‘Saber ouvir pode salvar uma vida’


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PRONTO PARA OUVIR - Coordenador do CVV (Centro de Valorização da Vida) de Franca, Sérgio Oliveira afirma que as pessoas precisam expor seus problemas e não têm ninguém para ouvi-las. “As pessoas são pouco ou
PRONTO PARA OUVIR - Coordenador do CVV (Centro de Valorização da Vida) de Franca, Sérgio Oliveira afirma que as pessoas precisam expor seus problemas e não têm ninguém para ouvi-las. “As pessoas são pouco ou
Durante o tempo que você levar para ler esta entrevista, pelo menos 30 pessoas terão se suicidado em alguma parte do mundo. No Brasil, ou em outros países, alguém tira a própria vida a cada 20 segundos, estatística crescente, sobretudo entre jovens e adolescentes. No ápice da fragilidade, essas pessoas poderiam ter evitado a solução final tendo apenas alguém com quem conversar, com quem se abrir. Nossa sociedade, tal qual se apresenta, e vivendo sob a pressão do tempo, minimizou a possibilidade de alguém ser ouvido, mesmo que isso signifique a diferença entre viver ou não. O CVV de Franca, a exemplo dos postos da entidade espalhados por diversas outras cidades, funciona com um único objetivo: ouvir. Seus voluntários não dão conselhos e não dizem o que deve ser feito; apenas ouvem. Ao permitir que pessoas no auge de suas crises falem sobre seus problemas, estabelecem um canal de confiança que abre a mente para uma melhor aceitação do que as aflige e, com isso, ajudam a encontrar soluções que, sozinhas, elas não conseguiriam. O CVV, como diz seu coordenador em Franca, Sérgio Oliveira, 43, trabalha para evitar o suicídio, mas não só isso, podendo ser definido como um trabalho humanitário. Há 26 anos atuando como voluntário, Oliveira coleciona histórias em que a sua ajuda e a dos colegas mudaram a vida de muita gente, ou pelo menos as fizeram enxergar a vida sobre outra ótica. Nesta entrevista, Oliveira, que é assistente social de formação, fala sobre como se prepara um voluntário, o cotidiano dos atendimentos e reforça: “Hoje, encontrar alguém que te ouça cinco minutos é uma dádiva”. Comércio da Franca - Você está envolvido com o CVV há quanto tempo? Sérgio Oliveira - Entrei no CVV de São Caetano em agosto de 1983, com 18 anos. Como muita gente, entrei por acaso e por curiosidade. Vi uma divulgação para seleção de voluntários, assisti às aulas de formação e aqui estou até hoje. É um trabalho com o qual me identifico muito, diferente de outros trabalhos voluntários. Nem pior nem melhor, mas diferente. A atuação no CVV exige uma transformação na pessoa, exigindo que você mude, aprendendo a se relacionar melhor, a ser um ouvinte melhor. É uma mudança profunda e de longo prazo. Comércio - As campanhas para formar novos voluntários são frequentes. É difícil os voluntários permanecerem por muito tempo? Sérgio - O trabalho voluntário exige disponibilidade de tempo. Para muitas pessoas o voluntariado é o tempo que sobra. No CVV, ele é parte do seu dia, em que é preciso dedicar uma parte da sua semana para as reuniões de grupo, os estudos. Para algumas pessoas, isso não é compatível com a vida delas. E tem mais: exige uma mudança pessoal e certas pessoas são inflexíveis. Algumas delas vêm aqui querendo aconselhar, com postura autoritária, o que não serve. Há também o fator econômico. Como não temos suporte financeiro para nos manter totalmente, precisamos fazer campanhas, ir atrás de doações. E existem pessoas que não concordam e não conseguem fazer esse tipo de tarefa. Comércio - Não existe também o fator psicológico? O fato de a pessoa não suportar o peso das dores dos outros? Sérgio - Acho que muito pouco. Durante sua história, o CVV desenvolveu-se para dar todo o apoio para o voluntário. Abrir-se para os problemas dos outros requer estrutura e nem sempre você está disposto ou nem sempre sabe o que fazer com o que acabou de saber. Se eu dissesse que não existe voluntário que saia por esse motivo eu estaria mascarando, mas o número é muito pequeno. Comércio - O que acontece com a pessoa que quer ser voluntária? Sérgio - O interessado passa pelo programa de seleção de voluntários. São quatro aulas, em que ele vai conhecer a instituição, natureza do trabalho, como o CVV surgiu. Depois vai saber quem é a pessoa que procura pela entidade. Na outra aula, mostramos o perfil que esperamos do voluntário. Na quarta aula, vem a relação de ajuda, como deve se dar o atendimento para que aquela pessoa que ligou possa desabafar, colocar para fora suas angústias. São 10 horas de aula. Após isso vem o estágio, um treinamento prático, mas sem atendimento. Apresentamos ao voluntário os casos mais comuns de ligações que nos chegam, de um trote a casos de alguém em situação extrema. É um processo intenso, acompanhado por voluntários mais experientes. Ao final desse tempo já temos condição de detectar na pessoa o perfil de que precisamos. Quem se sentir capaz é admitido para assumir um plantão. Ainda assim, nas primeiras vezes, será acompanhado por outro voluntário. Comércio - No atendimento, o voluntário não pergunta nada sobre a pessoa que está ligando? Sérgio - Não, nada que possa identificá-la. Quando estou falando com uma pessoa não sei o nome, a profissão, a idade, de onde está ligando, se é de Franca ou não. Às vezes a pessoa até diz, mas nós não perguntamos nada. Exatamente para deixá-la à vontade. Existem situações muito particulares, em que a pessoa liga porque não teve coragem de dizer para ninguém. Aqui não temos nem mesmo identificador de chamadas. O sigilo é total. Comércio - Há algum tipo de assunto que não é aconselhado ao voluntário tratar? Sérgio - Se a pessoa ligou porque está se sentindo sozinha, conversamos com ela, damos certo tempo. Mas depois se ela vier comentando a novela, o Campeonato Paulista, damos um jeito de encerrar logo a conversa. A orientação é essa. Porque a linha está ocupada e pode existir outra pessoa precisando de ajuda. Há casos de quem confunde o CVV com um disque-sexo. A pessoa liga, começa a conversar e vai mudando o tom até se revelar. Até guarda-noturno já ligou aqui para fazer o sono passar. Mas em nenhum momento desligamos o telefone abruptamente. Comércio - Entre os atendimentos, qual situação é mais recorrente? Sérgio - Dizemos aos voluntários mais novos que quando o telefone tocar eles devem estar preparados para qualquer situação. É claro que existem situações mais frequentes como os casos de solidão. E não é o caso de a pessoa estar sozinha, não ter momentaneamente com quem contar. Eu falo da solidão que nasce por causa da característica de nossa sociedade, que não tem disponibilidade de ouvir. A pessoa pode estar cercada de pessoas e se sentir sozinha. Existem os problemas financeiros, relacionamento familiar, agressividade na juventude. Outras pessoas têm medo de ser prejulgadas. Em determinada ocasião, uma universitária que morava sozinha em Franca me ligou para dizer que havia engravidado. Os pais moravam fora e ela não tinha coragem de ligar para eles. Havia o medo da rejeição. Ela não tinha coragem de contar nem para as amigas. O resumo é: as pessoas são pouco ouvidas e mal ouvidas. Comércio - No caso hipotético dessa universitária como agem os voluntários? Eles vão dizer o que ela deve fazer? Sérgio - A essência do trabalho do CVV é facilitar o desabafo da pessoa e, através disso, ajudá-la a encontrar alternativas, caminhos, dentro do princípio da não diretividade. O voluntário sabe que quem tem condição de resolver o problema é quem está ligando e não quem está atendendo. Convidamos a pessoa a desabar, falar o máximo sobre o problema. Nesse momento ela chora, começa a perceber coisas que não estavam claras para ela. Ao falar, ela monta um quebra-cabeça e as soluções vão aparecendo. Em alguns casos a pessoa já pergunta ao voluntário o que deve fazer, mas induzimos a conversa de modo que ela mesma perceba qual a solução para o problema por que está passando. Outras vezes, a pessoa termina dizendo que vai fazer exatamente o que o voluntário disse. Mas o voluntário não disse nada. Ele só ajudou a encontrar caminhos. As coisas vieram dela. Ela teve chance de falar. Comércio - E quais os casos mais agudos, mais complexos? Sérgio - Existem situações em que a pessoa está na beira do precipício. A solução para ela é o suicídio e ela já fez planos para isso. Essas ligações são raras e não passam de 2% dos atendimentos. Nossa intenção é chegar a essa pessoa muito antes desse estágio. Um amigo de outra cidade relatou em um livro editado pelo CVV a história de um atendimento em que uma mulher ligou dizendo que estava pronta para se matar. Depois de uma longa conversa, ela, antes de desligar, disse: “Hoje não. Pelo menos hoje não”. Comércio - No início deste mês, em Franca, um rapaz de 25 anos aparentemente cometeu suicídio. Tudo indica que ele jogou seu carro em um barranco. Antes, avisou a família. Este aviso é comum? Sérgio - A pessoa que comete um suicídio e deixa qualquer tipo de comunicação, ou mesmo avisa sobre o que vai fazer, está tentando se desculpar pelo ato. O suicida tem noção do estrago que vai causar nas pessoas. Ele quer reforçar que é uma decisão pessoal, mas sabe o que isso vai causar. Comércio - O que antecede em termos comportamentais o ato de tirar a própria vida? Sérgio - O suicídio não é um gesto intempestivo, ao contrário do que muita gente pensa. A decisão de acabar com a própria vida não é tomada de uma hora para outra. A pessoa vinha pensando e estudando, porque o suicídio é um processo gradativo. Não dá para afirmar neste caso, mas pode ser que ele viesse perdendo o valor pela vida há muito tempo sem nunca procurar ajuda para seu sofrimento, o que poderia ter evitado. Comércio - Voltando à discrição dos voluntários. Já houve quem ligasse para dizer que iria matar outra pessoa? Sérgio - Uma vez tocaram a campainha do posto. Abri a porta e iniciei o atendimento. A pessoa estava muito nervosa, criticando o irmão. De repente, tirou de dentro de uma bolsa um revólver e ficou gesticulando com ele na mão. Nunca tinha passado por uma situação daquelas. Ele estava tão alterado que nem percebeu que estava conversando armado. Ao final da conversa parece ter saído mais calmo, dizendo que ia ter uma conversa séria com o irmão. Comércio - Por que o simples fato de poder desabafar cria esse alívio nas pessoas? Sérgio - Quando você ouve, você valoriza o outro. Dar atenção e respeito faz as pessoas crescerem. As pessoas não conseguem ouvir nem coisas alegres. Teve um final de ano que um rapaz ligou eufórico para dizer que tinha passado no vestibular e ia entrar na faculdade que queria depois de tentar três vezes, que nunca teve dinheiro para pagar um bom cursinho, que ralou muito. Por que ele não foi dizer isso para um colega, para os pais? Porque não tinha ninguém que quisesse ouvi-lo. Porque alguém ia questioná-lo, apesar de sua alegria, se a faculdade ia dar dinheiro no futuro. As pessoas não estão conversando, porque não conseguem entender o valor e a importância dos relacionamentos. Hoje, encontrar alguém que te ouça cinco minutos é uma dádiva. Comércio - O voluntário sofre em determinados atendimentos? Sérgio - Durante a formação, quem está fazendo o curso pergunta o que acontece se ela se emocionar. Nós dizemos: ótimo. Porque o valor do trabalho do CVV é perceber que existe uma pessoa do outro lado da linha, não é uma gravação ou alguém que receba pelo atendimento para dizer coisas certas. Existem histórias difíceis, em que nos perguntamos como essa pessoa consegue estar de pé ainda. No final do ano existe o apelo de mídia mostrando a família feliz, com fartura na mesa, presentes para todo mundo. Aí você pega uma pessoa desempregada, passando necessidade. Oras, isso não é Natal. Neste final de ano, no dia 31 de dezembro à noite, um homem ligou apenas para dizer que estava sem os filhos, que tinha ficado com a mulher. Sozinho, ele disse que estava na sacada do apartamento vendo as outras famílias brindarem e começou a lembrar dos Natais que passou na infância. Ele até tinha lugar para ficar, mas o que ele queria naquele momento ele não conseguia ter. Quem não se comove com uma situação assim? Comércio - Há alguém que ligue costumeiramente, mesmo sem necessidade aparente? Sérgio - Nós temos esse problema aqui. E isso atrapalha e incomoda alguns voluntários, a ponto de deixarem o CVV. Para uma parcela da população não podemos fazer nada. São pessoas com problemas psiquiátricos, desvios de conduta. Ligam aqui e querem manipular, brincar. Existem problemas sérios de comportamento sexual. Comércio - E o inverso, ou seja, de o voluntário aproveitar-se da sua condição para tirar algum proveito sobre as pessoas que ligam para ele? Sérgio - Já aconteceu. Existem voluntários que passam pelo processo de seleção e vestem uma máscara. Isso, no entanto, não dura muito tempo. Tivemos casos, não aqui em Franca, de precisar expulsar o voluntário. Há exemplos de quem arrecadou dinheiro usando o nome do CVV e a entidade nunca faz campanhas para este fim. Nem presentes aceitamos. Comércio - O CVV tem alguma orientação religiosa? Sérgio - Essa questão não passa pelo CVV. Nosso trabalho não segue nenhuma orientação seja de qual religião for. Eu sou católico e dou palestras para espíritas e por aí vai. A característica da entidade é humanitária. Comércio - Depois de tantos anos, a marca CVV ainda parece pouco conhecida? Sérgio - Eu acho que ela é conhecida nacionalmente, mas pouco compreendida. O que queremos fixar na cabeça das pessoas é que quando alguém precisar falar ou estiver passando por um momento de crise, de dificuldade, uma situação em que precise falar com alguém, que ligue para nós. Essa é a mensagem que queremos deixar: há sempre alguém com quem conversar.

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