Desde o começo de janeiro basta olhar para o céu, principalmente durante a tarde, e lá estão elas, as escuras, carregadas e temíveis nuvens de chuva. Ao longo do primeiro mês do ano elas não faltaram quase nenhum dia em Franca. Tradicionalmente neste período sempre chove muito. No ano passado foram 355 milímetros.
Em 2009, este volume cresceu ainda mais: 415 milímetros. O montante é mais que o dobro do volume acumulado entre maio e setembro do ano passado e instiga a pergunta: por que chove sem parar? A resposta para esse questionamento é a ocorrência de um fenômeno chamado ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul) que nas últimas semanas ficou parado entre o sul da Bahia e os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo.
Meteorologista do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Neide Oliveira diz que o verão é caracterizado pela predominância de massas de ar quente e úmido e são elas as responsáveis pela formação das nuvens de chuva. A ZCAS surge a partir desses ventos úmidos e quentes da Amazônia que se encontram com as frentes frias do litoral. "Esse choque provoca as chuvas de verão", disse Neide.
A meteorologista esclareceu que após o choque entre as frentes climáticas, o sistema fica parado e a instabilidade se autoalimenta dando início a mais chuvas. O fenômeno só começa a enfraquecer em meados de março. "A ZCAS começa entre outubro e novembro e segue até fevereiro, março. O pico é dezembro e janeiro". A região de Franca é uma das mais prejudicadas. Ela exerce maior atração ao sistema por possuir um relevo acentuado, ter muitos rios e estar em um "corredor" entre as frentes climáticas.
Para o meteorologista do Instituto Climatempo Alexandre Nascimento, o calor predominante da estação também colabora para a formação dos temporais. "A temperatura é cada vez mais alta e como há muita umidade disponível as chuvas se tornam frequentes". Em 13 de janeiro deste ano, por exemplo, a temperatura máxima ultrapassou os 30 graus. Durante todo o mês a temperatura média se manteve entre 20 graus e 25 graus.
Apesar do calor as piscinas dos clubes da cidade não ficaram lotadas. As chuvas não deixaram. A estudante Carla Gomes, 17, bem que tentou, mas no dia escolhido para pegar aquele sol um dilúvio assolou o município. "Choveu e ventou forte no dia; nem consegui sair de casa". Alexandre Nascimento disse que quando as chuvas chegam associadas a ventos fortes elas são chamadas de cumulonimbus e algumas também reúnem granizo e raios na mesma tempestade. Além de assustadoras elas são capazes de fazer grandes estragos. "É por isso que muitos temporais provocam queda de árvores e destelhamento".
Em Franca o último temporal com ventos fortes aconteceu no dia 3 de janeiro. Bairros ficaram sem energia elétrica, árvores foram derrubadas, crateras foram abertas nas ruas e cabos telefônicos acabaram danificados. Parte da população ficou sem comunicação e vias foram interditadas. Nesta semana a natureza também não deu trégua. Quinta-feira, após uma chuva muito forte, a confluência dos córregos na região do Posto Galo Branco inundou. Várias vias precisaram ser evitadas pelos motoristas. O sentimento é de medo a qualquer nuvem negra no horizonte. "Confesso que fiquei com medo. A energia acabou e não tinha o que fazer. Foi chato, mas compreendo que a chuva é fenômeno da natureza", disse Carla. A previsão para fevereiro é de mais chuva.
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