Manada


| Tempo de leitura: 2 min
Othon Moacyr Garcia foi um filólogo, linguista, ensaísta e crítico literário brasileiro. Escreveu que “ainda que cometamos um número infinito de erros, só há, na verdade, do ponto de vista lógico, duas maneiras de errar: erramos raciocinando mal com dados corretos ou raciocinando bem com dados falsos”. A capacidade intelectual da sociedade tem sido reduzida num processo de emburrecimento infinito. Vivemos cada vez mais numa manada, copiando as decisões que o bovino ao lado tomou. Surge então uma terceira maneira na equação de Othon Garcia: raciocinar mal com dados falsos... Dentro da manada fazemos perguntas erradas, recebemos respostas erradas, realizamos diagnósticos errados e tomamos as ações erradas. Olhe em volta! Um amigo foi comprar um Ford KA, em concessionária. Lá, a informação: 45 dias para entrega. Não tem carro em estoque... A Volkswagen, que no fim de 2008 cancelou o pagamento de horas extras e concedeu férias coletivas escalonadas para seus 22 mil empregados, vai convocar 7 mil funcionários para turno extra de trabalho no fim de semana. Ela precisa adequar o volume de produção à demanda, que cresceu rapidamente. A situação nas demais montadoras não é diferente: espera até 60 dias. Enquanto isso o segmento de carros importados ri à toa: saltou de 13,2% de participação de mercado em novembro para quase 20% em janeiro. Se tudo andar mal com a indústria automotiva brasileira, voltaremos em 2009 aos patamares de 2007, simplesmente o segundo melhor ano da história dessa indústria no Brasil. Que raio de crise é essa? É a crise do pensamento estratégico, que morreu. Só restou o tático. Típico de manadas. Deixe-me esclarecer com um exemplo simples: um arquiteto desenha um prédio maluco. É preciso que um engenheiro faça os cálculos estruturais para o prédio ficar em pé. E então os pedreiros erguem o edifício conforme os planos. A visão (objetivo) do arquiteto é sustentada pela técnica (estratégia) do engenheiro que é tornada realidade pela execução (tática) dos pedreiros. Estratégia sem objetivo é desperdício. Execução sem estratégia é um desastre. O muro ficará torto e o prédio vai cair. E, se não cair, provavelmente terá custado infinitamente mais do que se seguisse uma estratégia. A miséria intelectual, a asinidade estratégica e a vida em manada acabaram com os “arquitetos” na virada do milênio. E agora o cenário de crise está acabando com os “engenheiros”. Só restam “mestres-de-obra” e “pedreiros”. Atenção para as aspas, por favor. Decisões? Só para curto prazo, para coisas que podem ser medidas e vistas. E dá-lhe simplismo. Tem que reduzir custo? Mande o povo embora. Corte os investimentos em comunicação. Transfira o poder para o departamento de compras, que vai escolher o mais baratinho. Deixe o dinheiro no banco que é mais seguro... Infelizmente ninguém jamais medirá o custo dessas decisões. Eles não cabem numa planilha. E se coubessem a manada não entenderia. Pois alguém já disse que “nenhum de nós é tão burro quanto a soma de todos nós”. Nunca na história deste País vi uma verdade mais absoluta. Luciano Pires Jornalista, cartunista

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários