Tentar vender uma chapa para fazer lanches nestes tempos bicudos é quase uma proeza para os pequenos empreendedores francanos, gente que sofre a força da lei e não tem mais espaços onde trabalhar. Comecei a tratar do assunto na semana passada e, hoje, prossigo.
A proibição de funcionamento de bolotas na cidade, o recolhimento de taxa de sobrevida para o negócio e prazo correndo até o dia 1º de abril (aliás, esse não é aquele famoso dia da mentira?), licitação de área pública (quem oferecer mais leva!) tudo parece colaborar para o desinteresse revelado com um bem que poderá cair em desuso comercial em breve: a chapa.
Falar dessas coisas fez-me lembrar das muitas vezes que ouvi o frigir dos ingredientes postos “naquela chapa”` (hoje à venda) e o aroma agradável que subia aos céus, construindo o paladar saboroso da “obra de arte gastronômica” que degustei por incontáveis vezes.
Os profissionais da nutrição pouco encorajam a ingestão desse alimento chamado “bolota”, mas a gente tenta buscar um equilíbrio alimentar para poder abusar “só um pouquinho” desse tradicional lanche.
Sentir-se livre, fazer o que quiser (com responsabilidade), poder gostar de cerveja, bolota e música sertaneja são boas coisas que temos por aqui e que muitos, muitos mesmo, ainda fazem questão em cultivar. E para os mais requintados, que insistem em dizer que isso é caipirice, fazer o quê? É mesmo, uai!
Voltando ao dilema do boloteiro que está lutando para vender sua chapa, ainda não consegui entender (como cidadão) qual o transtorno causado por esse ambulante em estacionar regularmente seu trailer às margens do meio-fio em local adequado, não colocar cadeiras na calçada, estando devidamente regularizado junto aos órgãos competentes e, mesmo assim, ser impedido de trabalhar e sustentar sua família. Talvez o articulista esteja embrutecendo – ou emburrecendo – por não alcançar a iluminada interpretação legalista dessa proibição de funcionamento...
É sabido que toda forma de generalização é desaconselhável e contrária ao progresso. Este ensinamento básico que se encontra até mesmo nos livros pedagógicos vem sendo deixado de lado nesta discussão. Importa, ao que me parece, dar tratamento inteligível e racional a este caso, avaliando com cautela caso a caso para a renovação ou não da concessão de funcionamento.
Vender aquela chapa não será nada fácil para o bom boloteiro. Faltam compradores. Ninguém quer investir em algo incerto e que aponta para riscos. Disse a ele para que não nutrisse rancor às nossas autoridades, pois estão apenas cumprindo seus papéis no circo desta vida, exercendo as atribuições para as quais são remunerados – e muito bem remunerados –, cumprindo ou fazendo mais leis para o “melhor” ordenamento de nossa sociedade. Afinal, dizia sempre o saudoso congressista Ulisses Guimarães, “a próxima casa legislativa conseguiria sempre ser pior que a anterior...”
Ricardo Galo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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