Adolescência e sexo


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O garoto de 16 fala para as colegas que aquela menina de 15 é bonita. Ela fica envaidecida ao saber. Rola um clima e logo os dois estão “ficando”, melhor dizendo, agarrando-se pelos cantos, frenética e lascivamente. Depois disso ele pensa se deve pedi-la em namoro. Não, eu não troquei a ordem. É assim mesmo que a coisa funciona. Ou seja, não funciona. O que começa errado dura pouco. Logo ele não quer mais nada com ela. E ela ainda sai no lucro se não pintar uma gravidez. Não estou delirando. Vejam o número de adolescentes grávidas e, pior, abandonadas. As mulheres estão iniciando a vida sexual cedo demais, sem terem a real noção do que é intimidade, do que é amor. E os homens também. Há coisas na vida que precisam esperar porque requerem certo preparo; outras as devem preceder numa sequência lógica e natural, sem forçar a barra. A adolescente precisa conhecer a si mesma, física e mentalmente, saber da sua natureza, de como funciona o seu corpo. Cada um no casal tem de saber da sua real condição. A mulher não é um mero objeto de satisfação da libido do homem. Nem ele dela. Uma relação verdadeira, sadia, não se sustenta apenas no prazer sexual. Ambos precisam ter consciência disso e quanto mais cedo melhor, pois é daí que vem o imprescindível respeito mútuo, que vai conservar o amor. A pessoa precisa aprender cedo a valorizar-se, ter noção do tempo para cada coisa, preservar a intimidade para compartilhar com o par certo e na hora certa, enxergar o amor na sua grandiosidade, na sua sublimidade; conter a precipitação, aproveitar cada momento, fazer a vida passar em slow motion. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, Bentinho, com 15 anos, um dia consegue convencer Capitu a deixá-lo pentear os longos cabelos dela. Diz ele: “Continuei a alisar os cabelos com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. (...) e a sensação era um deleite (...). Desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes”. É por aí. É fantástica aquela fase inicial, de olhares furtivos, de ficarem ambos vermelhos quando os olhos se cruzam e denunciam a recíproca observação, de um “oi” tímido. O namoro deve vir depois de se conhecerem melhor, sentirem que existe mesmo uma química, admiração recíproca, afinidade suficiente para um passo à frente, quando do fundo do coração ele pode dizer a ela: “sinto a vida mais leve quando a vejo, com sua presença parece que tudo se encaixa, gosto de vê-la sorrir, do seu jeito de falar, ajeitar o cabelo, de como você se senta, gosto de você; quero passar mais tempo contigo e compartilhar os meus segredos, desejos, sonhos”. É salutar que no início haja um quê de platônico, em que o simples andar de mãos dadas já seja algo mágico, suficiente para dar a sensação de ter o mundo sob os pés. Depois vem mais intimidade, mas também é uma fase para aferir se o sentimento que une o casal é forte o suficiente. O erotismo deve brotar naturalmente, quando o casal já possui uma boa base emocional e questões outras já estão resolvidas. (segue) Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ – paulopereiracosta@uol.com.br

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