Suponho que fiz alguns avanços nos últimos dias sob o aspecto conhecimentos gerais ao observar o comportamento da hiena, abordado por um canal fechado de televisão que demoradamente traçou o perfil do bicho. Isso. É aquele animal quadrúpede que é corpulento, desengonçado, esquisito, de olhar traiçoeiro e cínico.
As hienas andam em grupos, emitem som parecido com o riso, estão sempre à espreita da presa fácil, agindo de maneira ardilosa; mas também é um animal necrófago, se alimentando de cadáveres deixados para trás por outros predadores.
Sua principal função na cadeia alimentar talvez seja a de fazer a faxina, sumindo com as carcaças e desaparecendo com possíveis focos de contaminação que podem levar a doenças, ou seja, absorve para si toda a impureza provocada pelo pútrido efeito da morte, sobrevivendo de restos mortais que lhes garantem energia e vitalidade.
A trajetória de vida das “hienas”, por puro instinto animal, as levam a acreditar que realizam algo realmente muito importante para o equilíbrio natural das coisas principalmente, pela busca de medidas protecionistas que assegurem a manutenção da sua espécie. Para se ter uma ideia, as hienas não são muito higiênicas. Preferem exalar forte odor e assim afastarem outros animais que não pertençam à sua casta. Somente elas se suportam.
São inflexíveis, não demovendo de suas rudes convicções. Não se consegue amansá-las. O comportamento tacanho prima pela tão “laboriosa” hegemonia de grupo, o que dificilmente se vê em outras espécimes animais.
A relação de confiança e lealdade entre as hienas é inabalável. Quando uma delas está em dificuldade as demais se juntam e a socorrem; elas se ajudam, mesmo que o preço a ser pago seja doloroso sacrifício.
Transportando o costume, os métodos e o comportamento desse animal para o nosso mundo “racional” é possível fazer analogias simplificadas. Chegaremos a algumas conclusões: existem hienas-bípedes (seres humanos) que também sobrevivem da calamidade de outrem, estando prontos para comerem as carnes e roerem os ossos dos que se apresentarem vulneráveis e desatentos, daqueles que se recusam a lutar diante da realidade atual de incertezas e temores produzidos pela crise.
As hienas-bípedes – não muito diferentes das quadrúpedes –, também andam em grupos e preferem as presas fáceis que sucumbem com falácias. Entretanto, se assustam quando aquilo que consideram “presa fácil” demonstra coragem e força, combatendo com veemência as esganiçadas vozes inimigas das liberdades individuais.
São numerosas essas hienas-bípedes. Andam famintas, imprudentes e risonhas, torcendo para que muitos tombem e agonizem na savana da vida.
Rugir e lutar em defesa de si e dos seus ainda é o caminho para se livrar do apetite descontrolado do bicho. Do contrário, resta tentar seguir conselho do Mestre Arievlis: “Tenha parentesco com a hiena. Todas as outras serão suas amigas”.
Ricardo Gallo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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