“A maioria das pessoas, principalmente quem ainda não chegou aos 40 anos de idade, deveria tentar aprender a história do mundo. Entretanto, poucos o fazem, e provavelmente poucos atingem este objetivo. Um dos obstáculos que as pessoas encontram é o fato de historiadores sentirem-se impelidos a listar acontecimentos e estatísticas em demasia. Muitos leitores sentem-se esmagados pela quantidade de fatos.”
Este parágrafo, que faz parte da apresentação do livro Uma Breve História do Século XX, assinado por Geoffrey Blainey, já traça as linhas do que animou este importante projeto editorial. Ou seja, tentar diminuir o fardo que pode representar a leitura de um livro de história que se proponha a narrar os acontecimentos decisivos de um período, no caso, o século 20. Para isso, e é o que esta obra apresenta de diferente em relação a outras do mesmo gênero, o historiador privilegiou, junto à síntese, o estado de espírito que imperava em determinado momento. Desta forma as relações de causalidade são estabelecidas a partir de percepções que vão além do documental.
Discorrendo sobre o início do século passado, Blainey lembra com propriedade o clima de otimismo da civilização ocidental em relação ao futuro, com excelentes perspectivas de evolução, crescimento, progresso tecnológico, desenvolvimento socioeconômico. Tal cenário descrito de forma concisa, e quase literária às vezes, coloca o leitor na vida cotidiana daqueles dias. É como se ele se tornasse o companheiro de viagem do narrador. Ou o ouvinte que escuta atento uma testemunha de fatos extraordinários ou apenas curiosos, mas sempre significativos para os rumos tomados pela humanidade nos últimos cem anos.
Assim, o capítulo sobre a expansão do socialismo tem parágrafos como o que se segue:
“Se perguntassem a observadores políticos em que nação do mundo haveria o primeiro esboço de regime socialista, uma resposta comum em 1910 seria a Nova Zelândia. Lá, o governo administrava muitas indústrias e quase todas as estradas de ferro, além de pagar pensão a idosos e proporcionar educação gratuita. Em algumas fábricas, o governo havia estipulado um salário mínimo e poucas horas de trabalho, decidindo compulsoriamente as questões trabalhistas. Era proibida a posse de grandes propriedades rurais.”
Construindo uma narrativa linear, o historiador surpreende com descrições precisas, atento aos detalhes que refletiam os mecanismos da macroeconomia. Seu relato do comportamento da população após a quebra da bolsa de valores de Nova York impressiona pelo que se assemelha ao vivido em nossos dias de crise desvelada com a quebra do Banco Lehman Brothers. Acompanhe:
“As pessoas pararam de comprar produtos que não consideravam mais como essenciais. Novos carros não eram facilmente vendidos, e a indústria automobilística em Detroit e em Turim passou a comprar menos aço e borracha (...). Seus fornecedores demitiam trabalhadores, suas esposas paravam de comprar novas roupas para a família e a demanda por lã, algodão e couro diminuía em cidades e fábricas a milhares de milhas de distância. Esse evento, muito mais que a Primeira Guerra, deu a impressão de que o mundo era um lugar só e de que não havia como escapar da agitação causada pelo gigantesco acontecimento no Hemisfério Norte”.
A capacidade de explicar eximindo-se de maniqueismos é uma das riquezas deste historiador americano, professor de Harvard e de Melbourne, agraciado com o prestigioso International Britannica Award “pelo excelente trabalho na disseminação do conhecimento em favor da humanidade.” Nada lhe escapa enquanto produto da civilização. Nem a moda. Nem as invenções que mudariam radicalmente o estilo de vida do homem a partir de meados do século passado. No capítulo intitulado “Christian Dior e Logie Baird” (nomes do estilista do pós-guerra e do inventor da televisão, respectivamente) em breves parágrafos Blainey mostra como o lazer e a vida cotidiana depois de 1950 foram sacudidos e mudaram com o “new look” da moda e as invenções que expandiriam o conhecimento.
O cinemascope, a TV, os satélites e a possibilidade de transmissões ao vivo de qualquer parte do mundo foram conquistas imensas. E o radinho portátil, chamado trannie, produto japonês aparecido em 1958, foi o maior difusor da cultura pop no mundo ao colocar no ar para milhões de ouvintes as canções voltadas diretamente para os jovens. Dez anos depois eclodiria a revolução comportamental cuja face visível foram as iradas reações de jovens e mulheres em praças públicas, a partir de Paris.
Geoffrey credita esta “revolução de costumes” também ao crescimento da renda das famílias no período pós-guerra. Com seus rendimentos aumentados, puderam oferecer aos filhos mais tempo para o lazer, e estes tiveram assim mais acesso aos espetáculos, o que transformou não só o comportamento mas também o mercado de entretenimento. Mais teatro, cinema, livros, discos, semeavam-se novas ideias ao mesmo tempo que se criavam maiores condições de consumir a cultura que se fazia pop.
Há informações que geralmente ficam limitadas aos meios acadêmicos ou a obras clássicas, não chegando ao cidadão comum e curioso por assuntos que apontam os movimentos de evolução da humanidade. Muitas vezes a explicação está num detalhe para o qual nunca havíamos atinado. É por aí, por exemplo, que ficamos sabendo que em 1967, ao estatizar o Canal de Suez, principal acesso do petróleo árabe ao Ocidente, o governo egípcio estava estimulando involuntária e indiretamente os estaleiros a agigantar o tamanho dos navios mercantes.
Obrigada a uma rota marítima alternativa, que deveria dobrar o famigerado Cabo da Boa Esperança, o mesmo que desafiara os navegadores portugueses há cinco séculos, a indústria naval, na Inglaterra principalmente, foi instada a buscar recursos na tecnologia para ampliar a potência e a capacidade dos navios. Em oito anos foi tal o avanço que ao ser reaberto o canal, em 1975, os navios estavam tão grandes que já não passavam por ele. Sua importância para a economia mundial deixara de ser o que fora uma década antes...
Uma Breve História do Século XX nos permite conhecer todos os acontecimentos decisivos para a humanidade no período. “Não me preocupei se o novo século teve início em 1900 ou em 1901; assim, o começo do livro reflete a desordem que caracteriza o curso da história. A narrativa acaba em 2001, com os dramáticos e simbólicos acontecimentos em Nova York e na Ásia Central. Minhas opiniões sobre as causas dos eventos e tendências mais importantes freqüentemente ficam em segundo plano (...)”, explica o autor.
Este período fascinante para a história da humanidade compreende o começo auspicioso do século 20, a quebra da Bolsa em 29, as duas maiores guerras, a força do capitalismo, a ascensão e queda dos regimes comunistas, o declínio das monarquias e dos grandes impérios da Europa, o contexto oriental, a criação do Estado de Israel, os projetos de viagens espaciais, o crescimento econômico, o avanço tecnológico e o advento da era digital que agilizaria as comunicações e tornaria as distâncias cada vez menores.
Transitar por cem anos de história em 309 páginas, 27 capítulos e uma dúzia de mapas é empreender uma longa viagem que pelo interesse da paisagem transcorre rapidamente.
SERVIÇOS
Título: Uma Breve História do Século XX
Autor: Geoffrey Blainey
Editora: Fundamento
Número de páginas: 309
Onde comprar: pelo telefone (41) 3015-9700 ou nos sites das livrarias Saraiva (R$ 24,20) e Americanas (R$ 29,70). Quem assinar o Comércio este mês ganha o livro de presente (limitado ao estoque).
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