Por imposição natural, somos dependentes da comida, da água, do sono, do ar, etc. Viver bem está relacionado ao modo de lidar com as nossas carências, tem a ver com saber a justa medida entre a tenência e a privação. Em outras palavras, é saber dosar a dependência, é não ampliá-la muito além do que a natureza estabelece. Principalmente na adolescência, na juventude, é comum fazer ou ter alguma coisa não por necessidade e sim para não se excluir de um determinado grupo, para não fugir de um padrão de comportamento. Graças a isso, certas bugigangas modernas, produtos de que nunca precisamos e sem os quais dá muito bem para passar, de repente são alçados à condição de indispensáveis.
Dependência e independência, conquanto deem ideia de opostos, nem sempre se anulam. A independência não é a total ausência de dependência, mas sim a capacidade de supri-la. Isso em se tratando das carências naturais, das quais ninguém está livre.
Quem consegue dormir bem necessita do sono tanto quanto quem não consegue; a diferença é que o primeiro não depende de nada para adormecer quando chega a hora, o segundo sim. A distinção reside, portanto, na maior ou menor facilidade de prover uma necessidade comum. Entretanto, independência pode ser o outro extremo da dependência quando se trata de carências outras. O que para uns é problema, para outros não é. Para o tabagista, a falta do cigarro é uma tortura; para quem não fuma, não é. O não-fumante é, sem dúvida, mais independente. A dependência do cigarro e de outras drogas não precisa existir, pois ninguém nasce com o vício nem tem necessidade de adquiri-lo.
É mais independente quem consegue viver de forma mais despojada, tem um espírito mais desprendido, não condiciona o prazer de viver a coisas descartáveis. Já perceberam quantos objetos sem utilidade compramos apenas porque estão em promoção? Certa vez, numa liquidação de CD`s, peguei uns dez e entrei na fila do caixa. Enquanto esperava, olhei bem cada um dos discos e percebi que não havia nenhum que valesse realmente a pena; ia comprá-los por puro impulso; saí da fila, recoloquei-os no lugar e me fui, livre leve e solto, com uma gostosa sensação de triunfo.
Tem quem subordina a satisfação a muitos fatores externos, e isso complica tudo. Há uma obsessão quanto à aparência física, uma necessidade insana de parecer mais novo. Parece que ficou proibido aparentar a idade real. Há pessoas que não se sentem felizes se não são o centro das atenções, se não estão sempre recebendo elogios, se não têm plateia. Essa necessidade pode ser bem amenizada com a simples constatação de que não é sempre que o mundo pode nos dar a atenção que queremos, assim como a gente às vezes precisa se desligar um pouco do mundo. Saber conviver consigo mesmo ajuda muito.
É bom depender só de nós mesmos quando isso for possível, realizar o que nos cabe ao invés de esperar que façam por nós, agir da forma serena e respeitosa mesmo em situações adversas. A nossa imagem depende dos nossos atos e não da nossa autoavaliação. A vida não perde a graça só porque não é possível agradar a gregos e troianos, causar sempre boa impressão, atender sempre às expectativas dos outros. A felicidade pode ser alcançada mesmo no plano comum, não exige que tudo seja superlativo, esteja no grau mais elevado, no nível extraordinário, no suprassumo. Assim, eleve o espírito, encha os pulmões de ar e sinta o prazer de viver.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro “Pensando na Vida”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.