De repente, apareceu com destaque em toda a mídia a face de um deputado federal, ex-tenente da polícia militar mineira, ex-dono de uma firma de segurança e ex-membro da Corregedoria da Câmara e ainda devedor do INSS, possuidor de um imóvel tipo castelo no seu Estado de origem, que faz inveja a muitos reis e majestades.
Também veio outra informação que o ex-técnico da seleção brasileira de futebol dispensado de um time de futebol da Inglaterra poderá receber, a título de indenização, vinte e cinco milhões de reais, dólares ou euros.
Trabalhando desde pequeno e iniciando uma carreira operária em qualquer setor durante sessenta e sete anos, se o trabalhador guardasse mensalmente algum dinheiro – um salário mínimo oficial, hoje em R$ 465 – , teria em caixa, um montante de R$ 373.870. Pergunto: vale a pena uma pessoa trabalhar uma vida inteira ganhando um salário mínimo fixado pelo governo? E vejam que depois de aposentado o salário continuará o mesmo e o seu reajuste não dará nem para comprar a bula dos remédios que necessita.
A diferença é astronômica. Não que eu ache que todos também deveriam ganhar tanto, porque cada um ganha o que pede ou o que pode, mas convenhamos que não é apenas uma questão de simples diferença, mas de distância astronômica. Atualmente quando se fala em escândalos envolvendo políticos, empresários ou em transações no futebol, as quantias que rolam são estratosféricas.
Quanto aos políticos e empresários, tudo sempre acaba em pizza e eles continuam numa boa. Quanto aos boleiros não devemos, por questão de oportunidade, criticar o grau de escolaridade e compará-los com os cidadãos comuns ou com aqueles de maior graduação cultural para fazermos ou fundamentarmos crítica em face dos altos valores em jogo. Todos estes são fatos que fogem à razoabilidade e não vejo sinceramente como fazer para mudar este tipo de situação.
Agora, que é muito doído (olha o acento) para um trabalhador como aquele que descrevi assistir a tudo isso, sentado em uma cadeira de plástico, frente a uma pequena televisão, comendo um biscoito seco e amanhecido, é inegável. Chega até a engasgar quando ouve um engomadinho da TV afirmar todo empolado que a crise vai aumentar e as demissões vão continuar e que é preciso arrochar o orçamento. Pergunta a si mesmo, morrendo de medo de pensar alto e os patrões escutarem: arrochar mais o quê? Tirar o biscoito? E os valores e incentivos que as empresas vêm recebendo dos governos?
Será que são apenas para nos mandar embora ou reduzir nossos salários para depois de um ano, na data do reajuste, com festa e muito barulho na imprensa, devolverem apenas o que agora nos tiram o que nos deixa como hoje ou ainda pior porque será um ganho totalmente defasado? Não lhes parece que tudo isto está cheirando a golpe orquestrado pelo capitalismo? Por que só os pequenos pagam pelos erros dos grandes e têm ainda que assumir as suas contas com a redução do seu salário ou a entrega do seu posto de trabalho?
Se não houver mudanças radicais na mentalidade dos homens (disse homens) e na sua forma de encarar também o lado humano e sócio/cultural na vida de seus empregados, pouco ou nada avançaremos. E isso é tremendamente lamentável e injusto.
Odorico Antônio Silva
Advogado
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