De volta


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Só quem partiu pode voltar. Óbvio, não? Parte da letra de antiga canção, o trecho devidamente musicado veio-me à cabeça no momento da volta ao Comércio da Franca. Ainda tenho recortes de jornal, amarelados, do tempo em que escrevia no rodapé da página a provar que sim, comecei literalmente por baixo. Não existia computador, nem internet, usávamos máquina de escrever. Não, os textos não eram transmitidos por sinais de fumaça. Bessinha, colaborador do jornal e grande amigo até hoje, sugeriu o nome da coluna. Aí, comecei. Longa trajetória. Dei cabeçadas, sentia-me a rainha da cocada preta, desandei a falar pelos cotovelos, subi nas tamancas, atirava para todo lado. Sentia-me a Penélope Charmosa – cheia de fricotes e poderosísima. "Maior o coqueiro, maior o tombo do coco", também parte da letra de antiga canção. Caí. Esborrachei-me. A água espalhou, não se aproveitou nem a casca. Se tinha, nem miolo sobrou. Fui catando aqui e ali meus pedacinhos, recompus-me, fiquei em pé e agora, mais humilde, menos arrogante, com capacidade de conter-me dentro de limites humanos e definidos, voltei. Poder voltar pressupõe uma ida, subentende uma estadia. A ida não é fácil. Nenhuma ida é fácil. Necessária, compulsória, estratégica, talvez. Mas fácil não é. Há dor e tristeza - emoções das quais não escapa nem quem empreende uma viagem de recreio: acontece a insegurança de deixar para trás o que não se pode levar junto, percebe? Quem vai, enfrenta o desconhecido, precisa ter coragem. Perigos, limites entre o êxito da empreitada e o insucesso não são visíveis, muito menos palpáveis: ousar é quase sempre sinônimo de arriscar-se. A estadia? Sem o conforto da circunstância conhecida, desprevenido ao enfrentar incertezas, desprovido de convicções, sem o amparo, o abrigo, o refúgio da realidade conhecida, o valente se vê chorando pitangas. Luta para aprender, adaptar-se, entender a complexidade externa e sobreviver. Aí o valor da estadia em campo desconhecido: a gente muda. A gente se transforma. A gente não é mais o mesmo. A gente evolui. Então, fui. Na volta a certeza de estar mais madura que antes. Resquício da antiga prepotência, cá estou a presumir que sou conhecida. Apresento-me. Muito prazer, sou Lúcia Helena. Descendo de antiga família italiana radicada em Franca, tenho raízes nesta terra, bem fincadas. Sou apaixonada por ela. Já fiz poesia enaltecendo suas colinas, suas cores, seu céu, sua gente. Não acredito, por nunca ter visto em algum outro lugar, céu que se iguale em beleza nas manhãs de Outono ou no momento do lusco-fusco do Inverno, naquele instante em que não é mais dia, mas não se pode dizer que seja noite. Sempre me imaginei dentro de vestido laranja-rosa-turquesa-verde, fininho, esvoaçante, reprodução pictórica do preciso momento ao qual me refiro. Brincos de brilhantes para imitar estrelas. Mesmo parecendo uma arara, iria até à Praça Nossa Senhora da Conceição para ouvir a banda. Adoro as tradições francanas. Estudei nas escolas estaduais quando elas eram eficientes, quando prestávamos vestibular logo depois do diploma do colegial e éramos aprovados. Casei-me com gente daqui, tenho linda e numerosa família. Já trabalhei com carteira assinada, adoro cozinhar, faço feira, supermercado, açougue, padaria, italianices: tenho prazer em ver meu povo comendo. Idealista na juventude sofri o pão que o diabo amassou durante ao golpe de 64. Recentemente me ligaram perguntando se queria entrar com ação contra o Estado para ressarcimento e indenização dos constrangimentos passados na época. Não quis: considero vergonhoso enfiar a mão no bolso alheio e isso me sugere impossíveis incursões pelos campos da política. Sou teimosa. Muito teimosa. De riqueza acumulada e intransferível, apenas as histórias que tenho pra contar. Muito prazer! Estou de volta. Estarei aqui às sextas-feiras. Nas 13, inclusive. ASPAS `Sou extremamente grato a meus inimigos. No caminho em direção ao êxito, um pontapé no traseiro atira a gente mais longe do que um afetuoso aperto de mão`. (David Sarnoff) TRÊS SONHOS Dormir com as janelas do quarto abertas, sem medo de acordar com o frio do cano de um revólver na testa. Atravessar com calma a avenida Champagnat cruzamento com a Ismael Alonso e chegar ao outro lado inteirinha. Ir ao cinema, ver o filme sem ser incomodada com o calor da sala ou com conversas altas dos outros espectadores. VINGANÇA... ... maior não existe que a do desiludido homem de uma música de Vicente Celestino. Apaixonado inutilmente e desprezado pela mulher que zomba dessa paixão, escarnece dele e o ridiculariza quando pede sua fotografia, confessa ter sofrido profunda, lancinante e pungentemente. Porém hoje tudo passou, está recuperado. E termina a música, desaforado, com a frase cujo significado adoro: `eu hoje rasguei o seu retrato ajoelhado aos pés de outra mulher`. ESPERANÇA Louvável, justificável e compreensível a atitude judicial que interdita os salões de festas da cidade que estão fora dos padrões de segurança determinados pelo Corpo de Bombeiros. Que em breve tempo todos os salões estejam dentro da legalidade e possam ser utilizados sem qualquer risco. Alguns já foram autuados, protestaram mas aceitaram e até concordaram com a resolução. Que a medida seja ampla, geral e irrestritamente aplicada a todos os outros. PONTO FINAL Morrer é muito chato e a morte é desumana... mas deu inveja de como o Clodovil partiu. Isso deu. Morreu com dignidade, diria até maior do que viveu. Mansamente, sem sofrer deterioração, trabalhando, sob as luzes de todos os holofotes como desejaria. Vão falar um bocado dele, agora bem ou minimizando algumas de suas ridículas atitudes. Vai ser capa de um monte de revistas, vai estar em todas as conversas. Temo até que vire santo, o que invariavelmente a morte faz com (quase) todo mundo... Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e Membro da Academia Francana de Letras -luciahelena@comerciodafranca.com.br

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