Repensando a vida - Final


| Tempo de leitura: 3 min
Por que o mundo está tão caótico? O homem tem suas limitações, suas fraquezas e falibilidades, é um simples mortal. Mas não justifica: as ações humanas destoam muito do que se espera de quem tem discernimento e capacidade de distinguir o certo do errado, o bem do mal. O homem precisa evoluir. Não me refiro ao âmbito tecnológico, embora nada tenha contra. O homem precisa progredir como ser humano. A tecnologia facilita a vida do homem (isso quando ele sabe utilizá-la e não se escraviza a ela), mas não lhe proporciona melhora como ser humano, o animal inteligente que faz parte deste conjunto a que denominamos humanidade. A quantas anda a humanidade, com seus quase 7 bilhões de pessoas? Cada indivíduo que a compõe possui o básico de que necessita para viver dignamente? Não. Uma enorme parcela vive em condições subumanas, sem casa, comida, estudo. Seria diferente se a parcela da humanidade que dispõe de mais do que precisa se empenhasse em estender a mão à outra parte, vocês não acham? É fora de propósito desejar que os mais ricos ajudem os mais pobres? A preocupação primeira do ser humano tem de ser a humanidade, cuja estrutura está ruindo, tão fragilizada, assolada por guerras, fanatismos, fome, exploração do homem pelo homem. Urge fortalecê-la para que todos os seus integrantes possam satisfazer as necessidades primárias e desfrutar dos avanços da ciência, da tecnologia; é preciso harmonizar a raça humana consigo mesma e com a biodiversidade. Antes de partir para jornadas pelo Universo, o ser humano precisa voltar-se para dentro de si mesmo. O homem está tomado pela megalomania. Cinquenta países, incluindo o Brasil, investem pesado no mais potente acelerador de partículas, um engenho gigantesco com o qual se pretende simular o Big Bang, fenômeno que teria dado origem ao Universo. “Segundo Robert Aymar, diretor da Organização Europeia de Pesquisa Nuclear, o LHC proporcionará descobertas que mudarão nossa visão do mundo, em particular sobre a sua criação” (O Globo `Online`, 10.9.2008). Olhando daqui de baixo, com a visão ofuscada pela minha própria insignificância, digo que, ainda que haja êxito nas experiências (do que duvido), os conflitos no Oriente Médio prosseguirão, a fome continuará a matar milhões de pessoas, os problemas sociais permanecerão. Penso, porém, que em parte o Dr. Robert Aymar pode ter razão. Talvez as descobertas ajudem a explicar se quem veio primeiro foi o dia ou a noite, o ovo ou a galinha, a uva ou a videira; talvez revelem o sexo dos anjos; talvez definam se, afinal, uma garrafa com água até a metade está meio cheia ou meio vazia, coisas assim “tão úteis”. Ora, quem tem fome precisa comer. Primeiro se deve preservar a vida, buscar a paz. Depois se vai atrás de questões outras, como saber se o conhecimento se obtém de forma apriorística ou empírica, se o Universo é formado dessa ou daquela matéria, se tem limites, se é infinito, etc. O ser humano, que não encontrou solução para questões mais urgentes e básicas, como a fome, a violência, a intolerância, as desigualdades sociais; o ser humano, que vive imerso em suas angústias, que ainda não aprendeu a respeitar seu próximo e os outros seres vivos; o ser humano que vaga, perdido nas trevas da ignorância sobre si mesmo, talvez acabe acordando e descubra que está andando em círculos, feito o cachorro que tenta abocanhar o próprio rabo. Da minha parte, continuarei apreciando a beleza do ipê, e não preciso saber como ele consegue ficar tão florido em plena estiagem. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor de livro ‘Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários