Longas pernas, cintura fina, seios fartos e bumbum empinado. O desejo de ter um corpo “tipo violão” com medidas perfeitas leva a maioria dos travestis da região de Franca a sonhar com uma aplicação de silicone. O sonho de ter um corpo feminino terminou em tragédia para Robson Daniel Campos das Chagas, 25, na última semana. Ele sofreu uma forte reação ao silicone, teve infecção generalizada e morreu na Santa Casa. Mas, apesar dos riscos, sem dinheiro para próteses médicas, histórias como a dele se repetem com os travestis de Franca, que ignoram os riscos e recorrem à versão industrial do produto injetado por um “colega” com uma seringa em um cômodo residencial qualquer.
Whesllen Diógenes Lopes sabia que era diferente desde criança, mas foi aos 15 anos que começou a luta para transformar seu próprio corpo. Apesar de conhecer os riscos do procedimento, aos 18 anos, resolveu “bombar” as pernas, o bumbum e os quadris. Aplicou cinco litros de silicone industrial (por litro gastou R$ 200) no corpo e se tornou Stephane. A mudança, no entanto, deu errado. “Quatro dias depois comecei a passar mal. Fui parar no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, onde passei um mês em coma. Quase morri”, contou. O silicone escorreu dentro do corpo de Stephane. Atingiu os rins e um dos pulmões. Ela foi internada, sofreu uma infecção generalizada e ficou sob coma induzido por quase um mês para suportar a dor.
Até hoje, Stephane guarda as marcas da aplicação. Nos quadris, as cicatrizes se parecem com estrias da largura de um dedo. O silicone ainda escorre para seus pés, constantemente inchados, e ela precisa drenar o produto periodicamente.
A HISTÓRIA CONTINUA
Alertas como o caso de Robson Daniel, que morreu 15 dias depois de ter o corpo modelado, parecem ainda ser pouco para os travestis de Franca. A própria Stephane, que sofreu as consequências da aplicação, não desistiu. Agora, aos 20 anos, ela explica que para ser considerado travesti pelos colegas é preciso ter no mínimo cinco litros de silicone no corpo. “Só assim a gente é respeitada em nosso meio”, disse garantindo que, se achar necessário, fará novas aplicações. Para ela, que tem feições femininas, seu problema aconteceu pela “qualidade” do silicone utilizado na época. “Existem vários tipos de silicones que são aplicados com seringa. Meu corpo só não aceitou aquele”.
Segundo a Secretaria de Saúde de Franca, há uma população flutuante de cerca de 50 travestis no município. Têm idades entre 18 e 40 anos e vivem migrando pelas cidades da região. “Praticamente todos já fizeram algum tipo de aplicação.
Além do forte desejo por formas femininas, quando se trata de profissionais do sexo há ainda uma grande competição de beleza. O medo do procedimento deixar sequelas fica em segundo plano”, explicou João Doná, psicólogo coordenador do trabalho de prevenção do município junto à população GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Para o travesti EEC, 24, a morte de Robson trará mais consequências. Responsável pela aplicação malsucedida, foi preso na sexta-feira pela polícia, acusado de homicídio culposo (sem intenção de matar). “Todas nós usamos o mesmo silicone. Sabemos que há um certo risco, mas nunca tinha acontecido...”.
A “bombeira” - como são chamados os travestis responsáveis pelas aplicações - contou que comprou o produto em São Paulo e que Robson seria a sexta pessoa na qual fazia aplicações. “Estou assumindo que errei, não queria que isso tivesse acontecido com ele”, disse, chorando.
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