Canibalismo


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Se o canibalismo é um mal que atropela os proprietários de granjas, os criadores de coelhos e outras atividades comerciais ou mesmo as famílias da aranha ("viúva-negra") e dos gafanhotos ("louva-a- deus"), temos agora a esperança de que ele possa trazer benefícios à população brasileira. Sabemos da fertilidade do coelho e da fácil multiplicação da espécie, fato que leva a um cuidado especial com o fator espaço adequado a sua densidade populacional. Espaço atribuído a 10 coelhos não pode acomodar 20, procedimento que levaria certamente ao canibalismo como ajuste populacional à gaiola que os abriga. Como fértil e crescente é a proliferação de agentes políticos nas edilidades, assembleias e Congresso Nacional, sempre de comportamento duvidoso, preocupa o futuro que se pode antever para próximas gerações. Já não se frequentam páginas de jornal sem registros de cassações, rejeições dos Tribunais de Contas ou prisões de representantes do povo no Executivo ou Legislativo. Ainda na semana passada este Comércio dava conta da prisão de vereadores em Igarapava (SP). Nem mesmo o Judiciário tem escapado de frequentes citações a figuras ilustres de sua corporação, manchas evidentes de comportamentos lesivos à sociedade que no passado guardou respeito inabalável pela instituição. Verbas recebidas sem prestação de contas, viagens e estadias pagas com dinheiro do povo, mansões milionárias sem obediência a posturas legais, além de outros desmandos configuram o cenário. A competição por alguma coisa, a coexistência desarmônica, são causas naturais do aparecimento do canibalismo. A globalização e o forte anseio de poder levam o homem ao impiedoso hábito do gládio pelo mando, ainda que na desonra da corrupção. Onde nossa crença de um canibalismo nos corredores do poder, alimentando esperanças de uma competição saudável a redundar massificação de benefícios? A proliferação de chefias pelos apaniguados do poder político em todas as esferas da república – 136 diretores no Senado – grande parte deles indicados em gestões passadas do atual presidente Sarney. Enquanto o presidente do Senado desabafa acabrunhado: "Não sei por que agora resolveram tirar todos os esqueletos do armário..." e Mão Santa, defendendo Renan Calheiros, bota verbo na mesa: "Há muita inveja, mas representamos o que há de melhor neste País, virtuosos, os pais desta pátria!". Dá mesmo pena ver os membros do PMDB alegando inocência como injustiçados pelos fatos que têm degradado a imagem do Senado. Aqui cabe perquirir com firmeza aos agentes políticos – de tradição profissional – mergulhados no lamaçal da corrupção: o bolo da República ficou pequeno ou o número e o apetite dos que dele partilham cresceram demais? Em qualquer das hipóteses ficaria diminuído o espaço, motivo suficiente para provocar competição e choque de interesses, forte condicionante para provocar canibalismo. Se nas áreas de produção e trabalho o canibalismo deve ser combatido com eficiência, no intestino da política e do Senado será bem-vindo, para minimizar seus efeitos deletérios. Garcia Netto Jornalista

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