Quem pulou nos três dias anteriores, ainda pode chegar à quarta noite de folia. Mas aqueles que só despertaram hoje para o Carnaval, não tem mais jeito. Resta agora somente uma noitada. Aproveite-a. Ou então espere por 2010. Aliás, o próximo ano promete muito em relação aos festejos de rei Momo.
Por mais que o tempo passe, ano eleitoral favorece a qualquer evento de apelo popular. Pleito presidencial então mexe com a nação inteira. Os blocos para 2010 já estão em acelerados preparativos. As fantasias, principalmente as máscaras, tiveram início até mesmo antes do Carnaval atual.
Ainda por cima, máscara cara! Nada de papelão ou tecido. A moda neste 2009 constituiu-se de usar cirurgião plástico. A largada para mudar a cara custou uma nota. Foi feita diretamente na pele. Puxa aqui. Estica ali. E, eis que da ministra carrancuda, surgiu a sorridente candidata à Presidência da República. Sem constrangimento nenhum pela campanha antecipada e ilegal.
Sempre foi assim. Desde a proclamação da República, o presidente de plantão se vale do cargo para tentar impingir o sucessor. O que é menos mau. Pior mesmo seria a tentativa de se conseguir mandato vitalício. Se bem que com o exemplo recente de um companheiro sul-americano, que conseguiu aval para se candidatar permanentemente, um referendo semelhante ainda pode entrar em cogitação.
A maré anda tão boa que até samba-enredo só enaltece a história atual. Antes, os compositores se aproveitavam do Carnaval. Sátiras e mais sátiras eram escritas e cantadas na passarela. Além de todos os integrantes da escola cantarem durante os desfiles, os versos permaneciam por muito tempo na boca do povo.
A história antiga continua na lembrança dos letristas de samba-enredo. Repare no título da letra representante da escola Acadêmicos de Tucuruvi: “Ouro Preto, o esplendor de uma Vila Rica, relicário da Pátria, patrimônio da humanidade”. Lá pelo meio, surgem os versos: (...) “O talento brasileiro / Sonhou com a liberdade ainda que tardia / No alvorecer de um novo dia, alforria” (...). Quem será que se lembra que o talento mencionado é Tiradentes?
Veja o quilométrico título da Unidos de Vila Maria: “Da sobrevivência ao luxo, da ilusão à alucinação... Dinheiro, mito, história e realidade”. Agora, alguns versos que mais se parecem com discurso do presidente Lula: (...) “Neste mundo desigual / Poucos têm muito e muitos nada têm / Brilhou na modernidade, o sistema mundial / No meu país, esta novidade / Chegou com a família real / Meu capital não é dólar nem é euro / Mas tem o seu valor”(...).
Já no samba-enredo da Mocidade, escola carioca, a história literária abre passagem no Sambódromo: “Mocidade apresenta: Clube literário - Machado de Assis e Guimarães Rosa: Estrelas em poesia”. Depois do título, os dois últimos versos de tanta desinformação sobre literatura: (...) “Um show de poesia, em nossa academia / Saudade em verso e prosa vai ficar”. Por sorte, a antepenúltima palavra da canção carnavalesca é “prosa”. Porque os autores homenageados são mais conhecidos exatamente pelos romances que escreveram.
Os três sambas-enredo citados aqui foram escritos por 14 compositores. Não há espaço para dar crédito a todos os nomes. Se tiver curiosidade, consulte a lista de autores nas edições de sábado e domingo últimos, deste Comércio.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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