Voltai-vos para mim


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Com toda a Igreja iniciamos a caminhada para a Páscoa, acontecimento mais importante da vida cristã e ponto alto do ano litúrgico. Na Quarta-Feira de Cinzas, um novo apelo à conversão se faz ouvir: "...retornai a mim de todo vosso coração..." (Jl 2,12). Recordando os 40 anos do povo de Deus no deserto em busca de liberdade e de vida, e os 40 dias de Jesus, também no deserto, na comunhão com o Pai, acolhendo seu projeto, para realizá-lo, com a entrega da vida até as últimas consequências, a Quaresma nos impulsiona para uma renovada adesão a Jesus, tornando-nos autênticos discípulos e missionários d`Ele, marcando nossas relações pela defesa dos valores que dignificam a vida. Não tendo um fim em si mesma, a Quaresma aponta para o horizonte da Páscoa não só como anseio dos cristãos mas de toda a humanidade por reconciliação e paz. As práticas quaresmais, com seus ritos próprios, nos fazem mergulhar na experiência de Jesus, para aprender com Ele, como realizar na vida a Vontade de Deus. Com o evangelista Marcos, contemplamos Jesus que foi batizado por João, no Rio Jordão, declarado pela voz vinda do céu como Filho Amado que agrada ao Pai, assumindo publicamente e solenemente a missão de anunciar o Reino de Deus. Vamos também nós com Ele ao deserto para renovar nosso compromisso batismal, e pelo jejum e pela esmola, expressar nossa comunhão e solidariedade com os irmãos pobres e excluídos da caminhada. No Brasil, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade são inseparáveis. Este ano, com o tema "Fraternidade e Segurança Pública" e o lema: "a Paz é Fruto de Justiça", a Igreja acolhe uma vez mais o clamor que sobe do povo sofrido, com a vida ferida, ameaçada, banalizada e violentada. Com um grande debate sobre a Segurança Pública a Igreja deseja "contribuir para a promoção da cultura de paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social, que seja garantia de segurança para todos. A paz buscada é a paz positiva, orientada por valores humanos como a solidariedade a fraternidade, o respeito ao "outro" e a mediação pacífica dos conflitos, e não a paz negativa, orientada pelo uso da força das armas, a intolerância com os "diferentes", tendo como foco os bens materiais". Desde os tempos mais antigos a Quaresma foi considerada como um tempo de renovação espiritual, de revigoramento das promessas do Batismo e fortalecimento interior para o testemunho do evangelho. Isso através de três práticas muito significativas: a oração, a luta contra o mal e o jejum. A oração como experiência de fé e gratuidade para pedir a Deus forças e convertermo-nos para viver o evangelho e permanecer no bom caminho. A luta contra o mal como espaço privilegiado de exercício para dominar as paixões, vencer o egoísmo e cultivar o bem, como a mulher que está para dar à luz e sofre as dores do parto, como a uva que se esmaga para fazer o vinho que alegra o nosso coração. Celebrar a Quaresma implica também assumir juntos, num autêntico mutirão, como povo de Deus, a busca da paz e da concórdia, autênticos dons de Deus, mas frutos também de nossa corresponsabilidade. Paz, palavra sagrada, que meus lábios não te pronunciem em vão. Quero, neste ano, plantar tua semente no terreno fecundo da justiça. Quero viver num país seguro, mas não à custa apenas de uma ordem social repressiva. A segurança que almejo para o meu país não virá nem da adoção da pena de morte nem do exército nas ruas, mas brotará do pão das mesas, da terra partilhada, do trabalho com dignidade, da igualdade de oportunidades, de saúde e educação para todos. As leituras bíblicas propostas para esse domingo nos apresentam a destruição do mundo dominado pelo mal e pela morte e nos apontam o surgimento de um novo mundo e o nascer de uma nova sociedade. A primeira leitura relata o dilúvio que purifica o mundo do mal e faz surgir uma nova humanidade com o símbolo da paz plantada na gratuidade da aliança que Deus faz conosco. Na segunda leitura, um dos trechos da primeira carta de Pedro fala sobre a ligação das águas do dilúvio com as águas do Batismo. Os efeitos da água do dilúvio estão presentes, simbolicamente nas águas do Batismo: destruição do homem antigo e nascimento do homem novo. É Jesus Cristo, o Ressuscitado, que comunica pela água do Batismo a força capaz de destruir o pecado e a morte e nos ressuscitar para uma vida nova. No evangelho, são descritas as tentações de Jesus no deserto. Podemos perguntar: o que Jesus nos quer ensinar com este evangelho no início da Quaresma? O Espírito Santo, logo depois de descer sobre Jesus no Batismo das águas do Jordão, o envia para o lugar da tentação. Tudo acontece no deserto, durante 40 dias. Aqui, por tentação deve se entender as situações que temos que viver ou enfrentar, nas quais precisamos fazer opções e escolhas. São ocasiões e oportunidades para fortalecer a fé e professar nossa fidelidade. Jesus experimentou na carne o sofrimento, a rejeição o ódio dos inimigos, as ciladas dos adversários, por isso, o cristão nunca deve se sentir sozinho. Em nós atua a força do Espírito. RENUNCIAR Tal atitude não é um peso e sim motivo profundo de crescimento. Na Quaresma devemos renunciar ao consumismo exagerado e ao acúmulo das riquezas; à corrupção, à mentira e à falsidade; ao apego ao dinheiro; à busca de privilégios; às drogas; ao fumo e a tudo que destrói nossa vida; ao supérfluo e ao desnecessário, etc. VIDA RENOVADA A Quaresma é tempo oportuno para se confessar e reagir com atitudes de uma vida renovada. Deus é misericordioso. Aqueles que são católicos procurem saber os horários de confissões de sua paróquia e buscarem o perdão de Deus, experimentando a graça da vida nova. PENSAMENTO "Queremos viver num país onde segurança pública seja também um ato de fraternidade". José Geraldo Segantin Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br

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