Crise... Mas que crise?


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Por onde ando, me perguntam: já que você previu a crise quando ninguém falava dela, diga agora quanto tempo até o fim? Sinto. Infelizmente, não tenho bola de cristal nem sei jogar búzios. O que pratico é a observação crítica do que se passa e tento tirar conclusões baseadas no mais puro e realístico bom senso. A minha resposta a esse tipo de dúvida é: a crise verdadeira, no pleno sentido da palavra, ainda não nos atingiu. Ainda não chegou até nós. Estamos sofrendo as primeiras rajadas do vento que anuncia o temporal. Para valer, aparecerá daqui a uns quatro a seis meses. E por que acho que será assim? Até agora estamos vivendo, indivíduos e comércio, pela força de inércia. O mundo não vai parar de uma vez. Aos pouquinhos vamos desistir disto, daquilo, vamos nos acostumar a gastar menos, a nos preocupar mais com o futuro. Sem perceber, estaremos fazendo parte do quadro da crise. Vamos observar com mais cuidado o que está acontecendo. Quem acha que alguma coisa mudou com a posse do Obama está redondamente enganado. O homem "mais poderoso" do mundo comanda os Estados Unidos, o seu exército, mas não comanda o sistema financeiro mundial. E até hoje não sabemos a profundidade do buraco em que as finanças virtuais se meteram nas últimas décadas de lucros e prosperidade virtual. Se algum dos grandes bancos confessasse a situação real, haveria uma corrida dos clientes e o banco iria falir em horas. Os economistas mais frios e que têm acesso aos dados inacessíveis aos mortais comuns já não falam em recessão de um semestre, mas preparam o espírito do público à recessão que pode não acabar em 2010! Pessoalmente, aceito a opinião deles. É muito simples, observem: esta semana o mundo tomou conhecimento das dispensas de mão-de-obra da Microsoft, da Volkswagen alemã, da Volvo na Suécia e as grandes dispensas nos Estados Unidos, a começar pela Citigroup. Parece que todas as 500 maiores empresas mundiais listadas na Fortune entram nesta lista. Alguém duvida que estas firmas têm departamento de política e estratégia corporativa ou departamentos de análise econômica? E alguém faz idéia do valor que representam os conhecimentos dos funcionários altamente especializados e treinados de uma Microsoft ou de uma Volkswagen? Se estas firmas decidem arcar com este tipo de prejuízo, demitir estas pessoas, perdendo valores difíceis de transcrever em números mas que representam um enorme ativo intangível, podemos deduzir que estas firmas estão se preparando para uma recessão longa. Se fosse questão de meses, como nossos Lula e Mantega estão querendo nos "vender", não seria muito mais negócio conservar estes funcionários à mão? Prefiro muito mais a apreciação do economista Mendonça de Barros, que declarou, quando perguntado sobre o que achava da situação da economia global, que "teria que melhorar para ficar ruim!". Para que vender ilusões, quando a situação exige de cada um de nós a máxima cautela e previsão? A resposta mais contundente foi dada esta semana pelo Senado norte-americano, que aprovou pela esmagadora maioria de "um" voto o plano emergencial do Obama. O bom senso outra vez foi derrotado pelo cálculo político e, por que não dizê-lo, demagógico. Pelo amor de Deus, o que representam 825 bilhões de dólares para salvar a economia quando os economistas conservadores consideram o tamanho do buraco a descoberto em 4 a 5 trilhões de dólares no âmbito mundial? A indústria de calçados praticamente desaparece, pela sua insignificância, neste jogo de valores incompreensíveis. Alguém pode fazer idéia o que representa um trilhão de dólares? A exportação brasileira de calçados montava a um bilhão e meio de dólares, nos anos bons. Um trilhão de dólares é mil bilhões. Nem me aventuro a contar os zeros. Estamos ameaçados de todos os lados. De um lado a recessão, desemprego, perda do poder de compra tanto no estrangeiro como no Brasil. Do outro lado perda de mercados de exportação para os orientais e até a ameaça de perda do mercado nacional pela concorrência dos importados. Soma-se a isso a falta de crédito para uma indústria que nunca se capitalizou, a obsolescência de tecnologia e de métodos da gestão e temos um quadro de calamidade para ninguém botar defeito. Existe saída? Existe, naturalmente, mas esta saída exige espírito inovador, coragem para trilhar caminhos novos, abandonar velhos hábitos obsoletos e viver a realidade do terceiro milênio: aplicar controles de desperdícios, racionalizar as operações, ser mais criativo, adotar métodos modernos de vendas, agredir os mercados etc. Infelizmente, o quadro que presenciamos oferece muito pouco neste sentido e isso não faz crescer o ânimo e amplia aumento de confiança. Até hoje a grande maioria dos donos de empresas de calçados parece que não entendeu a gravidade da situação e fica à espera de um milagre que deve partir dos outros. Bem. É esse tipo de análise que faço e de onde tiro as minhas conclusões. Se alguém pensa diferente, por favor, dirija e-mail com crítica e sugestões para o endereço no topo desta coluna. De antemão agradeço a colaboração. AMPLIANDO Representantes da indústria de calçados do Brasil visitaram a Tunísia no fim de janeiro para estudar incremento e parcerias para exportação. O Brasil é o sexto mais importante parceiro em exportação da Tunísia. Ano passado o intercâmbio representou USD 600 milhões, contra USD 250 milhões em 2005. REDUZINDO Mark Parker, presidente da Nike, anunciou reestruturação dos negócios para melhorar e concentrar o foco no consumidor e para trazer inovações para o mercado com maior rapidez. Estima-se que as inovações vão causar redução de aproximadamente 4% dos 36 mil empregados da empresa. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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