Em meio à queda-de-braço entre o empresário Mário Spaniol, dono da Carmen Steffens, e Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros, a Rádio Difusora realizou um feito inédito: colocou os rivais frente a frente para um debate histórico na última sexta-feira. Durante mais de duas horas, os dois puderam expor às claras suas ideias. O jornalista Corrêa Neves Júnior e o radialista Hélio Rodrigues conduziram o debate, ao vivo.
Spaniol e Paulo Afonso não se conheciam. Também não se cumprimentaram. Diante do impasse entre a empresa e o sindicato, os dois aceitaram o desafio de ficar cara a cara para discutir o futuro de 300 pessoas. O empresário disse que a única forma de preservar os postos de trabalho era implementar a redução da jornada de trabalho. Paulo Afonso, contra todas as argumentações apresentadas, permaneceu irredutível e não aceitou homologar o acordo entre a Carmen Steffens e os funcionários. Nas duas horas de debate, o sindicalista também não apresentou alternativas para a fábrica evitar os cortes diante do encolhimento da produção.
O clima começou quente. Poucas horas antes do encontro, Paulo Afonso havia feito uma assembléia exaustiva na porta da Carmen Steffens sobre as demissões. Spaniol e Paulo trocaram insultos logo no começo do encontro. “Baixa tua voz um pouquinho porque eu sou uma pessoa educada e tu também vai ser. Tu falou muita merda lá na empresa hoje e tu vai tomar um processo”, disse Spaniol. Paulo rebateu. “Você respeita minha fala. Eu falo desse jeito, eu sou sapateiro (...)”.
Os ânimos só se acalmaram depois que Corrêa Neves Júnior interrompeu a transmissão do debate e exigiu que mantivessem a calma e trocassem argumentos, não insultos. Spaniol e Paulo Afonso ficaram mais tranquilos, mas o clima de aspereza permaneceu o tempo todo.
Os dois tentaram, mas não chegaram a um ponto em comum. Nem o quadro de desemprego que assola o País e Franca com a crise mundial e o fato de outras empresas adotarem medidas alternativas convenceram Paulo Afonso a anuir o acordo. O resultado da votação dos funcionários em que 73,8% votaram a favor da diminuição da jornada também não fez o sindicalista ceder. Paulo Afonso bateu pé contra todos os argumentos e não aceitou a implantação de um banco de horas, mesmo sabendo que a negativa poderia custar a demissão de 300 pessoas de uma tacada só.
“Nós temos uma decisão de categoria votada em 2005 em assembleia geral, com 5 mil trabalhadores, que não autoriza o sindicato a aceitar nenhum tipo de flexibilização”, disse. A hipótese de convocar outra assembléia geral foi rechaçada. Hélio Rodrigues tentou argumentar. “Mas Paulo, cada caso é um caso. A situação de momento é diferente da de 2005”. Paulo continuou engessado. “Olha, as decisões democráticas são válidas por muitos anos”.
Para Paulo Afonso, mesmo o banco de horas é uma “flexibilização”. “O banco de horas parece ser simples: é só mudar a carga horária e quando a empresa precisar os trabalhadores trabalham aos sábados, domingos e feriados (...). Quando tem baixa produção, fica em casa sem dinheiro”, disse.
Júnior argumentou: “as coisas podem ser vistas de várias formas. Que qualidade de vida, que agenda pessoal as pessoas vão ter se não têm emprego. Não é melhor o emprego?”. O sindicalista, mais uma vez, reafirmou sua posição. “Temos feito todo possível para garantir o emprego, menos a flexibilização dos direitos”.
O empresário Mário Spaniol explicou que a compensação de horas seria feita dentro da legalidade e com bom senso. “Nenhum empregado vai trabalhar quatro ou cinco horas a mais por dia porque é desumano e o cara vai produzir mal, o que é prejuízo. Será uma, no máximo duas horas a mais, que é o que a lei permite”.
Paulo Afonso alegou que o sindicato quer manter os direitos dos trabalhadores, mas não conseguiu apontar alternativas para resolver o momento crítico enfrentado pela Carmen Steffens frente à diminuição de pedidos em seu mapa de vendas. Corrêa Neves Júnior interpelou o sindicalista ao menos dez vezes para que sugerisse o que a empresa faria para reduzir custos e o que faria com a mão-de-obra ociosa na fábrica. A lei impede que o trabalhador permaneça sem ocupação durante o expediente.
As respostas foram todas vazias. “Eu não sou empresário, não sei dos custos da empresa, não sei como as empresas fazem. Não trabalho nessa área, sou cortador na produção e estou no movimento sindical há 14 anos”.
Diante da queda na produção, Spaniol decidiu, antes da canetada de 300 funcionários, buscar alternativas. Optou pela diminuição da jornada, mas desde os primeiros contatos com o sindicato disse que enfrentou resistência. “Tivemos de implorar para fazerem a assembleia (...). Não posso tomar medidas depois que estou com infecção generalizada (...). Acho que temos de sentar numa mesa e ver o que é digerível e achar um caminho menos ruim para todo mundo”.
Depois de afirmar que o sindicato é da “idade da pedra” e comparar a flexibilidade da entidade a um poste de concreto, Spaniol disse que é necessário mais espaço para debater ideias. “Acho que temos de aproveitar o que o empresário tem de bom e o que vocês (do sindicato) têm de bom e fazer uma salada, sem essa intransigência que nós temos. Pela primeira vez estamos discutindo de forma interessante”.
COM A PALAVRA
O debate foi transmitido durante os programas Hora da Verdade e Difusora Notícias. Os microfones da rádio foram abertos para a participação ao vivo dos ouvintes. O professor aposentado Wagner Campos elogiou a iniciativa do Grupo Corrêa Neves de Comunicação de realizar o debate entre Mário Spaniol e Paulo Afonso Ribeiro. “O recado é para Corrêa Neves. Eu não sou do ramo, mas esse programa teve uma audiência tão grande que minha sugestão é reprisar os melhores momentos. Aprendi muito com essa aula de democracia que a Difusora e o GCN estão dando à cidade”.
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