Folha de pagamento?!


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A crescente onda de desemprego na Europa e nos Estados Unidos já beira uma catástrofe econômica e social. Na Grã Bretanha estão previstos problemas com perturbação da ordem social. Britânicos frios e distantes, quem diria! No Brasil, o problema do desemprego ainda é mantido sob controle e, oxalá, assim permaneça. Desemprego significa menor poder aquisitivo e inadimplência com todos os reflexos negativos sobre a cadeia produtiva e comercial. Mas esse tipo de consideração deixaremos para pessoal mais autorizado a opinar. Há dois meses tirei nota zero em economia na opinião de um empresário francano e não tenho intenção de fazer segunda época ou recuperação. Por isso vou abordar o problema do desemprego sob outros aspectos, ou seja, cultural e de gestão. Por força das minhas atividades tenho acesso livre às planilhas de custos e, além disso, ensino aos empresários a praticarem o cálculo de custo e estabelecimento do preço de venda no terceiro milênio através do método apresentado pelo saudoso Peter Drucker. Tenho, portanto ideia bem clara e atualizada do que representa o custo de mão-de-obra na composição de custos do calçado. Raramente e só em casos muito específicos, o custo de mão-de-obra representa mais de 15% do preço de venda do calçado. Neste percentual estão incluídos todos os benefícios e contribuições sociais. É interessante observar que o custo de mão-de-obra está em proporção inversa ao aprimoramento tecnológico das empresas. Interessante observar também a reação da maioria dos empresários, quando se trata de admitir alguns trabalhadores a mais. Um touro desafiado com pano vermelho não poderia reagir mais violentamente: “Você quer me quebrar? Viu o tamanho da Folha e ainda quer que eu admita mais um? Está brincando!”. Ouço esse tipo de declaração dezenas de vezes, geralmente quando sugiro contratar pessoas para fazerem inspeção de qualidade. No entanto, a conta é tão simples de se fazer! Uma só devolução de mercadoria evitada pela inspeção pagaria em despesas causadas o salário de um ano de uma inspetora de qualidade, sem falar no prejuízo para a imagem da empresa, que não pode ser avaliado em números, mas pode ser desastroso. O folclore empresarial sempre vê como custo ameaçador à saúde econômica da empresa o montante do pagamento da Folha. Não faz sentido. Se demitir 10% dos funcionários a empresa, com certeza, iria parar. E a economia de 1,5% do preço de venda faria alguma diferença? É lógico que não. Mas o mesmo empresário paga, sem discutir, 10% da comissão para um representante vender ao mesmo tempo produtos até dos concorrentes diretos e deixar a fábrica sem pedidos suficientes! O mesmo empresário tolera desperdícios no corte entre 22 a 25% (disso tenho várias comprovações) devido ao desconhecimento do cálculo de consumo exato, má administração do material, caos no almoxarifado e/ou falta de técnica do encarregado e dos próprios cortadores. Estes 20% perdidos no material representam de 5 a 10% do preço de venda. Na ótica dos donos de empresas (não confundir com empresários!) isso não conta. Mas um salário mínimo a menos – que beleza! –, quanta economia! Não tenho ideia sobre como é calculado o custo dos automóveis, das mineradoras, da construção civil ou de outros ramos industriais e de serviços, que se destacaram nos últimos tempos pelas demissões em grande número. A minha experiência me permite falar com segurança sobre a indústria de calçados. E pelo que vejo e, sabendo que a grande maioria dos industriais não tem nenhum planejamento financeiro, que confundem fluxo de caixa com lucratividade, que o cálculo de consumo e de custos é uma ficção inconsequente, fico com pena dos demitidos, primeiras vítimas da péssima, ou melhor, de inexistente gestão na maioria das indústrias de calçados. Agora, quem sabe, apareceu uma luzinha do outro lado do túnel. Tenho em mãos um folheto descritivo do curso de Técnico em Gestão da Produção de Calçados organizado pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, do governo do Estado de São Paulo. E pelo folheto, no 3º módulo estão reservadas 12 aulas para Gestão de Recursos Humanos, Materiais e Financeiros na Indústria de Calçados. Me parece muito pouco dado o enorme volume de informações que deve ser transmitido, mas já é alguma coisa. A Cidadania Organizacional (o que será que é isso?) tem garantidas, no mesmo programa, duas aulas. Me parece um pouco desproporcional. Volto à proposta inicial. Que fique bem entendido: ninguém está a favor da ociosidade, de uma fábrica cheia de funcionários mal aproveitados. Nada disso. Mas querer vencer a crise pelo emagrecimento da folha de pagamento, representa ou muita ingenuidade ou incapacidade mesmo. EFEITOS DA CRISE A britânica Stylo, composta de 160 lojas e 165 franquias foi vendida à gerência da organização. Com isso ficaram salvos aproximadamente 3 mil empregos. Devido a dificuldades financeiras e à situação desfavorável do mercado, as 200 lojas que restaram serão fechadas. Serão fechado 2,5 mil postos de trabalho. A VOLTA DA KEDS A americana Keds, fundada em 1916, está de volta ao Brasil. A Keds reclama para si a primazia de ser a primeira a usar solados de borracha. O público-alvo será o feminino na faixa dos 17 a 35 anos, com produtos de alta qualidade e preço razoável. Henrique Almeida Prado, sócio e diretor da marca no Brasil, acredita não haver no mercado esportivo um produto específico para estas consumidoras. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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