da humilhação e da morte. Por isso, podemos confiar nele e aceitar o convite que nos faz para sermos discípulos missionários. A segunda leitura nos convida a seguir o mesmo caminho de Cristo, um caminho marcado por dificuldades. Ele, porém, o percorreu antes de nós e por isso compreende nossas dificuldades e incertezas, nossos receios e fraquezas.
No evangelho, Jesus convida os seus discípulos a seguir o gesto prudente do agricultor que se priva da semente. Diz-lhes para não terem medo de perder a própria vida, porque quem morre por amor entra na glória de Deus.
O evangelho interpreta a morte de Jesus como uma manifestação de seu amor. Para ele o homem cresce e se realiza somente quando ama, ou seja, quando doa sua vida pelos irmãos.
O grupo dos gregos representa todos os pagãos que querem conhecer Cristo. Não se sabe se aqueles gregos se encontraram com Jesus. Fica, porém, uma palavra importante de Jesus: o grão de trigo para se transformar em espiga deve ser semeado na terra.
Igualmente o homem, se quiser valorizar a sua vida, se quiser fazer surgir um mundo novo, deve antes ter a coragem de morrer, ou seja, doar a si mesmo por amor. Para Cristo, o homem atinge o ponto mais alto da realização de sua vida quando se entrega à morte por amor aos seus irmãos.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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