‘Trabalho para que a crise acabe rápido’


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COM OS JORNAIS REGIONAIS - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais na última quarta-feira
COM OS JORNAIS REGIONAIS - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais na última quarta-feira
<p>A entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à  APJ (Associação Paulista de Jornais) - da qual fazem parte os 14 maiores jornais do interior de São Paulo, inclusive o Comércio da Franca - começou com o presidente irritado. Ele reclamou dos ajustes que teve de fazer na cadeira em que se sentou, às 9h27. O petista chegou à sala de reuniões que fica ao lado de seu gabinete no Planalto acompanhado do ministro da Comunicação Social Franklin Martins. Ao se acomodar, virou-se para o assessor. “Eu não sei por que sempre tenho que ajustar a cadeira. Teoricamente, só eu sento aqui”, disse.</p> <p><br />Em seguida, tentou quebrar o gelo com uma brincadeira com Martins. “Se estiver alguém sentando aqui, é perigoso. Esse negócio de sentar na cadeira antes da hora é muito ruim. Dá azar. Lembram-se do Fernando Henrique Cardoso?”, perguntou aos jornalistas. Lula fazia alusão ao episódio em que o ex-presidente se antecipou à eleição e posou para uma foto no gabinete da Prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros.</p> <p><br />Lula, como é hábito, fumou a primeira cigarrilha 29 minutos depois do início da entrevista. Durante o encontro, ele acendeu duas unidades da marca “Café Créme”, de origem holandesa - o petista consome dez diariamente, em média. Tomou duas xícaras minúsculas de café e explicou o motivo: “Os médicos me recomendaram. Como tomo muito café, uso uma xícara menor. É uma maneira de reduzir a cafeína”, disse. No decorrer da conversa, o ministro Franklin Martins mostrava, ao sinalizar com a cabeça, que concordava com as declarações mais assertivas de Lula a respeito da “transformação do País” sob sua gestão. O jornalista não fez nenhuma intervenção durante a entrevista - exceto no momento em que advertiu os colegas para os cinco minutos finais de perguntas (que foram extrapolados em outros 25 minutos).</p> <p><br />Lula falou por 1h10 e mostrou desenvoltura de quem conta com 84% de aprovação popular. Não escapou dos questionamentos e demonstrou conhecer a fundo os assuntos abordados durante a entrevista. Exemplo disso é que o presidente tinha em mãos relatórios sobre obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) no interior, mas não recorreu sequer uma vez ao expediente para consultar dados. Visivelmente contrariado com o curativo que exibia na mão esquerda por conta de uma tendinite, Lula desabafou: “Isso incomoda. Mas foi ordem do acupunturista”, resignou-se.         </p> <p><strong>Comércio da Franca/APJ - Presidente, a Petrobras, que vendia o barril a US$ 160 no ano passado, teve um aumento de 8% no diesel. Agora, com o barril a US$ 40, US$ 50, a empresa não tirou essa margem. A Petrobras, na opinião dos agricultores, está querendo fazer caixa com a diferença de...<br />Presidente Lula -</strong> (interrompendo) Vamos atentar bem porque as pessoas costumam chorar demais. Quando nós discutimos o plano de investimento da Petrobras, em que imaginamos investir US$ 112 bilhões até 2010 e agora passamos a um novo programa de US$ 174 bilhões até 2013, o preço do petróleo do primeiro programa era calculado em US$ 35 o barril. Portanto, obviamente que, para a Petrobras, ou para uma empresa de petróleo qualquer, se o petróleo chegasse a US$ 200, seria ótimo. A verdade é que, nos cálculos deles, se o preço estiver a US$ 40, eles estão ganhando dinheiro. Eu acho que o petróleo não volta mais a US$ 150, mas também pode não ficar em US$ 40. Pode voltar a subir a US$ 50, US$ 60, o que é um preço extremamente razoável. E nós...(pausa) o Brasil tem em mente que, a partir do mês de abril, vai começar a explorar o poço de Tupi. Durante uns dez meses, um ano, vai explorar em fase experimental para ir adequando novas tecnologias. Eu espero que o Brasil entre no mercado dos países exportadores não de petróleo, eu quero que o Brasil exporte derivados. Porque nós tomamos a decisão de fazer três novas refinarias: uma no Rio Grande do Norte, uma no Ceará e uma no Maranhão, fora a de Pernambuco que está sendo feita em parceria com a Venezuela. O Brasil há 20 anos não fazia uma refinaria. Nós vamos fazer para quê? Para a gente exportar óleo diesel de qualidade e exportar gasolina de qualidade. </p> <p><strong>Comércio/APJ - Não é justa essa chiadeira do diesel em função de estar bem mais barato o preço do petróleo? <br />Lula -</strong> Mas as pessoas têm que lembrar que nós aumentamos muito menos o combustível. Eu vou dar um exemplo para vocês: o gás de cozinha. A Petrobras não aumentou desde que eu tomei posse. Ele aumenta na distribuidora, mas o preço que a Petrobras vende não aumentou. Você vai analisar que os combustíveis subiram muito menos do que qualquer coisa. Obviamente que se o preço continuar estável, ficar parado nos US$ 40, e a gente constatar que é possível mexer, não tenha dúvida de que nós mexeremos. O que é importante é que a gente primeiro tenha noção do que vai acontecer com o preço do petróleo. Não é o Brasil que determina o preço. O mundo desenvolvido, na verdade, é que determina o preço. Ele chegou a US$ 150 no ano passado porque o mercado futuro determinou um preço. Por isso, parte dessa quebradeira se deve à especulação do mercado futuro, e eu acho que no Brasil...(pausa) Eu aprendi uma coisa. Eu, quando era mais novo, eu tinha muito aquele negócio de achar que era tudo ou nada. Você vai ficando velho, o cabelo vai ficando branco, e você percebe que entre o tudo ou nada tem uma quantidade enorme de degraus para você pisar até encontrar um ponto de equilíbrio. E hoje eu sou muito mais um equilibrista do que um defensor da tese do tudo ou nada. Eu sempre tento procurar o ponto de equilíbrio. Eu, nas minhas decisões econômicas, não ouço apenas uma pessoa, ouço muitas pessoas. Nas minhas decisões políticas, eu não ouço apenas uma pessoa porque, senão, vem uma pessoa para te fazer a cabeça, conta apenas o que ela está pensando e você não ouve o outro lado. A tendência é você tomar uma decisão precipitada. Então, eu sempre prefiro ouvir duas, três pessoas sobre o mesmo assunto para poder formar o meu juízo.<br /></p> <p><strong>Comércio/APJ - O BNDES tem socorrido diversos segmentos produtivos. O governo já agiu no setor automotivo. O senhor acha possível estender esse socorro para outros polos produtivos, como têxtil, calçadista, aeronáutico? Existe uma crítica desses segmentos de que o setor automotivo tenha sido privilegiado.<br />Lula -</strong> Deixe-me falar uma coisa: o setor automotivo, por uma razão. A indústria automobilística tem uma participação de 24,5% no PIB industrial brasileiro. Não é apenas a fábrica que produz o carro: é a loja que vende, é o mecânico, é o borracheiro, é o posto de gasolina. Então, quando nós atendemos a indústria automobilística, nós tomamos três decisões importantes: primeiro, garantir que a indústria automobilística continuasse produzindo, e para isso era preciso resolver o problema de crédito para vender o carro, porque os bancos pequenos pararam de financiar. Nós tomamos a decisão de comprar a Nossa Caixa, em São Paulo, e tomamos a decisão de comprar metade do Banco Votorantim exatamente para que a gente, através do Banco do Brasil, possa manter a carteira de carros em dia e possa, inclusive, financiar carro usado. Você sabe que a classe média brasileira, sobretudo a classe “média média” e a classe média baixa, se não vender o carrinho do ano passado, não compra o carrinho do ano que vem. Então, é preciso que tenha financiamento. O Banco Votorantim era um banco que tinha uma carteira de R$ 90 bilhões em financiamentos de carros usados. Na hora que ele para, para o mercado de carros usados. Então, nós entramos exatamente para garantir. Ao mesmo tempo, tomamos uma decisão de capital de giro para a pequena e média empresa brasileira. Vocês sabem que nós já disponibilizamos mais de R$ 100 bilhões do compulsório para fazer o crédito fluir. E, ao mesmo tempo, nós agora acabamos, com uma medida do Banco Central, de disponibilizar US$ 36 bilhões para garantir o financiamento de empresas brasileiras que têm dívidas em dólar para garantir os créditos da Petrobras e de outras empresas que têm projetos em dólar para construir coisas no Brasil. Nós tivemos um problema que ainda não conseguimos resolver. Como 30% de todo o crédito no mercado interno era feito em dólar, grandes empresas que tomavam dinheiro em dólar, como a Petrobras, por exemplo, na hora que seca o mercado de dólar, esses 30% vêm para dentro do Brasil. Então, aconteceu o seguinte: você tem mais gente procurando empréstimos. Os bancos, além de ficarem mais seletivos, começaram a cobrar uma taxa de spread muito maior. </p> <p><strong>Comércio/APJ - O spread pode baixar?<br />Lula -</strong> Eu constituí um grupo de trabalho entre o Tesouro e o Banco Central (para discutir o assunto) e o prazo vence amanhã (quinta-feira, dia 12). Certamente eles vão pedir mais uns dias para mim, porque nós precisamos resolver o problema do spread bancário no Brasil. Não é possível que, num momento de crise como esse, em vez de fazer fluir mais dinheiro na praça, para o povo poder consumir mais, as pessoas se retranquem. Então, isso nós estamos vendo com muito carinho, porque esse eu acho que é o grande problema. O segundo problema é que eu estou...(pausa) Vocês nem imaginam o quanto eu rezo para o Obama. Eu estou rezando para o Obama mais do que rezei para mim. Por quê? Porque como a economia americana tem uma incidência na economia do mundo inteiro, e alguns parceiros nossos dependem muito dos Estados Unidos, como a China, por exemplo, nós queremos que a economia americana se recupere logo, para que a economia vá voltando à normalidade. O mundo inteiro pode se recuperar, mas, se os americanos não se recuperarem, nós teremos problema, afinal de contas, o buraco é lá. O chamado “buraco negro”, que todo mundo fica procurando, está exatamente na economia americana. Hoje se fala que o rombo talvez seja de US$ 4 trilhões. É uma quantia tão grande que a minha cabeça não consegue imaginar o que significam US$ 4 trilhões. Então, eu estou torcendo para o Obama acertar. Estou torcendo para o Obama... Não é nem resolver o problema logo, mas estancar... E qual é o grande problema nos Estados Unidos? É, primeiro, restabelecer a confiança na sociedade. E junto com o restabelecimento da confiança resolver o problema da dívida das pessoas. Imaginem o que aconteceu nos Estados Unidos: eu comprei uma casa por R$ 300 mil, o mercado valorizou essa casa para US$ 600 mil. Lá, o hábito de crédito é de que eu poderia tomar emprestada a diferença entre o valor real e o valor de mercado. Eu tomei mais US$ 300 mil emprestados e aí a minha casa não vale nem US$ 600 mil e nem US$ 300 mil, mas vale US$ 200 mil. Ou seja, eu estou pendurado numa dívida por conta de um patrimônio que eu tinha e que não tenho mais. Então, ou resolve esse negócio ou não resolve mais nada. Penso que essa é a preocupação do presidente Obama e eu acho que ele sabe que tem que tomar medidas rápidas para que a gente não veja as coisas piorarem. </p> <p><strong>Comércio/APJ - O senhor reprova qualquer tipo de flexibilização de jornada ou de salário?<br />Lula -</strong> Deixe-me dizer uma coisa. Esse é um assunto velho no movimento sindical e os sindicatos, individualmente, têm feito acordos. Eu sou de uma categoria... Eu sou da categoria mais organizada do Brasil e, em momentos de crises outras, o sindicato fez acordo, o sindicato fez compensação de horas, fez redução. Depende do momento. O que nós achamos é que, se os empresários se sentarem com os trabalhadores em torno de uma mesa, nem é tudo o que os empresários querem, nem é tudo o que os trabalhadores querem. Ou seja, é exatamente um denominador comum que possa dar tranquilidade aos dois lados. Eu acho que há um espaço para negociação, eu estou acompanhando pelos jornais, a CUT está negociando, a Força Sindical está negociando. Daqui a pouco eles compõem e todas as centrais sindicais vão se reunir com os empresários e vão estabelecer um acordo. Eu estou convencido disso. Agora, eu trabalho para que a crise acabe o mais rápido possível e para que ela não chegue ao Brasil com a força com que chegou aos Estados Unidos. </p> <p><strong>Comércio/APJ - Uma questão de interesse de todo o Estado de São Paulo. Dos 18 milhões de hectares do Estado, 10 milhões são de pasto, 5 milhões são de cana, mas a preocupação maior, a grita que vai na agricultura familiar, que vai nos grandes produtores, é para a questão da reserva legal dos 20%. Isso significaria reduzir, no tempo, 3,4 milhões de hectares de área agricultável de São Paulo, ou de produção. É uma questão da definição de quanto tem que deixar de mata para cada tipo de propriedade.<br />Lula -</strong> Isso é mais fácil onde já tem a mata. Nós, agora, estamos muito preocupados em recuperar as terras degradadas. Tem quase 60 milhões de hectares de terras degradadas no País e nós queremos, então, plantar cana nessa terra, se for possível; plantar dendê onde for possível, para que a gente possa recuperar. Na verdade, o Brasil é um país privilegiado. Nós, hoje, não precisaríamos derrubar uma única árvore para plantar nada. É só a gente utilizar melhor o que já tem.</p>

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