Apesar de todos os problemas característicos dos cartolas no meio esportivo, o futebol está incluído profundamente no cotidiano de grande parte dos brasileiros. Devido a isso, a maioria dos jogos torna-se entretenimento dos mais democráticos. Todos se igualam e até se irmanam em um estádio. Claro, desde que sejam da mesma torcida.
Caso contrário, quando se trata de torcidas rivais, com rixas antigas, a praça esportiva pode se transformar em campo de guerra. Fatos para comprovar a selvageria não faltam. O noticiário do início de semana sempre está recheado das mais diversas ocorrências de agressão coletiva. Os entreveros acontecem não só durante o jogo, mas antes ou depois também. E, algumas vezes, lamentavelmente com vítimas fatais.
No entanto, em Franca, por sorte, nunca houve tumulto de grande monta. Os jogos comumente se desenvolvem num clima de cordialidade. Praticamente a torcida é somente da própria cidade. O objetivo único do público acaba sendo presenciar a vitória da Francana. Não há como ocorrer uma desinteligência generalizada entre a galera presente no Lanchão.
O final da manhã do último domingo foi então de plena satisfação no estádio municipal. Houve também muito mais alegria pela cidade toda. A partir das 10 horas, por onde quer que se fosse, só se ouvia a transmissão da Rádio Difusora. A cada gol narrado pelo Marcos Silva, grito similar se soltava da garganta do torcedor, tão desacostumado com três gols, em menos de trinta minutos.
Cada lance da partida era ouvido na feira livre. Dificilmente se encontrava uma barraca sem um rádio ligado. A mesma sintonia ocorria nos aparelhos dos veículos que transitavam pelas ruas e avenidas. Até nos estacionamentos de supermercados ouviam-se os gritos de gollllll! Os bares nem precisam ser mencionados, redutos naturais de audição esportiva.
A Francana vinha de duas vitórias seguidas no Campeonato Paulista da Série A-3. Isso, por si só, já gerou um contentamento enorme entre os torcedores. A base da conversa, desde quinta passada, entre conhecidos ou amigos, de qualquer idade, passaram a ser as últimas performances do time. Junto aos diálogos, até escalações do passado eram relembradas entre os mais antigos.
Agora, depois da terceira vitória, o assunto passou a ser o acesso para a Série A-2. O momento é bom. O futebol sempre foi uma vitrine para os dirigentes. Um dos deputados estaduais por Franca deve parte de sua primeira vitória na eleição ao fato de ter presidido a Francana. Em 2002, a equipe chegou à final e, mesmo depois de ter perdido a vaga, ainda disputou duas partidas extras contra o último colocado da série principal do Campeonato Paulista e fracassou.
Mesmo não subindo, a boa campanha foi decisiva para a eleição do deputado. Depois de quatro anos na Assembléia Legislativa, o parlamentar ainda conseguiu um segundo mandato. Seu trabalho o ajudou na re-eleição (a Reforma Ortográfica quer assim, com hífen), mas muita gente votou novamente nele, exatamente pela lembrança de até aonde a Francana chegou naquele ano.
A continuar nesse ritmo, quem sabe a equipe volte para a divisão principal, em 2011. Torcida para isso existe. Aliás, até entre as mulheres.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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