A família Corrêa Neves, profundamente entristecida, decidiu, na tarde da última terça-feira, encaminhar ao Exmo. Sr. Governador do Estado de São Paulo, José Serra; ao Exmo Sr. Ex-Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin; ao presidente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, deputado Vaz de Lima; e ao deputado estadual Gilson de Souza pedido para que seja retirado do campus de Franca o nome do jornalista Corrêa Neves, falecido em 18 de agosto de 2005.
A decisão, dolorosa, é resultado de demorada e penosa reflexão. A iniciativa do deputado Gilson de Souza de homenagear o jornalista com o nome do campus reparava uma injustiça histórica. Foi graças ao trabalho de Corrêa Neves que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi instalada em Franca em 1963. O jornalista Corrêa Neves era então secretário de Imprensa do governo paulista e lutou para garantir que a faculdade, criada em 1960 a partir de projeto do então deputado estadual Onofre Gosuen, fosse instalada na cidade.
A unidade de Franca existia no papel mas não virava realidade, mais ou menos como aconteceu com o novo campus da Unesp. Cidades de menor porte ou de tamanho equivalente, como Araçatuba, Araraquara, Assis, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, São José do Rio Preto e São José dos Campos já tinham suas faculdades em pleno funcionamento. Na briga por verbas, recursos e atenção, a unidade de Franca ficava sempre para trás.
Foi preciso a ação decisiva do então secretário de Imprensa do Estado, Corrêa Neves, junto ao governador Adhemar de Barros para que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca fosse instalada na cidade. Não por acaso, ficou conhecido à época como o “deputado sem cadeira”, em alusão aos benefícios e obras que conseguia para a região, ainda que não tivesse mandato. Foi assim com escolas, estradas, recursos. Mas de tudo que conquistou para Franca, a Faculdade era o grande orgulho de Corrêa Neves. Foi assim por toda sua vida.
No dia 24 de março de 2005, um projeto do deputado Gilson de Souza transformado na lei 11.912 pelo ex-governador Geraldo Alckmin reconhecia o mérito de um trabalhador incansável: o campus da Unesp de Franca passaria a se chamar “Jornalista Corrêa Neves”. Desde então, correram exatos 1385 dias. Neste longo período, a família não recebeu um único telefonema, carta, bilhete ou telegrama de qualquer dirigente da Unesp de Franca ou de seus representantes para tratar do assunto.
Nem mesmo a mera formalidade recomendada por preceitos de mínima educação, indispensáveis a qualquer ser humano, ainda mais àqueles que se arvoram a condição de mestres e doutores, foi reservada à memória de Corrêa Neves: durante todo este tempo, não houve um único convite para que a família fosse conhecer o local das obras, que nasce como marco importante para a cidade. Não houve, tampouco, uma única visita de cortesia aos familiares do homenageado.
Apesar do campus de Franca sediar um importante curso de História, a família também não recebeu, durante todo este período, a visita de um único professor ou aluno interessado em resgatar o processo de instalação da faculdade em Franca, em busca de documentos do acervo pessoal do jornalista ou ainda no arquivo do jornal.
Enquanto isso, o Cedem (Centro de Documento e Memória) da Unesp, em sua página na internet, omite completamente o nome do jornalista e não faz qualquer alusão a seu trabalho e esforços desenvolvidos por ele no processo de instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca. Igualmente nenhum pesquisador do referido organismo ou a ele vinculado fez qualquer tentativa de contato com a família para alguma informação.
Agora, com as obras concluídas, o comportamento se manteve laconicamente idêntico. Até a tarde de ontem, quarta-feira, a família daquele que seria homenageado não recebeu do diretor Ivan Manoel nem de qualquer outro integrante da Unesp de Franca um convite pessoal para se fazer presente ao ato oficial de entrega das obras, programado para a tarde desta sexta-feira (posteriormente adiado para próxima terça-feira). Nem mesmo um singelo telefonema ou telegrama. Um único impresso foi encaminhado ao jornal, endereçado apenas ao “Comércio da Franca”. Neste mesmo “convite”, mais um episódio de descortesia explícita: não há qualquer referência ao nome do jornalista. Apenas indica data e hora para inauguração do “Campus de Franca”. Assinam o impresso o diretor da instituição, Ivan Manoel, e o vice-diretor, Fernando Fernandes.
A Unesp (Universidade Estadual Paulista) tem o nome do jornalista Júlio de Mesquita Filho, um dos mais importantes homens de imprensa deste país, preso inúmeras vezes por combater todas as formas de ditadura e censura. Júlio de Mesquita Filho estudou Direito, mas foi por sua história à frente do jornal “O Estado de São Paulo” que acabaria consagrado, bem como pela defesa das universidades paulistas.
O campus de Franca, numa feliz coincidência, homenagearia outro jornalista, Corrêa Neves, um batalhador que lutou incansavelmente por toda a região e, particularmente, pela instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca, o embrião da Unesp.
Além de inteligente, Corrêa Neves era educado. Jamais iria a cerimônia para a qual não fora convidado. Muito menos permitiria que seu nome fosse entrave de qualquer espécie para a cidade que amou, para a população que respeitava acima de todas as coisas. Já que o nome é um constrangimento para a comunidade da Unesp, que prescinda dele. A Unesp e seus cursos são importantes para Franca e muito maiores do que a mesquinharia de uns poucos que negam a dimensão plural e culturalmente rica que deve estar contida no DNA de uma faculdade.
A cidade, os professores e alunos contam com uma inauguração. Mas Franca e sua gente mereceriam mais do que um evento sem brilho, sem festa, sem entusiasmo, feito na surdina, programado para uma sexta-feira de início de ano e com “convites” enviados apenas na antevéspera, sem uma única referência ao “homenageado”.
Ao governador do Estado de São Paulo, José Serra, e ao presidente da Assembléia Legislativa, Vaz de Lima, nosso agradecimento extensivo aos deputados que aprovaram, após pareceres favoráveis das comissões de Constituição e Justiça e Educação, o nome de Corrêa Neves para o campus de Franca e nossos antecipados pedidos de desculpas por quaisquer transtornos que nossa decisão possa causar, mas os interesses de Franca têm que prevalecer, sempre.
Ao ex-governador Geraldo Alckmin, nosso muito obrigado pela delicadeza e elegância com que sempre tratou a questão.
Ao deputado Gilson de Souza, nossa eterna gratidão e reconhecimento pelo gesto público de apreço, pela maneira carinhosa e respeitosa com que sempre tratou o jornalista Corrêa Neves em vida e, depois de sua morte, seu legado.
À população de Franca e região, a certeza de que o jornalista Corrêa Neves, polêmico e sempre combativo como poucos, foi um incansável defensor dos interesses da comunidade e de sua gente e que tinha pela Unesp enorme apreço e carinho.
Franca, sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
<b>Corrêa Neves Júnior</b>
<i>em nome da família de Corrêa Neves</i>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.