O clima de incertezas e tensão é evidente entre os funcionários da Carmen Steffens. Ontem, durante o descanso após o almoço, na calçada da empresa no Distrito Industrial, vários trabalhadores observavam o panfleto sobre a Carmen Steffens entregue pelo Sindicato dos Sapateiros sobre as propostas para driblar a queda da produção. Em grupos, conversavam sobre a situação.
À noite, o desespero tomou conta dos funcionários com a confirmação de que 300 seriam demitidos. A bordadeira Luciana de Almeida, 39, esteve ontem à noite na sede do Sindicato dos Sapateiros. Chorou ao falar do medo de ficar desempregada. Ela é funcionária da fábrica há dois anos. “É muito triste ouvir que vão ser dispensadas 300 pessoas. Acho que não vou conseguir dormir nessa noite, vou chorar mais um pouco. Estou desesperada, não só por mim, mas por todo mundo que pode ser dispensado”.
Luciana tem duas filhas, de 17 e 10 anos, e está com muitos sonhos ameaçados, como o de ter um terreno próprio e investir na educação das meninas. “Tenho uma casa para sustentar, terreno para pagar. No ano que vem, se Deus quiser e eu tiver serviço, eu vou colocar minha filha na faculdade”, disse.
A auxiliar de encapação Rosélia Ferreira, 31, é funcionária da empresa há oito meses e também está preocupada com a não continuidade do seu emprego. “Temos percebido a dificuldade que está no setor calçadista em Franca e a empresa, pelo que eu senti, está procurando alternativas para não ter demissão em massa. Mas a gente vive ressabiada porque sabe que a crise vai assolar a qualquer momento”.
Rosélia é casada e mãe de dois filhos pequenos, de 6 e 2 anos. Os R$ 620 que ganha por mês ajudam a pagar aluguel, alimentação, roupas e as outras contas da casa. Ela estudou até a 8ª série e disse que já trabalhou em áreas diferentes da calçadista. A preocupação dela não é com o setor em que pode atuar, mas de não conseguir recolocação no mercado de trabalho por outras razões. “Acho que falta opção em Franca. Às vezes você não se enquadra no perfil da empresa pela escolaridade, pela idade, por ter filhos. Têm empresas que preferem as solteiras, sem filhos e até funcionários do sexo masculino”.
Rosélia prefere a redução da jornada de trabalho à demissão. “Não é fácil sair de casa de madrugada e deixar meus filhos. A gente sai em busca de um futuro para eles e para viver bem, então é muito importante estar empregada”.
Uma outra funcionária, que preferiu não se identificar, trabalha como coladeira de peças há um ano na Carmen Steffens. Ela recebeu com surpresa a notícia das dificuldades. “Falaram que a Carmen não tinha crise, mas parece que está chegando aqui. A gente ficou em choque após o anúncio feito pelos gerentes sobre as dificuldades. A corda está no nosso pescoço. Estamos tensos porque não sabemos se quando chegarmos, vamos passar o crachá e ficar na fábrica para trabalhar”.
Como Rosélia, ela “aceita” a redução da jornada. “Tenho de garantir esse emprego”, disse ela, que mora com a mãe e dois irmãos. Um deles está desempregado. O salário dela é R$ 618 por mês.
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