Para desenvolver sua doutrina, o positivismo, Comte se empenha no estudo da humanidade, a qual ele denomina de le Grand Être, ou “o Grande Ser”. Comte cria, assim, a Religião da Humanidade, a crença de que poderia existir uma “civilização universal baseada na ciência”. Na dialética positivista Comte entendia que “o amor procura a ordem e a impele para o progresso; o progresso desenvolve a ordem e reconduz o amor”.
O Positivismo, que se iniciou no século 19, exerce forte influência até os dias atuais, sobretudo no culto ao livre mercado global. Muito paradoxal, por sinal, tendo em vista que Comte era um crítico mordaz do laissez faire. Mas as certezas científicas são tão evanescentes quanto a neblina de outono no raiar de um novo dia. Houve muita fé na humanidade e pouco investimento no indivíduo.
A humanidade não consegue se reinventar. Sempre necessita preencher o vazio de algo que dizem que não serve mais por outra coisa da mesma “natureza”. Deus foi afastado das relações sociais em razão dos males que se praticavam em Seu nome. Outro deus foi entronizado para sanar o problema, o Mercado.
Todos os acontecimentos atuais são reflexos de decisões tomadas há dois, três séculos, só que pouca gente admite isso. Desemprego, violência, analfabetismo, miséria, escassez e destruição dos recursos naturais, tuberculose, inchaço dos centros urbanos, corrupção, crime organizado, desmoronamento do Estado e demais tragédias humanas, estão intimamente relacionadas com o modelo de sociedade adotado, cultuado e adorado por aqueles que pretendem e perseguem a “imortalidade” terrena.
É só pôr em questão o atual momento histórico da humanidade, para compreender que esse modelo desenvolvimentista não iria perdurar. Os políticos precisam de votos, e para consegui-los devem dar ao povo o que o povo quer. Nem sempre a população tem condições de dimensionar os problemas que envolvem a Administração Pública. É muito difícil agradar a gregos e troianos e ainda implementar políticas que restaurem a sociedade já fragmentada por tantos apelos midiáticos de consumo, assim como de mudança de comportamento.
Por outro lado, é muito fácil corromper, comprar votos com programas sociais e assistencialismo. Já não há mais ordem, e progresso. Se existiu, foi à custa de perdas irreparáveis, tanto humanas quanto ambientais. Um Estado Democrático de Direito como o Brasil, possui milhares de leis, mas ainda falta uma, a lei que obrigue tanto os políticos, esses seres que vivem além de bem e de mal, quanto o simples particular que está sob os tentáculos do grande Leviatã, a cumprir todas essas leis.
Temos problemas sociais insolúveis, mesmo porque não há a menor vontade política de resolvê-los. Para se ter uma idéia, essa semana oito ou nove medidas provisórias estão trancando a pauta do Congresso Nacional. É o Executivo avançando sobre a área legislativa sem o menor pudor. Penso que o Congresso Brasileiro é o símbolo da opressão dessa “nação”, assim como o foi a Bastilha para o povo francês.
O particular e mesmo as grandes empresas e corporações não sentem nenhum impulso para cumprir a Lei, mesmo porque sabem de antemão que nada acontece com os infratores. Até a “mixórdia” externa, vivida pelos países europeus e pela América do Norte, em razão da crise, é mais organizada que a brasileira. O amadorismo histórico com que os dirigentes tupiniquins lidam com questões dessa ordem faz com que ninguém entenda o que está acontecendo hoje. “O Amor por princípio, e a ordem por base; o Progresso por fim”. (Auguste Comte)
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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