Gente como a gente


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Dos seus 43 anos de idade, 20 foram dedicados integralmente ao teatro. No ano passado, Sandra Corveloni estrelou seu primeiro filme e viu seu trabalho repercutir internacionalmente. Em Linha de Passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, a atriz interpreta Cleusa, mãe de quatro filhos de diferentes idades e pais, empregada doméstica e grávida. Pela sua atuação, a paulistana ganhou a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes, em Paris. Em Franca no último fim de semana, Sandra Corveloni encerrou o Festival "Águas de Março" com uma oficina teatral para quase 50 artistas da cidade, que ficaram encantados com a sua simpatia, simplicidade e inteligência. Na entrevista exclusiva ao Comércio, a atriz falou sobre a sua carreira, os novos projetos após a repercussão do longa, o prêmio e a retomada do cinema nacional. Ela acredita que o caminho para alavancar a cultura no País é a educação. <b>Comércio da Franca</b> - Você ficou conhecida com o filme Linha de Passe, mas sua carreira é extensa... <b>Sandra Corveloni</b> - Nem fiquei conhecida, viu (risos). O sucesso é muito rápido. Acontecem tantas coisas todo dia que isso é uma coisa a mais, claro que é superimportante, prestigioso. Eu sempre trabalhei muito, viajava com o teatro, no grupo Tapa, em São Paulo. Agora estou um pouco afastada do grupo porque não está dando para fazer tudo, mas estou conversando para fazer alguma coisa logo. Então sempre fiquei afundada, fechada lá no teatro. <b>Comércio</b> - Foi uma opção sua voltar a carreira ao teatro? <b>Sandra</b> - Na verdade, nunca fui atrás de outras coisas. Eu tinha que fazer algumas coisas para poder sobreviver porque o teatro às vezes não tem muito público, a peça não tem patrocínio... Escolhi dar aula de teatro e isso toma muito tempo, tem que ficar em contínuo movimento e aprimoramento para dar conta do recado. <b>Comércio</b>- São quantos anos de carreira? <b>Sandra</b> - São 20 anos. Comecei a estudar teatro mais seriamente em 1989, no Tuca, que era o teatro da Universidade Católica da PUC. Em 1999 comecei a dar aulas. Minha vida era isso e não dava tempo de correr atrás de outras coisas. Para isso, você tem que fazer teste, tem que ficar ali falando: `Oi lembra de mim?`, ligar para as produtoras, saber o que está acontecendo e eu nunca fui boa nisso. Quando pintava teste ia fazer, mas nunca tinha dado certo. <b>Comércio</b> - E como surgiu a oportunidade de fazer o filme? <b>Sandra</b> - Foi através de teste no estúdio da Fátima Toledo, em São Paulo. Fiz um, dois, três, com várias pessoas. Depois fiz teste de câmera de cinema com o Walter Salles e a Daniela Thomas (diretores de Linha de Passe). É um processo bem longo. O primeiro teste foi em março de 2006, começamos a ensaiar em março de 2007 e a filmar em junho. Finalizamos em setembro e o filme foi lançado um ano depois. <b>Comércio</b> - Você considera que o filme foi um divisor de águas em sua carreira? <b>Sandra</b> - Abriram-se portas que estavam bem fechadas. É muito difícil você conseguir bons papéis em cinema. O filme, que é super bem dirigido, e mais o prêmio, deram uma virada na minha carreira. Abriu uma vertente para o cinema que eu desejava, mas que não ficava dando murro em ponta de faca porque eu achava que se fosse acontecer seria um processo natural. Quando você vai crescendo na carreira, conhece pessoas e faz contatos, as pessoas vão ver o seu espetáculo, um indica para o outro, é uma coisa que você vai criando. Pode até ser que você fique famoso de uma hora pra outra, mas isto também não significa que você vai se manter famoso (risos) e no sucesso para sempre. Isso é muito difícil, não só na carreira artística, mas de maneira geral. Então foi incrível. <b>Comércio</b> - Você já recebeu outros convites? Quais são os seus projetos? <b>Sandra</b> - Já (risos). Está uma loucura. Eu estava brincando com a assessora do Walter Salles, a Maria Carlota (semana passada levamos o filme para um festival no sul da França - Linha de Passe estreou naquele país). Quantas coisas o cinema proporciona: leva atores que estão no filme para uma cidade no sul da França, onde as pessoas nunca te viram e depois vêm te perguntar uma série de coisas sobre a realidade do seu país e isso vai suscitando uma série de discussões. Levanta poeira de uma história, de uma cidade, que as pessoas têm muita curiosidade de conhecer e saber. Por causa do filme fui para festivais internacionais, conheci diretores de Portugal, da Bélgica, enfim, e já recebi alguns roteiros. Estou lendo quatro, mas isso não significa que vai virar alguma coisa. É um processo de namoro lento, você não pode sair fazendo tudo, não dá. Tem que ver primeiro se aquilo tem a ver com você, não adianta ficar numa ansiedade maluca de fazer um filme, ler o roteiro e ver que não tem nada a ver. <b>Comércio</b> - E propostas para a televisão? <b>Sandra</b> - Também tem algumas conversas, já me chamaram para fazer algumas coisas, mas não pude porque não tinha condições físicas e emocionais. Eu precisava de tempo para recuperar tudo o que aconteceu na minha vida no ano passado. Na época do prêmio tinha o lançamento do filme e eu já estava comprometida com um espetáculo francês. Prefiro começar com projetos menores, como o trabalho que faço na TV Cultura, que é mais rápido. Mas estou conversando com outras emissoras para fazer alguma coisa. <b>Comércio</b> - Como é esse trabalho que você faz na Cultura? <b>Sandra</b> - É o projeto Direções. Diretores de teatro dirigem textos de teatro na televisão, buscando uma linguagem para essa dramaturgia na tevê. No mês passado fiz com o Maucir Campanholi, diretor do Indac, uma escola de teatro muito bacana em São Paulo. Fizemos microsséries sobre Machado de Assis. É bom para mim que não tenho experiência. No palco sei o que fazer exatamente, sei dialogar com a luz, com o som, já televisão é outro papo: várias câmeras, tem que ser rápido... <b>Comércio</b> - O que significou esse prêmio? Você desbancou atrizes norte-americanas de peso como Angelina Jolie... <b>Sandra</b> - Nem pensei nisso. Foi tão grande o choque de receber essa notícia e ainda num momento tão difícil da minha vida (mãe de um menino de 7 anos, ela tinha sofrido um aborto), que eu estava meio bobona, num estado de letargia, muito triste, deprimida. Só fiquei muito feliz, isso me puxou para cima. Foi uma coisa tão incrível. Acho que o júri estava buscando um olhar agudo, focado sobre algum lugar, alguma coisa, que fosse um cinema de autora, mais na raça do que nos efeitos ou nas grandes histórias, mais real. Então eu tive uma “puta” sorte (risos). <b>Comércio</b> - E como foi interpretar a Cleusa? Você se inspirou em alguém, afinal o Brasil tem muitas Cleusas... <b>Sandra</b> - Nossa, milhares, milhões. Me inspirei na minha indignação em relação às coisas e na minha alegria de viver porque a Cleusa é porreta, não está lá parada esperando as coisas acontecerem. Foi muito bom fazer, mas também foi doloroso. Não foi fácil ser mãe daquelas quatros pestes, que eu adoro, todos eles são meninos muito queridos, especiais. Foi um processo muito cuidadoso, por isso que o resultado às vezes transcende as expectativas do próprio ator. Quando ganhei o prêmio, vi o filme, vi de novo, vi de novo e falava: “Meu Deus é tão delicado, tão tênue”. Um amigo francês me escreveu que é quase como se a gente não enxergasse a personagem no filme, mas a gente sai com ela do cinema, com aquela sensação dela. Não pensando: “Olha o que ela fez” porque não tem ação para ela. Eu falava para o Waltinho (Walter Salles): “Mas a Cleusa não faz nada, não acontece nada com ela, coitada”. E ele reforçava que ela é o eixo, a casa para onde os filhos voltam. Ele sabia o que estava fazendo. É genial vê-lo trabalhar, porque depois você vê o resultado e percebe que nada do que ele escolheu foi por acaso, nenhuma roupa, nenhum daqueles jeans e cacharréis horrorosos (risos). Todas as escolhas, as costuras durante o processo, fui entender depois. Olha só como se constrói um documentário que não é documentário, é um filme quase documentário. Jamais eu parti do princípio de que eu era a Cleusa, uma empregada doméstica... Eu pensava: “Sou a Sandra, nessa situação, mãe desses quatro filhos, morando nessa casa, trabalhando nesse lugar, o que eu to sentindo, o que eu to fazendo”. <b>Comércio</b> - E você torce para o Corínthians? <b>Sandra</b> - Por um acaso, sou corinthiana por parte de pai, mas costumo dizer que sou rosa e a minha personagem era roxa. Por isso fui muito nos estádios. Entrevistei muita gente, mulheres, mães de família, donas de casa sozinhas. Conversei muito com as pessoas e fui me colocando nesta situação, mas sem traçar uma linha. A Cleusa é uma pessoa, que está ali. Como é descobrir isso, em cada cena, em muitas outras que não entraram no filme. Partir desse princípio deu uma humanidade muito grande para a personagem. Cada pessoa é única, não dá para fazer um borrão senão fica estereotipado. <b>Comércio</b> - Qual a sua opinião em relação à retomada do cinema nacional? <b>Sandra</b> - Temos que achar de novo o caminho. Cultura no Brasil é difícil porque a gente não tem essa tradição desde pequeno, da escola, da família. Quando uma criança não está acostumada a ir ao cinema, ao teatro, à música, fica tudo mais difícil. Se você não aprende a gostar, a entender, a participar, você não vai aproveitar e então fica `engolindo` só o que a televisão te dá porque é o que você pode ver. Tem muita coisa gratuita, mas tem que ir atrás. É uma retomada lenta, tem que ter política cultural, investimento. É na educação que a gente vai resolver o problema, desde o berço. O cinema não é barato, está ficando cada vez inacessível porque sempre é no shopping e para entrar lá você tem que quebrar uma barreira, tudo é mais caro, mas ainda bem que o cinema está sendo retomado, que tem muita gente querendo escrever, aprender a fazer roteiro. As pessoas falam que só têm filmes de violência, não concordo. A gente tem que mastigar muito antes de engolir. Temos que ver a nossa realidade. Aqui (Franca) não tem criança pedindo esmola, mas em São Paulo e nas grandes capitais você vê um monte. Em algumas sessões na periferia, as pessoas me perguntavam se eu não ficava triste de só rico ver o filme que eu fiz de pobre. Fico, claro, mas os pobres não querem ver, já veem todo dia. É uma forma de usar isso como ferramenta de discussão social. A arte tem função social. Não é só BBB, que a gente engole isso pronto que entra dentro da nossa casa. Temos que interagir e discutir. Até acho que os realities shows criam uma discussão, o problema é que tudo fica muito na sedução barata, na volúpia, no apelo... <b>Comércio</b> - É mais fácil apertar o botão do controle remoto... <b>Sandra</b> - O ser humano é acomodado. Já participei de vários projetos de fomento ao teatro, buscava os alunos da periferia para assistir a uma peça e tinha que explicar para jovens de 18, 20 anos que eles não podiam jogar pipoca, levantar e falar alto porque os atores estavam ali. Isso é um atraso, é inadmissível. Quantos tênis já levei nessas apresentações, bolas de papel, aviãozinho, caixas de fósforo, é uma judiação, uma pena. Falta arte na educação. Não adianta a criança saber a tabuada de trás para frente, que isso também não é o caso. Elas não têm noção da língua. Eu acredito na língua falada, na transformação, mas a pessoa tem que saber o que está transformando, senão fica uma improvisação em cima do nada, sei lá, é aquilo, mal remunerados, políticos mal preparados e por aí vai... <b>Ouça abaixo a entrevista da repórter Fernanda Martins:</b> <embed src="http://media.entertonement.com/embed/PlayerText.swf" id="1_75bc46de_19ff_11de_8406_0015c5f4d265" name="PlayerText" flashvars="auto_play=0&meta_url=http%3A%2F%2Fwww.entertonement.com%2Fclips%2Fxlqfrgryfk.query&id=1_75bc46de_19ff_11de_8406_0015c5f4d265" width="304" height="30" style="display: block; margin: 10px auto; text-align: center;" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" quality="high" bgcolor="#ffffff" wmode="transparent" align="middle" allowScriptAccess="sameDomain" allowFullScreen="false"></embed><a target="_blank" href="http://www.entertonement.com/clips/xlqfrgryfk--FER-MARTINS-SANDRA-CORVELONE-AUDIO-BRUTO?ht_link=1_75bc46de_19ff_11de_8406_0015c5f4d265"><img alt="Blank" border="0" height="0" src="http://www.entertonement.com/widgets/img/clip/xlqfrgryfk/1/1_75bc46de_19ff_11de_8406_0015c5f4d265/blank.gif" style="visibility: hidden; width: 0px; height: 0px; margin:0; padding:0; float:right" width="0" /></a> <i>*Se não conseguir ouvir o áudio, clique <a target="_blank" href=" http://www.entertonement.com/clips/xlqfrgryfk--FER-MARTINS-SANDRA-CORVELONE-AUDIO-BRUTO"><u>aqui</u></i></a>.

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