Eles nasceram com uma “paciência de Jó”. São tolerantes. Capazes de suportar gritos de crianças, puxões de orelha e do rabo e tapas na cabeça sem se estressarem. Os “cães psicólogos”, como os humanos, precisam ter o dom, ser treinados e fazer estágio para serem terapeutas. Em Franca, o trio formado pela rottweiler Kaoma, de 9 anos, Andora, 2, da raça golden retriever, e Zeus, um labrador de 7 anos, ajuda no tratamento de pessoas com depressão, estresse, problemas neurológicos e físicos.
A cão terapia surgiu na Inglaterra no século 18, mas começou a ser mais difundida há 30 anos. Segundo Adoniran Thomaz, o Dino, adestrador há 17 anos, quando a pessoa depressiva tem contato com o cachorro tira o foco do seu problema, se distrai e tem a chance de ter contato com outras pessoas enquanto passeia com o cão. Os animais também podem proporcionar benefícios para menores infratores e internos de casas de recuperação. “Quando recebem carinho, eles retribuem e isso é importante para quem está em processo de recuperação”, disse Dino.
Nas brincadeiras com os cachorros, as crianças costumam tê-los como exemplo e desenvolver a concentração e disciplina. “Nas escolas, por exemplo, os alunos assistem aos truques feitos pelos cães e aprendem com eles ao perceberem como são obedientes”.
Em seu consultório, a psicóloga Lívia Coleto acompanha pacientes que buscam nos animais um meio para superar conflitos emocionais e de comportamento. Segundo a especialista, o contato com o cachorro jamais substitui relações humanas, mas favorece a autoestima, confiança, responsabilidade, desinibição e afetividade. “A criança aprende a estabelecer vínculos afetivos e também a lidar melhor com as perdas. Através do contato com o animal adquire responsabilidade, aprende sobre higiene e compromissos. A pessoa fica mais solta e segura de si mesma”, disse ela.
Os cachorros ainda podem atuar como coterapeutas no tratamento de fisioterapia para melhorar a coordenação motora. “A pessoa exercita os braços enquanto escova os pelos do animal, movimenta as pernas ao passar os pés nele e melhora o equilíbrio quando anda a passos largos e o cão vai traçando entre suas pernas”, disse o adestrador.
Dino iniciou a formação de “cães psicólogos” em 2000. Kaoma, a rottweiler, foi a primeira “psicóloga” formada. Os estudos começaram quando tinha dois meses. Hoje ela está aposentada, mas já deixou seus “discípulos”, que são Andora e Zeus.
A primeira paciente de Kaoma viveu um trauma na infância. A criança, de 7 anos, havia sido abusada sexualmente pelo padrasto. Nas primeiras sessões com a cachorra, a menina era retraída e tinha medo das pessoas. Ela não aceitava ser tocada. Com o tratamento começou a ficar mais desinibida.
A garota dava banho em Kaoma, escovava seu pelo e brincava com ela. “Quando passeávamos com a Kaoma na rua, as pessoas vinham perguntar o nome da cachorra. Aos poucos ela (a menina) foi se soltando. Na escola, ela começou a falar sobre a Kaoma para os amigos. A terapia fez muito bem para ela adquirir mais confiança”.
O PREPARO
Nem todos os cães nascem para ser terapeutas. Qualquer raça, inclusive a rottweiler, pode ser treinada para esse tipo de trabalho. Mas o cão deve ser sociável, paciente, não ser agressivo e ter tolerância à dor. “O cão tem de ter predisposição para ser terapeuta. Se ele não suporta um puxãozinho de orelha, uma pisadinha no pé, não serve. Não podem ser muito afoitos, pois machucariam as crianças ou idosos”, alerta Dino.
Os animais precisam ser treinados desde os primeiros meses. Depois fazem estágio com outros “cães psicólogos”. “O cão terapeuta é preparado. Ele só se aproxima da pessoa se for convidado, ele sabe se comportar com idosos, com crianças, não sai fazendo xixi para marcar território. Vamos sociabilizando-os, fazendo testes e interagindo com várias pessoas e ambientes até que estejam treinados”. O salário que recebem é pago com ração e carinho.
Em Franca o adestrador Dino oferece a cão terapia gratuitamente. Costuma visitar creches e asilos com seus “cachorros psicólogos” e também realiza atendimentos individuais. O contato dele é 9972-9217.
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