Acompanhando o jogo em que a Francana venceu o Batatais por 2 a 1 no último domingo, no Lanchão, as lembranças se fizeram presentes com tanta clareza e nitidez que me levaram de volta aos anos 60, quando o clássico da Alta Mogiana era disputado com rivalidade ferrenha.
Naqueles tempos, uma partida de futebol era um acontecimento social. Os homens frequentavam o “Estádio Nhô Chico” - hoje abandonado no Centro de Franca - devidamente trajados com paletó e gravata. As mulheres e crianças com roupa de domingo. Futebol era coisa da elite. De pé, à beira do campo, havia famílias inteiras, muitas moças. Impedimentos ou escanteios, alguns torcedores – entre eles meu pai Arlindo – ainda chamavam de off-side e corner. Goleiro era goal-keeper, full-backs os zagueiros e center-half os meio-campistas.
Em 1958 a Francana tinha um grande time. Garito no gol, Ciro, Eca, Geraldo, Pedrinho e Osvaldo formavam a defesa e meio de campo. No ataque, Zinho, Dico, Ponce, Maurie e Fernando. Não havia iluminação na maioria dos estádios na época, por isso os jogos eram sempre aos domingos, às 15 horas. A cidade parava para ver a Francana jogar. Ponce, loiro, alto e forte, grande cabeceador, ex-Botafogo de Ribeirão Preto, era o centroavante “matador” da Francana e o ídolo que arrastava a torcida esmeraldina ao estádio. Em 1959 a notícia ecoou como uma bomba na cidade. O Batatais apresentou uma proposta irrecusável e levou Ponce para defender suas cores. Aumentava a rivalidade entre os dois clubes. Meu pai, como a maioria dos torcedores, não se conformava.
Semanas depois o clássico entre Francana e Batatais estava marcado para o “Nhô Chico”. O Fantasma da Mogiana tinha o bom goleiro Barrela e um ataque de respeito: Moscatel, Pádua, Ponce, Lizotti e Agenor (ex-São Paulo). Naquele domingo o “Nhô Chico” recebeu o maior público de sua história. No setor das cobertas, do lado direito dos portões de entrada do estádio, meu pai, de terno e gravata e com seu inseparável guarda-chuva não se aquietava, principalmente quando o Batatais entrou em campo trazendo à frente o centroavante Ponce, com o número nove estampado na camisa vermelha. Naqueles tempos não se ouviam palavrões nos jogos de futebol, a não ser a tradicional “homenagem” que sempre era prestada à mãe do árbitro, quando ele entrava em campo.
Procurando fazer uma “média” com os torcedores da Francana, Ponce se aproximou do setor de cobertas e ergueu os braços saudando o público. Meu pai não se conteve e, brandindo seu guarda-chuva como se fosse uma espada, sentenciou a frase que até hoje é lembrada pelos mais antigos: “vá pagar a Cinderela, caloteiro!”, fazendo uma alusão à loja de confecções do saudoso “Rosinha”, que ficava na Rua do Comércio e onde a maioria do francanos comprava a prestação. O jogo começou e Ponce, mal pegava na bola, ouvia o coro: “vá pagar a Cinderela, caloteiro!” Atordoado com os gritos da torcida, o artilheiro se perdeu em campo e com ele o resto do time. A Francana venceu o jogo por 1 x 0.
Anos depois, em 1966, fui escalado pela Rádio Difusora, ao lado do amigo Paulo Roberto Verzola, hoje na Rádio Imperador, para narrar o clássico entre Francana e Batatais naquela cidade. A rádio não tinha viaturas na época e contratava táxi para transportar a equipe esportiva. Lazinho Villaça, ainda com ponto em frente à Matriz de Franca foi o escolhido para nos levar.
Tarefa difícil nos esperava. O jogo terminou empatado em 1 x 1 com um gol duvidoso da Francana, revoltando os torcedores do Batatais, que foram à forra. Armaram uma “barricada” na saída da cidade para nos “recepcionar”. Quando chegamos perto daquela famosa padaria, para entrar na Rodovia Cândido Portinari, insultos partiam de todos os lados. Nervoso, Verzola abriu o vidro do carro e rebateu as ofensas. Foi a gota d’água. Pedras e pauladas estilhaçaram os vidros do táxi e custamos para escapar sem maiores ferimentos. Era assim Francana e Batatais. Entenderam agora a razão da rivalidade?
ARTILHEIRO FALECEU EM 2005
Anselmo Marques, o Ponce, ex-centroavante da Ferroviária, Botafogo-SP, Francana, Batatais e Taquaritinga, grande cabeceador da década de 50 e 60, morreu no dia 22 de maio de 2005, em Ribeirão Preto-SP, onde está sepultado.
A COLUNA NÚMERO CEM
Registro meus agradecimentos a dezenas de amigos e amigas que enviaram e-mails nos cumprimentando pela centésima coluna nesse Comércio, edição anterior. Sensibilizado, agradeço de coração.
NEGATIVO
São tantos os acidentes com motos em Franca que deveriam mudar o nome: não mais motoboy e sim mortosboys.
POSITIVO
O consumo moderado de vinho e cerveja pode reduzir em até cerca de 40% os riscos de úlceras gástricas decorrentes de infecções. A conclusão foi de cientistas alemães da Universidade de Ulm. A notícia é positiva. O problema é definir “moderado” para certos pinguços...
SOBROU PARA O CENTROAVANTE
O jogador chega para o médico com o pé sangrando e rindo muito. Curioso, o médico pergunta: “meu filho, o que aconteceu com você?”
- Nós fomos jogar no interior, campo pequeno, a torcida em cima da gente, vaiando... Então fui bater o escanteio e um jogador adversário trocou a bola por pedra e eu não vi. Cobrei o escanteio e meu pé ficou assim.
- Mas isso não é engraçado, você está rindo do quê?
- Do centroavante, que fez o gol de cabeça.
Edward de Souza
Jornalista e radialista - edward@comerciodafranca.com.br
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