Com a movimentação em torno da Vila, Paranapiacaba vai crescendo e se dinamizando. De um acampamento passa a núcleo urbano onde se concentravam obras de engenharia não encontradas na maior parte dos grandes centros existentes à época.
As regras de ocupação da Vila eram rígidas e esse rigor até hoje é observado na disposição das casas. Havia uma separação nítida para a área residencial dos engenheiros, com casas maiores, únicas nos lotes, com frente recuada e jardins muito bem cuidados. Para os maquinistas e suas famílias, as casas eram espaçosas, mas geminadas. Para famílias maiores, casas maiores.
Já a “Casa dos solteiros”, como o próprio nome diz, eram albergues que abrigavam os que não eram casados.
Na parte mais alta da vila, a casa do engenheiro Fox chama a atenção. Apelidado de Castelinho, era de lá que ele tinha uma ampla visão do pátio de manobras e de toda a vila. Podia, com isso, ajustar seu tempo observando o imenso relógio construído à imagem e semelhança do Big Ben de Londres.
A casa principal é um desbunde até para quem a visita hoje. Transformada em museu ferroviário, tem dezenas de cômodos, cada qual pintado em cores fortes. Diz a guia de turismo sobre a sala vermelha: “Aqui poucas pessoas paravam. Com o tempo, acreditava-se que os visitantes, sempre com muitos pedidos para o chefe, fossem ficando incomodados com o vermelhão, saindo espontaneamente muito antes do que queriam”.
Na casa assobradada não pudemos entrar no sótão, fechado para visitantes. A casa inteiramente construída em madeira por encaixes não leva pregos. Seu sistema de lareiras, muito apropriado para o frio da região, fazia com que as do andar superior usassem o calor das construídas no primeiro andar, deixando a casa inteira aquecida.
Restaurada pela Prefeitura de Santo André, a casa do engenheiro Fox é visita obrigatória para quem for a Paranapiacaba.
A parte baixa da Vila, com as características citadas, se contrapõe à parte alta, onde a ocupação foi posterior, mas ainda assim em decorrência do desenvolvimento ferroviário e da movimentação no lugar. Ali chegaram os portugueses e italianos, que montaram seus pequenos negócios. Nas ruas estreitas e sinuosas, as construções destoam completamente das inglesas.
Mais deterioradas, foram erguidas no limite do calçamento, com frente em dois andares e em madeira. São praticamente coladas umas nas outras, pintadas em cores vibrantes. É nessa parte que foram construídos o cemitério, também tombado, e a igreja do Bom Jesus de Paranapiacaba.
Em 1946, quando passou para a administração da Rede Ferroviária Federal, a Vila já não guardava mais muito dos seus dias intensos. Nos anos seguintes o sítio histórico só conheceu a destruição. Nada escapou. Praticamente todas as edificações estavam em estado crítico.
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A imagem de organização, pontualidade, limpeza e vida em comunidade que os ingleses tanto prezam e que foi seguida à risca em Paranapiacaba foi perdendo espaço para os interesses cotidianos dos que sobraram.
Mas basta uma pequena caminhada por suas ruas para perceber, ainda que mental e silenciosamente, tratar-se de um lugar especial. Com um pouco de esforço é quase possível ver as mocinhas com seus vestidos rodados saindo do Clube União Lyra Serrano, o majestoso prédio em madeira de lei amarela, depois de um baile e uma sessão de cinema.
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