Xô, crise...


| Tempo de leitura: 4 min
Hoje tem. Aqui estou. Muitos me param para perguntar sobre razões para o desaparecimento desta coluna em alguns sábados. Simples. É a crise. Cá neste GCN, estamos todos de mãos dadas para suplantar este período de dificuldades que, mesmo desacreditado por alguns, está aí. Há vários anos, o consultor internacional Zdenek Pracuch, colunista deste Comércio, vinha prevendo problemas graves para a indústria calçadista, principal base econômica francana. Nunca teve papas na língua para falar o que pensava. Encontrou muita resistência. Foi considerado catastrofista por muitos. Diria até, pela maioria. Aos poucos, com a constatação de que o experiente senhor que tem mais de 60 anos dedicados ao setor em todo o mundo tinha razão, descrentes começaram a se render. Outros, não tiveram tempo: suas empresas faliram. Falávamos ontem, eu e um amigo, sobre a concretização dos cenários descritos por Pracuch. Entendeu que era o momento de comentar sobre a Rua Alberto de Azevedo, no bairro Vila Nova, ex-morador das imediações que foi. “Para mim, desde que me entendo por gente, a Alberto de Azevedo foi sempre termômetro da situação econômica do País”. Para que meu leitor entenda, a Rua Alberto de Azevedo é uma via de residências e muitas lojas na região do Alto da Estação. É referencial, fácil de achar, tradicional reduto de casas comerciais. O amigo continuou falando: “Ao que me lembre, jamais vi uma placa de ‘aluga-se’ ali. Antes mesmo da desocupação de algum imóvel, já havia um contrato de locação novo sendo consumado com alguém”. E concluiu: “Hoje, a rua está coalhada de placas”. Insisti. Queria saber mais. E ele: “Ali os prédios foram sempre muito valorizados. Os aluguéis nunca foram baixos, mas do final do ano passado para cá o cenário mudou: há muitos imóveis fechados e a maioria, por inadimplência. O que acontece, ainda segundo ele, é que locador (“Peço alto porque sei que tem quem paga”) e locatário (“O sucesso do negócio que estou abrindo permitirá enfrentar a alta locação”) se acertam amigavelmente na contratatação e, tensos e descrentes, vão degladiar-se na justiça pouco tempo depois... O fenômeno se repete por todos os lados. Se você apurar o olhar observará que há centenas de imóveis para locar, em todas as regiões. E, pode acreditar: o número é ainda maior. Tem sido praxe não sinalizar mais o “aluga-se”. Há ladrões de fios, peças sanitárias, torneiras, lustres e tudo o mais que pode ser carregado, de olho. Os proprietários mantêm pedidos altíssimos por seus imóveis. Agem como se realmente não existissem problemas e que a tal da crise afeta apenas o outro lado do mundo. O jornalista Corrêa Neves Júnior diria que formam uma “confraria de capitães Smith” (leia interessantíssima Gazetilha sobre o tema, disponível em http://www.comerciodafranca. com.br/materia.php?id=37833), porque agem como se o cenário que destroça grande parte de nossa economia fosse nada. Os pretendentes a locatários erram quando aceitam pagar o que se lhes pede. Incapazes de planejar e de gastar menos do que ganham; convictos de que o emprego que possuem é eterno ou que os negócios que projetam não têm como dar errado, apõem assinatura em contratos leoninos, sem mera e indispensável leitura. O cenário é amplo e o tema de hoje é apenas parte do iceberg que teimamos em não ver (eis ai, de novo, consideração sobre o efeito “Smith”). Penso que locatários e pretendentes a locações deveriam lançar os pés ao chão e fincá-los: é melhor conveniar valores menores – bem menores, já que Franca é conhecida como uma das cidades de mais altas locações do Estado – capazes de ser suportados e lutarem para manter a relação contratual em dia do que continuarem sonhando, uns e outros, que estamos vivendo só uma marolinha lulista. Em tempo: minhas colunas do sábado têm sido descontinuadas e sou eu próprio que tenho estimulado o jornal a decidir pela não-publicação. A maioria dos empresários têm concentrado nos fins de semana a publicação de suas mensagens comerciais e eu os estimulo, abrindo mão do texto semanal. É minha forma de colaborar para que a crise vá embora logo. Xô, crise... LUIZINHA A superintendente do Grupo Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues, uma das mais conhecidas e respeitadas executivas das Américas, estimulada dia destes para completar a frase “Hoje é tempo de...” durante programa de televisão, mandou um “... sentar em cima do cofre!”. Precisa dizer mais? DE NOVO, PRACUCH Conselho dele, quando perguntei sobre o que fazer para manter forte a produção e as vendas das indústrias de calçados: “Focar apenas nos poucos modelos que mais vendem. Esquecer esse negócio de produzir centenas de modelos novos. Dizer a todos que os modelos que ‘todo mundo quer’ estão disponíveis, com preços muito adequados”. Simples e objetivo. DE VOLTA ÀS SAPATARIAS É sempre proveitosa a prosa com o tcheco Pracuch, cidadão do mundo mais brasileiro que conheço: “Na Inglaterra, até os mais tradicionais compradores de calçados caros estão mandando reformar, sem qualquer vergonha, para enfrentar a crise...”. DE UMA SENHORA ALEMÃ Ouvi: “É preciso ter sofrido, ter visto gente de nosso convívio perder tudo, para valorizar cada centavo que a gente ganha com suor e sangue”. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários