Menos de uma semana depois da Carmen Steffens anunciar que poderia demitir 300 pessoas, mais uma fábrica começou o processo de dispensa de 150 funcionários. Ontem, no fim do expediente, a Tenny Wee comunicou a 70 empregados que eles estão de aviso prévio. O anúncio foi feito durante uma reunião no auditório da fábrica, no Distrito Industrial. Outros 80 devem ter o mesmo futuro nos próximos dias. A empresa alega estar com estoque de sapatos gigantesco e vendas 15% menores que no começo de 2008. Se o mercado não reagir até o fim de março, as demissões serão inevitáveis.
Desde a semana passada, 150 trabalhadores da Tenny Wee estão de férias. Ficarão longe da produção por dez dias. Alexandre Ferreira, proprietário da fábrica, disse que as férias e o aviso prévio assinado ontem são medidas de cautela diante da situação atual do mercado. O estoque da Tenny Wee acumulou 70 mil pares, o equivalente a um mês e meio de produção. Para complicar, a empresa sofreu queda nas vendas entre janeiro e fevereiro em relação ao ano passado. "Nosso estoque chegou a níveis que não dá para segurar mais. Se a fábrica parasse hoje e eu demitisse todo mundo, eu teria sapatos para abastecer o mercado um mês e meio. Não tenho nem como negociar uma redução da produção como fez a Carmem Steffens".
Segundo Alexandre, os lojistas pisaram no breque e deixaram de abastecer seus estoques. A expectativa do empresário é desovar o estoque e esperar as próximas semanas de vendas para definir o futuro dos 150 funcionários que podem ser demitidos. "A decisão de demissão só vai ser definida entre 25 e 30 de março". Para ele, o que vai acontecer é uma incógnita. "Temos de pensar na continuidade dos negócios. A gente torce para uma reação legal do mercado, mas não dá para saber. Não temos bola de cristal".
Com a produção a todo vapor, a Tenny Wee chegou a ter 1.500 funcionários em dezembro. Hoje tem 850 empregados e produção diária de 4,2 mil pares. "Continuamos produzindo no começo do ano acreditando nas vendas, mas o mercado está comprando menos que em anos anteriores".
Ontem os funcionários da fábrica disseram ter ouvido vários boatos de demissões. Muitos comentaram o dia todo que "vão passar a faca". À tarde, a notícia se confirmou. Para Edvânia Silva, 29, do setor de montagem, sua demissão foi uma surpresa. No horário de almoço, ela foi entrevistada e disse que estava "tudo normal na fábrica". Às 16h30, recebeu aviso prévio. "Foi um choque. Não sei quando vou conseguir outro emprego porque em Franca a crise está em todo lugar". Edvânia é casada e mãe de duas meninas de 11 e 12 anos. Ela trabalha na Tenny Wee há dois anos e meio.
<b>BEM MAIOR</b>
A indústria calçadista registra demissões seguidas num momento em que deveria estar contratando mão-de-obra para produção em alta escala. Para Agnaldo de Sousa Barbosa, sociólogo coordenador do Neic/Unifran (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Indústria e Cadeia Produtiva Calçadista), o mercado vive um momento atípico e não apenas em Franca.
Ele associa as demissões em massa à "falta de confiança crônica na economia". "É um momento de retração e também de demissões. A falta de confiança global na economia vai gerando um efeito cascata. Se há falta de confiança, as pessoas deixam de comprar e as empresas deixam de contratar. Se ninguém compra, produz-se para quem?".
Agnaldo acredita que o desemprego registrado nesta época é resultado das condições em que o mercado se encontra. "Antes dessa crise, víamos o fechamento de empresas mal administradas, hoje vemos a ameaça de demissões em empresas que têm uma gestão moderna e dinâmica, como a Tenny Wee e Carmen Steffens".
A aposta do especialista para minimizar os efeitos da crise é a articulação de instituições públicas e privadas para um "pacto pelo emprego". "O governo brasileiro ainda está muito tímido nas iniciativas de socorro ao mercado. O emprego é o bem maior. Tudo vale para mantê-lo. O exemplo da Carmen Steffens foi muito interessante neste sentido" (leia no apoio).
Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros, prefere aguardar o fim de março para avaliar a situação de Franca diante da crise mundial. "A crise é internacional e séria, mas nós só posicionaremos de forma concreta sobre a empregabilidade no setor no fim do mês".
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