Hoje


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Nada ou ninguém conseguirá atenazar o meu espírito de paz, de amor, de perdão e de minha completa doçura com o próximo. Quero gozar o labor das formigas, provisionando com seu árduo bem fazer durante a fartura, suprindo a “minguança” que virá implacável no seu tempo. Quero ter uma paixão pelas abelhas sugando néctar do pólen das flores no fabrico do mel, alimento sagrado para a escassez do inverno. Quero colocar minhas cadeiras e banquetas na calçada no forte calor da noite, desfrutar a luz da lua, um café bem quente, o papo e amizade dos vizinhos, enquanto as crianças jogam amarelinha. Quero ouvir na madrugada a doce e suave serenata na voz do seresteiro triste apoiado pelos violinos em mágica romântica. Quero ter embevecida a alma ao chilreio do canário a minha janela anunciando o surgir de uma nova aurora. É bom viver o festejado amanhecer pelo gorjeio da passarada cujo maestro sabiá, de alta sabedoria melódica, rege a orquestra da manhã. Os trinados do coral madrugador reunindo o pássaro preto, bem-te-vi, azulão, pintassilgo, canário da terra, formam a base principal da musicalidade silvestre. No meu caso, os grasnidos de algumas araras moradoras em minhas cercanias criam o inusitado, tornando valioso o festival. Quero curvar-me aos juízes que eram baluartes da moral, símbolo do respeito, expressão maior da cidadania, rígidos e fieis aplicadores da justiça; aos professores de paletó e gravata portando saberes e dignidade, conselheiros ilustres de uma juventude aplicada; as mulheres de corpos inteiramente cobertos, sem contanto perderem o apelo sensual exibido nas curvas bonitas da graça feminina. Quero regozijar-me na lembrança dos tempos da vara de marmelo aplicada com severidade e amor, buscando e ensinando caminhos de exemplo em louvação. Quero levantar suavemente o chapéu, curvando-me para saudar pessoas na via pública em aberto sorriso sincero de quem respeita e ama ao próximo. Hoje quero embriagar-me no perfume da mulher amada, sentir a suavidade de sua pele morena, o sedoso de seu toque em meu corpo buscando ternura. Quero acariciar as folhas verdes, as flores tão belas, absorver os encantos de rosas e antúrios, azáleas e orquídeas, sugar-lhes o perfume para misturar ao ópio da papoula. Onde não houver visão, quero ser o guia seguro, onde a velhice fizer claudicar, quero ser perna firme para cruzar espaços de risco, onde reinar o abuso, devo ser o perdão, o entendimento evoluindo nas consciências. Hoje, me afasto me isolando do labéu para viver em paz. Hoje, me recolho à clausura para me dedicar ao amor integral. Hoje é dia de amar. Garcia Netto Jornalista

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