Na semana em que gente do governo descobriu goela abaixo que a marolinha parece ter chegado às terras tupiniquins com força de tsunami, nosso guia, mais uma vez, foi ao palanque para dizer que apesar da diarréia econômica mundial, por aqui a nossa terá odor de flores do campo.
Gente graúda, com salário de marajá e cargo chapa branca se assustou com os números do PIB revelados na última terça-feira. E por que o susto? Porque a verdade é uma só: a economia brasileira derreteu no último trimestre de 2008.
Pior do que as piores previsões o número não é novidade para muita gente aqui de baixo, onde as leis são diferentes, a semana tem sete dias e o dia tem, no mínimo, oito horas de trabalho duro.
Mas isso não importa. Como sempre e sem perder a pose, o governo e sua trupe não desistiram da tese que afirma que uma mentira repetida várias vezes acaba sendo aceita como verdade.
“Não há crise”. “Crise é coisa da imprensa”. “Comprem! Não haverá crise, é preciso manter o otimismo e o consumo”. “Crise? Pergunte ao Bush!”. E assim passaram-se longos cinco meses. Cento e cinquenta dias nos quais falar em crise, retração econômica e recessão era praticamente uma heresia.
Demissões na indústria eram culpa da sazonalidade. Aumento da inadimplência era consequência de gastos desenfreados de alguns irresponsáveis. Diminuição de vendas no varejo, fato isolado.
Falência e insolvência de bancos, fusão fusão. Indústrias fechando as portas, incompetência. Crise, sinal de oportunidade.
Desta forma, o manual de instruções para discursos e entrevistas foi usado à exaustão, juntamente com o óleo de peroba finamente aplicado sobre a face de gente eleita por nós e paga por nós...
Tudo para nos fazer acreditar toda noite, no Jornal Nacional, que nada daquilo que o nosso bolso, nossa geladeira e nossos caixas percebiam era verdade e que a única e absoluta verdade possível era que “a crise não chegará ao Brasil, e se chegar, não será uma tsunami, não passará de uma marolinha”.
No melhor estilo “está com febre a culpa é do termômetro”, defensores do esquema “juros altos, populismo barato e assistencialismo a todo vapor” chegaram a dizer que a crise era culpa do grande inimigo do norte e que o capitalismo teria chegado ao fim por culpa dos especuladores. Agora, segundo eles, cada um deve arcar com as consequências sozinho.
Deixemos de meias palavras. A crise econômica mundial é uma realidade tanto para os países ricos quanto para aqueles brasileiramente desenvolvidos. O estrago não é apenas conjuntural e sim estrutural. O desemprego pegou toda a cadeia produtiva. A cada dia um novo segmento da economia dá sinais de completa incapacidade de resistência e reação.
Ao que parece, nada disso conta. A única possibilidade de compreender é consumir a informação que a imprensa séria põe nas ruas todo dia, mas ler jornal não parece ser o passatempo predileto de muita gente lá do Planalto central, tanto que nas últimas horas os lá de cima, além de continuarem martelando que a crise não existe, também começaram a organizar uma festinha-surpresa para a chegada do coelhinho da Páscoa. Isso que dá não ler jornal!!!
COELHINHO DA PÁSCOA 1
Quem acreditou no discurso de que a crise não era coisa para brasileiro, certamente já deve estar arrependido. O momento exige prudência e caldo de galinha que nunca fizeram mal pra ninguém e ainda podem ser boa companhia nestes tempos bicudos que estamos vivendo.
COELHINHO DA PÁSCOA 2
Tentando manter o povão cada vez mais iludido e sob as asas do Estado assistencialista vem aí o pacotão habitacional. É claro que alguém vai pagar a conta, mas isso não importa. O que importa é que nunca antes, na historia deste País, um governo construiu tantas casas populares de uma só vez.
NOTÍCIAS QUE VÃO MUDAR O MUNDO
Depois de noticiar os números do PIB do último trimestre de 2008, na tentativa de dourar a pílula um telejornal exibiu matéria sobre o quanto a indústria naval cresceu nos últimos meses no Brasil. Agora só falta alguém lá de cima sugerir que todos nós tenhamos um navio. Quem sabe um Bolsa-Popeye possa aquecer a economia. Ah! Façam-me o favor!
ENQUANTO ISSO NO CONGRESSO
Mais de R$ 6 milhões foram gastos no pagamento de horas extras. O valor exorbitante torna a piada mais infame ainda quando se procura saber o que foi produzido de útil para o País nas centenas de horas “trabalhadas”. A resposta? Nada! Absolutamente nada!
SÓ PRA NÃO PERDER A PIADA
Os dez lemas do viciado em trabalho são: (1) Um viciado em trabalho não tem quarto. Tem escritório. (2) Um viciado em trabalho não tem amigos, tem contatos. (3) Um viciado em trabalho não tem vida. Tem carreira. (4) Um viciado em trabalho não tem sonhos. Tem projetos. (5) Um viciado em trabalho não tem encontros. Tem reuniões. (6) Um viciado em trabalho não toma cerveja. Toma decisões. (7) Um viciado em trabalho não faz sexo. Descarrega o estresse. (8) Um viciado em trabalho não navega na internet. Faz pesquisas. (9) Um viciado em trabalho não tem domingo. Tem hora-extra. (10) Por último, fique tranquilo: um viciado em trabalho não fica lendo as piadas. Trabalha.
Alexandre H. Leonel
Farmacêutico, ex-integrante do Conselho de Leitores - leonel@comerciodafranca.com.br
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