Seja falando de nosso superprefeito, seja narrando batalhas musicais(?) à beira de ranchos, o jornalista Corrêa Neves Júnior tem-nos brindado com excelentes textos em sua Gazetilha aos domingos. Escrita ligeira, fluente e um constante convite à reflexão.
‘O Rocky morreu’ de domingo último (1º/3) não é diferente. Descreve a morte de um jornal tradicional, o Rocky do título, da cidade americana de Denver. Me incluí na mesma preocupação do jornalista acerca do futuro da mídia, do futuro da criação e todas as suas ramificações de arte, cultura, senso crítico; enfim, de todo o pensamento humano.
Há quase vinte anos Cazuza cantava: “...eu vejo um museu de grandes novidades...”, citação crítica à fugacidade das coisas e ideias, um alerta contra a obsolescência programada, então uma recém-nascida. Como dizia a mesma música “... o tempo não para”, hoje contemplamos e cada vez contemplaremos mais “museus de velhas novidades”, uma vez que, da maneira que o conhecimento está sendo distribuído pelo mundo, seja pela pirataria, seja pela Internet, em que o autor intelectual não é remunerado pelo seu trabalho de criação, constitui extremo fator de desestímulo a qualquer iniciativa de se criar algo novo.
Pressionadas por essa nova situação de mercado, empresas e instituições que têm a criação como produto (gravadoras, editoras, redes de TV) adotaram estratégias para amenizar os efeitos negativos dessa realidade. O “produto” oferecido tem que ter sucesso rápido, retorno imediato, para que os lucros venham antes da pirataria se “apossar” do mesmo (o que é baixado da Internet sem a prévia autorização do autor também é pirataria).
Essa estratégia, já quase inócua, é o veneno que vai matando aos poucos toda a forma de criação. Na TV e cinema aparece no formato de “remakes”, regravações de antigas novelas e filmes com novos artistas; na música, coletâneas dos maiores sucessos, releituras e regravações, o “novo” que aparece é descartável, de qualidade artística duvidosa. Constantemente ouço que já não se faz música como antigamente ou que “fulano” não compôs nada que preste nos últimos anos, que vive do sucesso do passado e rebato: será que não existe coisa boa ou será que não está sendo mostrado?
Agora essa lógica bate às portas dos jornais. Grandes conglomerados produzem notícia farta e barata, porém pasteurizada, padronizada, sem as nuances características de cada região e cultura. Seremos todos iguais? Todas, eu digo todas as notícias têm a mesma importância em Franca e também em Rio Branco, no Acre? E o pior: quanto um jornal local não deixará de produzir diariamente de conteúdo intelectual através de seus jornalistas e colaboradores? Quem, senão Rocky, melhor mostrará a “cara” de Denver? E Franca? Onde encontrar sua história, a história de sua gente, seus problemas e consequentes soluções senão nas páginas devidamente remuneradas do Comércio da Franca?
Paulo Rubens Gimenes
Ex-conselheiro deste jornal, consultor de Marketing
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