O estranho Momoês


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O espetáculo de dança contemporânea Faladores, da Cia. Mário Nascimento, de Belo Horizonte, trazido a Franca pelo Sesc de Ribeirão Preto na noite de quinta-feira, surpreendeu os francanos que quase lotaram o Teatro Municipal. Um show para todos se espantarem, muitos aplaudirem e poucos entenderem. Valeu pela arte totalmente moderna e inovadora, pela versatilidade dos oito bailarinos que se multiplicaram no palco se transformando em atores, músicos e cantores. O que deixou o público intrigado é que a mensagem anunciada pelo diretor Mário Nascimento não se concretizou plenamente. Ficou fragmentada. O fio condutor do espetáculo, segundo o diretor, seria a necessidade do homem de se expressar também com o seu corpo, numa época em que as mensagens virtuais se tornam com velocidade surpreendente substitutas do diálogo ao vivo. Em cena o que o público percebeu foram diversas formas de comunicação por meio do som, da música, da palavra solta de um léxico conhecido ou desconhecido, familiar ou estranho, poesia, dança, ação e movimento. O objetivo era que, influenciados pela dança, música e teatro, os artistas buscassem dialogar entre si e com o público. Entre si o diálogo foi perfeito. A sincronia dos movimentos e a expressão corporal dos bailarinos revelou-se um show à parte, belo de ser visto. Já a comunicação com o público não aconteceu. Talvez pelo fato dos francanos não estarem acostumados a vivenciar a arte contemporânea ou pelo simples motivo de que a complexidade da proposta pedia um apoio cênico maior no contato com o espectador. Talvez mais informações verbais em português... Foi como se o público ficasse desamparado diante de um precipício de intenções modeladas em gestuais perfeitos mas muito amplos para definir um significado. Assim, à pergunta "O que quis dizer a peça?" ninguém soube responder com precisão. Os bailarinos André Rosa, Daphne Chequer, Joana Wanner, José Villaça, Mariel Godoy, Marco Túlio Ornellas, Rosa Antuña e Thaïs França mereceram todos os aplausos pelo desempenho. Revelaram que as possibilidades do corpo são infinitas para comunicar os mais diferentes estados de espírito, emoções primitivas ou sofisticadas, nuances muito sutis da alma. Também sensações de impossibilidades de comunicação, que alguns poderiam traduzir com substantivos do tipo angústia, agonia, sofrimentos. Destaque também para o suporte sonoro, com instrumentos (violão, oboé, violino, carron, tambores) e gravações, no tempo e espaço exatos. Recortando-se no grupo por uma performance ainda mais expressiva e singular, a coreógrafa Rosa Antuña. Para a concepção e construção de Faladores, o grupo pesquisou uma "linguagem" própria de comunicação, com códigos sonoros e criação de palavras em um dialeto inventado, o "momoês", que transita pelo espetáculo assim como o português, alemão, inglês, espanhol e francês. Realmente o que se entendeu de toda essa comunicação individual foram os gritos, os gemidos e a própria palavra "momoês". A proximidade do diálogo que o diretor queria buscar através do espetáculo não aconteceu. No final de uma hora, o público educado aplaudiu em pé. Alguns até se mostraram encantados. Para a maioria, a sensação foi de estranhamento. Para o diretor Mário Nascimento, a curiosidade que o espetáculo causa nas pessoas é positiva e é importante quando o público saia com uma interrogação. "Faladores tem uma forma simples de tocar, mesmo quando a pessoa não tem um entendimento profundo, até porque utilizamos muitos códigos. A única forma de quebrar essa barreira é levar arte ao público", afirmou, ressaltando que foi um ótimo público. "Senti que as pessoas acompanharam, de alguma forma interagiram. A reação foi extremamente simpática e o elenco saiu satisfeito", concluiu.

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