Receio que definir o que representa a crise possa gerar aflição e desconforto, por isso, dispensemos apresentações e vamos tratá-la como “a dona”, tentativa sutil de reduzir seu impacto emocional e psicológico.
Sabe-se que ela se instalou num país que (segundo os mais fervorosos brasilianistas) desperta à realidade só após o Carnaval, quando todos são praticamente obrigados a retornar ao mundo real, longe das fantasias e dos deleites.
A maioria das pessoas acha’ que “a dona” não passa de uma tremenda ‘hipérbole’, aquela figura de linguagem que acontece quando há o exagero, o acentuamento, a dramaticidade, a gravidade a ampliar a imagem real de alguma coisa.
A ideia aqui na província é a de evocar o efeito “sazonalidade” (corresponderia, na atual conjuntura à figura da “ironia”?) que quer dizer “aquele” período natural de falta de liquidez, emprego e desaceleração da economia, fenômeno que sempre se detecta nos primeiros meses de cada ano. Afirmando assim, combate-se a devastadora “hipérbole” que exagera quando o assunto é “a dona” que poderá sugar para o abismo do pessimismo as milhares de almas que se entregarem ao desespero.
Volto às figuras de linguagem, sempre muito empregadas em discursos políticos. Quem se lembra e prestou atenção na fala “inspirada” de nosso presidente Lula ao dizer que “a dona” lá fora era uma tsunami mas que não passaria de uma “marolinha” ao chegar no Brasil pode perceber claramente que ele tentou uma “antífrase”, tentando atenuar os efeitos negativos da informação para levar tranquilidade ao povo.
Pode-se ainda enxergar “a dona” e sua suposta impotência em afetar a nação brasileira no discurso do ministro Mantega que beirou o “sarcasmo” ao estimar crescimento do PIB em 4% em 2009 – mesmo se contrapondo à ONU e tendo depois que “rever” a projeção para baixo. Também, em sua declaração que o “pior da crise já havia passado”. Está no ar uma sensação de estica-encolhe que bambeia a credibilidade da política econômica nacional.
Tudo se carrega de particularidades, hipérboles, antífrases, ironia, sarcasmo etc. E tudo serve a quem manipula situações. A “antonomásia”, outra figura de linguagem – esta que me permitiu substituir “a crise” por “a dona” - evitou que eu repetisse crise tantas vezes e, certamente, evitou temores e tremores de quem me leu.
“A dona” essa que parece possuir, dominar e controlar o mundo e que aguardou calmamente o pós-Carnaval, ronda por aí e poderá se tornar real, mais que uma figura de linguagem. É complexo, mas como diz o economista-jornalista Joelmir Beting, “em economia é fácil explicar o passado. Mais fácil ainda é predizer o futuro. Difícil é entender o presente”.
Ricardo Galo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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