Deve ter fundamento a teoria de que os filhos, num certo momento da existência, resgatam e realizam alguns sonhos dos e pelos pais. Meu pai cantava Ella imitando os trinados,os ai-ai-ais e ui-ui-uis dos mariachis, e eu queria morrer de vergonha.
Pedia aos deuses que tornasse todo mundo surdo para ninguém da vizinhança ouvir. Morávamos na Saldanha Marinho, para baixo da Praça do Café (sabe onde fica?), atravessando a Couto Magalhães, "muito longe" da Praça, como tudo que ficava a dois quarteirões do Centro da cidade. Os muito próximos fisicamente imagino que criticassem. Minha mãe morria de rir: olha só o que o amor faz. Afinadíssima e dona de uma linda e angelamariana voz, ela se divertia. Tomei uma birra franciscana de música mexicana.
Emocionado, ele chorava, ao cantar "me cansé de rogarle, me cansé de decirle que yo sin ella de pena muero" frases inicias da canção de amor. Duvido que soubesse exatamente o que estava dizendo. Naquela época a gente mal falava o Português que ainda tinha trema em cinqüenta, agüenta; tinha acento em dêle, êle, bôca, tôda, bôlo. Mais difícil de escrever, suficiente para a gente se entender. "Ya no quiso escucharme, y sus lábios se abrieron fué para decirme : ya no te quiero": mandava ver, sem piedade.
Nenhum outro familiar jamais tocou no assunto, percebo agora, fosse porque a coisa era menos séria que minha imaginação sugeria, fosse porque acabava sendo divertido vê-lo cantar tão desafinado e desajeitado. Com o tempo me acostumei. E, ao ouvir com constância, natural que acabasse por aprender as letras.
Lá um dia decidi visitar a Cidade do México. Buscava a história de Frida Kahlo que a mexicana Salma Hayeck mostrou ao mundo através de filme memorável, doce, triste e verdadeiro. Percorri os lugares onde estariam seus quadros. Na ocasião vi somente as cópias, perfeitas, incrivelmente fiéis: os originais estavam em Londres, no Tate Modern. Conheci a Fundação Dolores Olmedo - Maria de los Dolores Olmedo y Patiño Suarez pesquisando Frida e Rivera tal referência se torna obrigatória. Fiquei sabendo e conferi que a casa de Frida no filme é fake, mas absolutamente idêntica à original. Fiquei sabendo que Madonna, a cantora, é colecionadora de quadros e obras de arte (prova disso, Jesus o namoradinho é uma delas, não é?) e é proprietária da maior coleção particular da produção de Frida.
Na noite de despedida na Plaza Garibaldi, observando, ouvindo, aturdida com a concentração inimaginável de mariachis... sei lá se foi a tequila; pode ter sido o resultado acumulado da perturbação dos meus sentimentos ao acompanhar o processo de sofrimento físico e moral de Frida; talvez as evidências inexplicáveis (para mim) da sua paixão e tolerância para com Rivera; quem sabe a beleza das tardes mexicanas ou o calor da fé espalhada no ar; pode ter sido a fome; muito provavelmente tudo isso junto, ou apenas o colorido local, não sei dizer.
De repente a emoção passou dos limites suportáveis e, chorando pitangas, percebi-me acompanhando os mariachis nos trinados, ai-ai-ais e ui-ui-uis aprendidos com meu pai. Ele teria ficado muito feliz, se estivesse ali cantando com aquele coro, pistões e chapelões.
Senti saudades do passado, da minha infância, da antiga família que éramos. Mas pela primeira vez, muito distante fisicamente, não senti saudades de Franca. Nenhuma: era sair à rua, enfrentar o pior trânsito do mundo, a desobediência aos sinais, o alheamento dos motoristas, tentar atravessar embalde e corretamente um sinal... me parecia nunca ter saído daqui! Ia esquecendo... dos tesouros que papai deixou, a coleção de discos de Miguel Aceves Mejia foi o mais disputado.
Aspas
"... me dijo um arriero que no hay que llegar primero, pero hay que saber llegar." Gostar (e citar!) um trecho de El Rey, composição de José Alfredo Jiménez, eternizada por Miguel Aceves Mejia, é prova de que tenho um pé na breguice. E não me envergonho dela: o sentido da letra me arrepia, assumo. Arriero? Tropeiro, diz o dicionário.
Culinária
Passei fome no México. Tive medo de experimentar tudo o que me ofereciam além das conhecidas guaca isso, guaca aquilo. Eles comeriam iguanas e cascavéis e enganariam o turista pelo desejo de compartilhar a "iguaria sensacional". Mais ou menos o que fazemos ao forçar a barra para o visitante experimentar a feijoada. Quer coisa visualmente mais feia que uma tigela de feijão preto ensopado, com um monte de pedaços de carne escura, absolutamente impossíveis de serem reconhecidas?
Mistério
Nunca entendi o impulso que leva um motorista a perseguir desesperadamente o carro cuja porta ele percebeu mal fechada, sabe como? Corta o fluxo do trânsito, cruza a frente dos outros, buzina feito doido, faz sinais, aponta com desespero a fuselagem do veículo... tudo para dar o aviso. E se mostra incapaz de gentilezas tais como dar passagem; aguardar a saída nas portas de prédios e garagens; esperar alguém com dificuldade física descer com segurança. Um mistério.
Ponto final
Visão pessoal, obviamente. O quadro mais expressivo de Frida? Viva La Vida. A mais perturbadora possibilidade? Do seu suicídio, com a ajuda de Rivera. O mais impressionante depoimento do relacionamento? De Rivera: "Quando amo uma mulher, quero machucá-la tão profundamente quanto meu amor por ela; Frida foi a mais evidente vítima deste meu desprezível aspecto de personalidade." Choque? Perceber a dor moral, impotência e submissão nos olhos de Frida olhando o quadro A Coluna Partida, pintado em 1944.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e Membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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