Franca não tem estrutura para cuidar de menores viciados


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Pelo menos 38 menores entram na fila de espera para tentar vencer o vício nas drogas e o alcoolismo na cidade todos os meses. Para se recuperar, o primeiro passo é aceitar o tratamento. Mas, em Franca, “dizer” sim não significa a certeza de conseguir ajuda. Se o dependente for homem e tiver menos de 16 anos conseguirá tratamento em apenas uma das cinco entidades existentes na cidade e somente se apresentar autorização judicial. O DCNOVI (Desafio Cristão Nova Vida) é a única entidade a aceitar pacientes entre 12 e 18 anos. Restam aos adolescentes outras três casas de recuperação. Ainda assim, duas delas - Narev (Núcleo de Apoio e Recuperação da Vida) e Cosfram (Comunidade Sagrada Família) - são voltadas somente a homens, só recebem maiores de 16 anos e, até ontem, não tinham vagas disponíveis. O Narev só poderá aceitar novos usuários a partir de 28 de fevereiro, quando três internos terminarão o tratamento. O Proreavi (Projeto de Restauração de Vidas) atendia adolescentes até o ano passado, mas interrompeu o serviço pelo despreparo para tratar esse público. Hoje, só interna pessoas a partir de 18 anos. Para as dependentes químicas e do álcool, a opção é a Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), que oferece internação a menores e possui vagas em aberto. A espera pelo atendimento traz à tona outra deficiência da cidade no cuidado com esse público. Na maioria das vezes os adolescentes que usam drogas não combinam com os familiares e são afastados de suas casas. Até conseguir a internação permanecem no Abrigo Provisório. Nesta semana, dois menores, de 13 e 17 anos, estavam no local, convivendo com viajantes e andarilhos e sem atividades para preencher o dia. Em Franca não existem estatísticas de quantos jovens necessitam de tratamento. Mas sabe-se que o problema é grave. Sem encontrar vagas e sem um espaço específico para atendê-los, ficam à mercê do próprio vício. Em Franca, a Justiça chega a encaminhar os casos extremos para o Hospital Psiquiátrico Allan Kardec. Nem sempre resolve. José (nome fictício), 16, morador na região Norte, já viveu essa experiência, mas continua viciado. Ele é acompanhado pelo Mosaico, que trabalha com jovens em liberdade assistida, desde 2007. É usuário de drogas desde os 8 anos. “Já o encaminhamos para o Caps (Centro de Apoio Psicossocial), entidades terapêuticas e Allan Kardec, mas ele não se recuperou”, disse Ana Paula Ribeiro, assistente social coordenadora do Mosaico. Mesmo quando conseguem vagas, muitos jovens desistem do tratamento, que dura em média nove meses. Para Maria Inês Coimbra, coordenadora do Creas (Centro de Referência Especializada de Assistência Social), as casas de recuperação desempenham um bom trabalho, mas não têm metodologia adequada para lidar com adolescentes. “É muito diferente o tratamento para uma pessoa de 16 anos e uma de 50. Os adolescentes são mais impulsivos e não aceitam regras muito rígidas”. A dependência prejudica famílias inteiras. São constantes agressões e furtos dentro das casas motivados pelo consumo de drogas. O vício e a demora para se tratar pode custar a vida desses jovens, que se envolvem com o tráfico. A dona de casa NA, 43, enfrenta esse drama. É mãe de quatro filhos. Dois deles, um jovem de 18 anos e uma menina de 15, usam drogas. O mais velho já destruiu a casa e furtou objetos da mãe para sustentar o vício. “Ele fica agressivo. Já quebrou duas portas e já vendeu coisas minhas. Queria que se tratasse. Mas ele sempre me fala: ‘mãe, a maconha me dá paz e tranquilidade, porque eu vou querer me internar numa casa de recuperação?’ Não sei o que fazer”.

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