A desconfiança dos vereadores sobre repasses de R$ 2 mil por mês da Prefeitura à Sociedade Francana de Instrução para Cegos travou, por mais de três horas, a sessão de ontem da Câmara Municipal. O assunto envolveu algumas contradições quanto à aplicação do dinheiro, uma vez que o projeto não especificava como o valor seria utilizado. No fim, a matéria acabou aprovada com 14 votos favoráveis.
Discussões acaloradas e ânimos exaltados acabaram por estender o assunto - aparentemente simples. Antes da votação dos projetos da Ordem do Dia - havia oito na pauta -, a professora da rede pública estadual, Marlei Taveira - que é deficiente visual - apelou aos vereadores para que aprovassem o projeto. Marlei confirmou, na tribuna, que o dinheiro seria utilizado para o pagamento de uma ajudante (chamada de vidente) para ela em suas aulas na Escola "Jerônimo Barbosa Sandoval". A sala atende a alunos com e sem deficiência visual. A Sociedade não ficaria com o dinheiro. Seria apenas um instrumento para o repasse da verba.
A vereadora Graciela Ambrósio (PP) discordou da situação. Para ela, o correto seria a Prefeitura ceder diretamente uma professora concursada de seus quadros para auxiliar Marlei e o repasse ser utilizado no atendimento dos 65 usuários da Sociedade dos Cegos e aos mais de dez projetos, segundo ela, desenvolvidos pela instituição. Tanto que apresentou uma emenda - que foi rejeitada - restringindo a aplicação do repasse a esse fim. "Trata-se de uma contratação indireta (...) preterindo professores aprovados em concurso público", disse.
A Sociedade dos Cegos também não está satisfeita em ser usada como "ponte" e se posicionou contra a matéria do prefeito Sidnei Rocha (PSDB). Acompanhada de dez deficientes visuais, a assistente social da entidade, Vera Lúcia Alves, foi à Câmara reclamar. Ela usou a tribuna em nome da direção e pediu aos vereadores que aprovassem o projeto com a emenda sugerida por Graciela.
Vera afirmou ainda que Marlei não tem qualquer vínculo com a Sociedade dos Cegos. "Estamos de portas abertas para atender aos alunos da professora que, aliás, faz um bom trabalho. Não somos contra ela ter uma ajudante. Mas não é justo e honesto que esse projeto seja aprovado desta forma", disse Vera, antes da votação.
De nada adiantou toda a pressão. O projeto foi aprovado por 14 votos favoráveis. Somente Graciela votou contra. A emenda, apreciada a seguir, teve apoio dos petistas Silas Cuba e Paulo Afonso Ribeiro, de Vanderlei Tristão (PTB) e Válter Gomes (PSB) e foi derrubada.
Graciela, não satisfeita, requereu documentos da Prefeitura sobre a destinação da verba. Disse que aguardar resposta para, depois, nortear suas ações. "Se a Sociedade for obrigada a repassar os recursos para a professora, vou denunciar o caso ao Ministério Público".
ÂNIMOS ACIRRADOS
Jepy Pereira (PSDB) não gostou da desconfiança dos colegas e da inquietação da Sociedade dos Cegos. Irritado com a emenda de Graciela, durante as discussões, foi à tribuna, gritou e bateu na mesa para defender o prefeito. "Quero entender onde está escrito isso aqui", disse referindo-se à contratação da ajudante para Marlei - mesmo depois de ela ir à tribuna e dizer claramente que isso seria feito. Fato aproveitado por Graciela, que disparou. "Quem veio na tribuna foi ela. Ela que pediu apoio".
Neste momento da discussão Marlei já havia deixado o plenário.
Paulo Zamikhowsky (PSB), depois da votação, aproveitando-se das declarações do tucano afirmou que o presidente da Sociedade pode investir o dinheiro como achar conveniente. "Não são obrigados a fazer nada daquilo que não concordam (a Sociedade dos Cegos). Não devem se sentir constrangidos. Não votei para colocá-los numa fria. Me comprometo a estar junto da Sociedade".
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