A vida é marcada pela transitoriedade. No entanto, o ser humano vive tentando perenizar situações passageiras, resiste a mudanças. Numa mensagem que corre na internet, uma pessoa diz que está “pedindo demissão” da vida de adulto porque não suporta mais as dificuldades, as responsabilidades etc., e quer voltar a ser criança. Desejo irrealizável, típico de quem ainda não aprendeu a ver ou aceitar a vida como ela é.
“Jamais deixes de ser criança”, escreveu Richard Bach. É comum ler ou ouvir: “alimente a criança que há dentro de você”, “conserve o espírito de criança” etc., como sugestões para gozar a vida, ser mais feliz. Penso a respeito, cá com meus botões, e não encontro lógica nisso. O que, afinal, é ter espírito de criança? Ser curioso? Travesso? Brincalhão? Irreverente? Encarar tudo na boa? Não levar nada a sério? Convém repensar.
Criança não está imune às frustrações decorrentes da diferença entre o mundo idealizado e o real. Não há dúvida de que é fascinante a descoberta, a sensação de ver o mundo descortinar-se. A primeira fase da vida, porém, não é só magia; tem encantos e desencantos como qualquer outra. Aliás, para muitas pessoas a infância é um tempo do qual não guardam saudade; querem esquecê-la em razão de traumas sofridos.
Criança também tem dissabor. Como escreveu Victor Hugo “cada idade tem o seu prazer e a sua dor”. Criança tem energia, espontaneidade e originalidade, mas também imaturidade e desconhecimento; da mistura disso tudo não resultam só coisas boas. A infância também tem suas sinuosidades; é a fase da dependência e da submissão à vontade alheia. Criança não é só felicidade, satisfação; não fica o tempo todo alegre e sorridente.
Tem responsabilidade, preocupação. Também precisa submeter-se à disciplina, aprender e seguir regras, seja para saber comportar-se, seja para crescer com boa formação física e psíquica. Para não frustrar expectativas, tem muita coisa que a criança faz não porque quer ou gosta, mas porque a obrigam, e isso já lhe revela que o modo de vida que ela tem, com imposições e cobranças dos pais, limitações próprias da natureza, é diferente daquele que gostaria de ter. Gozar bem a infância depende do ambiente em que a criança vive, dos adultos que a rodeiam.
A criança é o adulto em formação. O pirralho, logo que aprende a andar, não quer que ninguém o segure; quer andar sozinho. Desde cedo os filhos já sonham com mais liberdade, com o poder de tomar as próprias decisões, de fazer as próprias escolhas, de não depender dos pais, de, enfim, dar o grito de independência.
Criança sonha ser gente grande, fazer coisas de adulto. Portanto, do meu ponto de vista, é um erro querer conservar o espírito de criança. Em qualquer fase da vida, a satisfação e a felicidade dependem da adequação dos desejos às leis naturais e às regras de sadia convivência. Penso que, no fundo, querer ter espírito de criança nada mais é do que uma tentativa vã de mudar o rumo da existência, uma recusa a passar para as etapas da vida em que o corpo vai perdendo a vitalidade, como se a partir de então não fosse mais possível ter alegria de viver, o que é um equívoco.
Melhor, assim, deixar o comportamento infantil para as crianças. Adulto tem de agir como adulto, utilizando o aprendizado adquirido durante a vida, num processo evolutivo formado pelas experiências vividas, o estudo, a observação, os conselhos das pessoas com mais sabedoria, etc. Voltarei ao assunto.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.