Centenas de mulheres passaram noites em claro no ano de 2008 com medo dos maridos, ex-companheiros e até mesmo dos filhos. Ameaçadas, sofreram, temendo morrer nas mãos deles. Inconformados com a separação ou por não conseguirem dinheiro para comprar drogas, esses homens ameaçaram matar ou agredir as companheiras, mães e irmãs. O temor delas se explica. Segundo a DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), que registrou 850 boletins de ocorrência do crime no ano passado, de cada dez ameaças denunciadas, duas acabam cumpridas.
Em dezembro de 2006, a vendedora Nádia Regina da Silva, 42, foi morta pelo ex-marido. O modelista José Carlos Miranda, o "Zé Coco", cumpriu as dezenas de ameaças que fez e assassinou a ex-mulher. Quem teme por um desfecho trágico como o de Nádia é a lavradora desempregada IS, 43. Há quatro anos ela ouve de três filhos que irão matá-la e é agredida por eles. Os jovens são usuários de drogas. IS já levou murros no rosto, chutes e quase foi morta por eles. "Quando usam drogas, eles ficam violentos. Um deles (hoje com 21 anos) tentou me matar com uma faca. Me derrubou no chão e pôs a faca no meu pescoço (...). Eu não dormia com medo deles fazerem alguma coisa comigo porque eles dormiam até com a faca do lado deles".
A mãe dela, uma senhora de 75 anos, e os outros filhos também são ameaçados e agredidos. "Até hoje tenho a perna inchada com marca de uma paulada que meu neto de 19 anos me deu. Ele estava me xingando e eu falei para ele se aquietar. Aí ele falou: `ah, velha desgraçada, eu vou te matar`. Eu disse: `se você me encostar a mão eu te arrebento`. Ele veio e me deu uma paulada. Caí e fiquei chorando". Um dos irmãos, de 9 anos, sempre apanhava porque se recusava a buscar drogas para eles. "Eles batiam, davam tapa, chute. Se eu fosse defender, apanhava junto".
IS só tem vivido dias de paz porque os três filhos foram presos, por assalto. "Já denunciei na DDM várias vezes, mas não aconteceu nada. Eles estão presos por causa de assalto, não por me ameaçar e me agredir". A lavradora não sabe quantos anos os filhos ficarão atrás das grades. Mas quer deixar Franca com a mãe e as outras oito crianças que tem antes de estarem livres. "Prefiro eles presos. Só agora tenho paz. Quando eles saírem, vou estar longe, se Deus quiser", disse, chorando.
Os filhos de IS poderiam ter sido presos por ameaçá-la. Mas o máximo que permaneceriam atrás das grades seria de um a seis meses. A lei que permite a prisão de quem faz ameaças é recente. A permissão existe desde setembro de 2006, quando entrou em vigor a Lei Maria da Penha, e só é praticada se a vítima autorizar. A situação era mais grave. Antes, os autores, quando condenados, apenas pagavam multa ou cestas básicas.
No cargo há 15 anos, a delegada da DDM Graciela Ambrósio reconhece que a lei ainda é branda, mas encoraja as mulheres a quebrarem o silêncio. "Elas estão mais confiantes na aplicação da lei e denunciam. Hoje ela não aceita ser agredida física ou moralmente nem ser ameaçada", disse.
A lei exige que as pessoas ameaçadas ou agredidas sejam retiradas do convívio com o autor do crime. Devem ser encaminhadas para casa de apoio a pessoas vitimizadas. Em Franca, a falta de um espaço adequado, como a Casa da Mulher Vitimizada, expõe a deficiência do atendimento. Depois do trauma, elas saem de um ambiente hostil para conviver com andarilhos no Abrigo Provisório.
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