<p>Foi em uma sala pequena, com decoração simples e poucos móveis, que o capitão Alexandre Luís dos Santos, 38, do 2º subgrupamento do Corpo de Bombeiros, em Franca, recebeu a equipe de reportagem, na terça-feira, dia 27 de janeiro, para conceder esta entrevista. </p>
<p>A mesa em completa desordem - cheia de papéis, pastas e equipamentos eletrônicos - destoou do jeito organizado de pensar e falar que o capitão revelou. Com muita tranquilidade, de maneira quase didática, discorreu sobre sua vida, sua carreira, suas viagens (ele já esteve em cinco países) e seus planos. Ao longo de três horas de entrevista, deixou claro ter muito orgulho de sua trajetória e de sua intensa ligação de 20 anos com a corporação. </p>
<p>“Entrei com 17 anos. Me criei aqui”, disse. Seus modos tranquilos sumiram por alguns segundos apenas em dois momentos da entrevista: quando a sirene de resgate soou no grupamento, às 11h30 e às 12h52. De forma imediata e de maneira impressionante o capitão assumiu um ar grave, se levantou, fixou o olhar nos bombeiros que já se colocavam a postos e perguntou em voz alta qual era a ocorrência. </p>
<p>Ele, assim como os demais bombeiros, entram efetivamente em “posição de alerta” a cada toque da sirene. Passado o momento de apreensão inicial da chamada (porque não era nada muito grave), o capitão retomou a conversa não sem antes se referir à semana difícil que o grupo vinha enfrentando. </p>
<p>“Só nestes dias atendemos a casos de afogamento, ataque de cães, socorremos um homem eletrocutado, além de uma ocorrência de incêndio e até um parto feito pela equipe na casa da mãe”. A pressão dessa rotina é intensa, mas o capitão, que tem 122 homens sob seu comando, faz questão de frisar que os bombeiros não são heróis. Sua fala nos surpreende, uma vez que é justamente essa a imagem que normalmente se tem dos bombeiros. </p>
<p>“Essa nomenclatura até me preocupa. Na verdade, nós somos profissionais bem treinados, com condições técnicas de atender pessoas em situação de risco. Somos profissionais focados, comprometidos e extremamente responsáveis. Mas não temos superpoderes”, disse o capitão, que se formou oficial pela Academia Barro Branco, é graduado em Educação Física pela Unifran e pós-graduado em Fisiologia e Treinamento Esportivo. </p>
<p><br />No segundo toque da sirene, a equipe de reportagem acompanhou o resgate e pôde constatar o preparo dos profissionais. Tratava-se de um acidente de trânsito - ocorrência que responde por 70% dos atendimentos dos bombeiros. A partir do momento em que a sirene toca, os homens têm 30 segundos para deixar o quartel. </p>
<p>É tudo feito de forma sincronizada, mas como se fosse um filme em câmera rápida: decidir quem vai na ocorrência, vestir o uniforme, pegar os equipamentos, subir na viatura, sair em disparada. A adrenalina toma conta do ambiente e nós, jornalistas, também acostumados a correr quando há ocorrências, registramos o fato de um outro ângulo. </p>
<p>O militar que posava descontraído para uma foto se transformou. A mudança em sua expressão é impossível de descrever. Ele deixou o fotógrafo Divaldo Moreira “falando sozinho” e voou para o resgate. Felizmente não foi um acidente grave. Logo retornamos ao quartel e, pouco antes de nos despedirmos, o capitão nos convidou de maneira “militarmente suave” para ingressarmos no corpo de voluntários da Defesa Civil. A responsabilidade é grande. Tem-se que assumir o compromisso de estar disponível para ajudar em situações de crise. Não é preciso dizer que ele, claro, angariou mais duas voluntárias. </p>
<p><br /><strong>Comércio da Franca - Como foi sua trajetória até chegar a Capitão dos bombeiros? <br />Capitão Alexandre Luís dos Santos -</strong> Nasci em Araraquara (SP) e sempre estudei em escola pública, um privilégio. Me formei na Academia Barro Branco em 1992, que hoje é na Fuvest um dos cursos mais concorridos. Tenho orgulho em dizer que comecei a trabalhar aos 13 anos, fui office boy e escriturário no extinto Banco Bandeirantes. Passei no vestibular com 17 anos e costumo dizer que fui criado na Academia. Me formei Oficial da Polícia Militar em 1992. Em seguida fiz um curso na Fatec (Faculdade de Tecnologia) para poder exercer as atividades de bombeiro. Me apaixonei pela profissão e tive a oportunidade de fazer cursos de salvamento da corporação, como de produtos perigosos, mergulho profissional, primeiros socorros e gestão pública. Fiz minha segunda faculdade, Educação Física, na Unifran. Me formei em 2007. Em 2008 fiz pós-graduação em Fisiologia e Treinamento Esportivo e agora pretendo fazer mestrado na mesma área na Unesp de Rio Claro. Hoje sou capitão do Corpo de Bombeiros e presidente voluntário da Defesa Civil. </p>
<p><strong>Comércio - Como é ser visto como herói?<br />Capitão Alexandre -</strong> Na verdade eu não concordo com essa terminologia. Nós não somos heróis. O bombeiro é uma pessoa comum, igual a qualquer outro cidadão. O que o diferencia são as técnicas e o conhecimento, que junto com os equipamentos adequados fazem com que ele tenha êxito nas ocorrências. Quando falamos em heróis acreditamos em algo com poder acima do comum, algo que pode superar as condições físicas e os limites do ser humano, e nós somos seres humanos. Costumo dizer que o impossível só Deus é que vai determinar, mas que enquanto houver esperança e condições de salvamento nós, bombeiros, vamos até o fim. A terminologia “herói” pode conferir até mesmo ao bombeiro um excesso de confiança que pode levá-lo ao acidente. Claro que, pela rotina, muitas vezes colocamos nossas vidas em risco para salvar a vida de outra pessoa. Mas isso é próprio da profissão. Somos treinados para isso. Não temos superpoderes. Somos supermotivados. </p>
<p><strong>Comércio - E essa motivação vem de onde?<br />Capitão Alexandre -</strong> Ser bombeiro não é uma simples profissão, é uma vocação. Algumas pessoas buscam conquistas materiais e esquecem do lado humano e solidário. O bombeiro trabalha muito com isso e a maioria das pessoas que estão aqui tem espírito e alma elevados. Temos vários exemplos disso. Recentemente fizemos um parto e a mãe e a criança não tinham roupas, não tinham nada. Fizemos uma campanha junto à imprensa, ganhamos vestimentas e doamos cesta básica. Quero dizer com isso que não é só a atuação emergencial. Nós não viramos as costas para o problema, tentamos amenizar situações como essas. Além disso, temos preceitos importantes como os de uma empresa, por exemplo. Os bombeiros buscam gestão de qualidade, questionamos as vítimas sobre o atendimento para saber como melhorá-lo e temos reuniões mensais para discutir pontos positivos e negativos. Instituímos metas, planos e treinamentos para atender bem a comunidade e nos cobramos para realizar um bom trabalho. Mas todos temos muito claro que o mais importante é o atendimento que prestamos a uma pessoa. Não é nem o socorro com material e equipamento, é o atendimento humano, apoio psicológico. E quando uma pessoa faz o bem ela fica forte, ela se sente importante e essa é nossa maior motivação. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor falou de treino, técnica, conhecimento. Como é preparar um bombeiro?<br />Capitão Alexandre -</strong> Podemos comparar os bombeiros à carreira de medicina. Todo bombeiro tem noção de afogamento, resgate, incêndio. Essa parte é como se fosse o “clínico geral”. Mas, além disso, a corporação oferece cursos específicos. Assim como o médico, precisamos estudar muito para sermos especialistas em algumas atuações e o leque é grande. Só na área aquática, por exemplo, existem cursos de mergulho, curso de busca de pessoas que estão se afogando, de atuação em enchentes, curso de salva-vidas no litoral, de localização de pessoas que morreram afogadas, de busca de material submerso... O mesmo ocorre em cada área de atuação. Há cursos específicos de salvamento em altura, para livrar pessoas presas a ferragens, de resgate, incêndio, queda, entre tantos outros. Quando o soldado se forma, ele sabe o básico de tudo isso. Depois ele se especializa e pode até coordenar equipes. Depende de cada bombeiro avançar na carreira, pois os cursos dão subsídio para trabalhar com diferentes ocorrências. </p>
<p><strong>Comércio - Os bombeiros precisam de um preparo psicológico especial para lidar com uma rotina de tragédias e violência? <br />Capitão Alexandre -</strong> O bombeiro é um ser humano como os outros, não é um herói isento de tudo. Se porventura tivermos problemas, temos plano de saúde e diante de qualquer anormalidade a Polícia Militar dispõe de psicólogos e hospitais psiquiátricos. Felizmente, nesses três anos em que atuo em Franca, não temos registro desse quadro, mas não estamos imunes aos problemas. Sendo assim, trabalhamos muito internamente a questão da motivação, da união. Somos uma tropa motivada que vibra a cada ocorrência com final feliz. Temos para nós que cada salvamento é uma oportunidade de ser melhor referenciado pela sociedade. Por isso damos o máximo de nós. Cada vez que toca o alarme é claro que ficamos tensos, mas temos em mente que é mais uma oportunidade de ajudar alguém. E quando isso é possível, compensa todo o resto. </p>
<p><strong>Comércio - Você fala bastante em Deus. Tem uma religião?<br />Capitão Alexandre -</strong> Sou católico. Acredito em Deus e em Cristo. E, há alguns anos, tive uma experiência que me fez tocar mais de perto meu lado espiritual e me acrescentou muito como ser humano. </p>
<p><strong>Comércio - Que experiência foi essa? <br />Capitão Alexandre -</strong> Estive na Índia em 2006, quando fiz intercâmbio pelo Rotary, com um grupo de profissionais. Fiquei 38 dias visitando 17 cidades e cinco estados. Conheci a realidade daquele povo, os valores do Oriente Médio e a experiência me tocou. Visitei bombeiros da Índia, participei de campanhas e visitei escolas, como fiz em outras viagens pelo mundo. O grupo foi estudar a profissão, levar o que tem de bom aqui, e trazer o que tem de bom nas áreas de cada um. Lá pude ver de perto como aquele povo enfrenta dificuldades. Aqui nós não sabemos o que é fome, o que é ficar sem energia todos os dias, o que é ficar sem água... A Índia te mostra um povo que se supera pela fé. </p>
<p><strong>Comércio - Quais foram essas outras viagens? <br />Capitão Alexandre -</strong> Fiz um intercâmbio para o Canadá. Fiquei cinco meses em Toronto. Também fui aos Estados Unidos e realizei o sonho de visitar Nova York. Conheci os quartéis de bombeiros em Manhattan e sempre penso que, infelizmente, muitos bombeiros que conheci na época talvez não estejam mais entre nós, já que mais de 300 morreram no resgate às vítimas quando do ataque às torres gêmeas um ano depois da minha visita. Também participei dos jogos mundiais dos bombeiros na África do Sul e em Indianápolis. Procuro estar sempre comprometido com a carreira. </p>
<p><strong>Comércio - Por falar em comprometimento, você desenvolve um trabalho voluntário como presidente da Defesa Civil. Como é essa atuação?<br />Capitão Alexandre -</strong> Faz três anos que estou em Franca e estou muito envolvido com minha atuação na Defesa Civil. Estou trabalhando há um ano e meio no desenvolvimento de um trabalho inédito. Estou elaborando o primeiro Plano de Contingência de Emergência de Franca. É um documento de quase 200 páginas que traz um raio-x completo da cidade. A partir deste levantamento poderemos fazer um planejamento visando minimizar problemas nas áreas de risco, orientar trabalhos de prevenção, além de criarmos condições para dar suporte mais eficiente nas ocorrências e emergências. Neste documento já temos cadastrados todos os hospitais e números de leitos para receber feridos, por exemplo. Temos todas as escolas e localidades que podem ser transformadas em abrigos em caso de desastres. Sabemos onde fica cada órgão, quais os recursos material e humano que possuímos. Criei uma lista com centenas de nomes de voluntários. A lista já contém telefones e e-mails dessas pessoas que podem ser acionadas numa situação de emergência. Elas podem ser chamadas para ajudar a atender ocorrências, distribuir alimentos, fazer cadastro de famílias em dificuldades... Enfim, numa situação de emergência, toda ajuda é bem-vinda. E é importante termos um ponto de partida, um grupo de pessoas já predispostas a ajudar e com um mínimo de orientação prévia. Minha intenção, futuramente, é fazer um curso rápido com essas pessoas, para que todas estejam aptas a ajudar. Essa reunião de dados foi possível graças também à atuação de 80 estudantes do curso de Administração da Unifran que atenderam ao meu chamado e me ajudaram a fazer o levantamento. </p>
<p><strong>Comércio - Qual o próximo passo?<br />Capitão Alexandre -</strong> O Plano está pronto. Vou enviá-lo para apreciação da Prefeitura e Defesa Civil do Estado e aguardar aprovação para colocá-lo em prática. Em que pese estar muito detalhado e com muitas informações, sei que ainda podemos melhorá-lo. Mas considero sua elaboração um passo importante, se considerarmos que não tínhamos nada até então. Depois, o passo seguinte é oferecer aos voluntários cadastrados um curso de capacitação e montar equipes de Defesa Civil. Podemos também investir muito em prevenção e, tendo um grupo motivado, montar campanhas de prevenção contra a dengue, campanha para angariar agasalhos, ajudar vítimas de enchentes e doar sangue, por exemplo. </p>
<p><strong>Comércio - Capitão, esse trabalho voluntário e o comando de uma equipe de mais de 120 homens lhe consome muito tempo. O senhor ainda consegue atuar nas ocorrências?<br />Capitão Alexandre -</strong> Nos salvamentos de grande porte, de maior dificuldade, estou sempre presente. Procuro acompanhar, apoiar os tenentes, sargentos e principalmente dar apoio logístico. Nas ocorrências sou mais um bombeiro. </p>
<p><strong>Comércio - Há alguma ocorrência que o tenha marcado mais?<br />Capitão Alexandre -</strong> Uma que me marcou muito foi com certeza uma das mais difíceis. Eu estava passeando de moto às margens de um rio em Araraquara. Era uma segunda-feira de Carnaval. Um carro caiu no rio com a mãe e duas crianças. O carro já estava imerso, de ponta-cabeça. Tive muita dificuldade, mas consegui tirar as crianças, a mãe e reanimá-la. Ganhei uma medalha de terceiro grau que foi entregue pelo prefeito de Araraquara na época, em frente à prefeitura. São coisas que marcam a vida da gente. Até hoje não sei por que eu estava passando por ali, justamente naquele dia, naquela hora. Não era um caminho da minha rotina... </p>
<p><strong>Comércio - E em Franca, qual foi a ocorrência mais marcante?<br />Capitão Alexandre -</strong> As enchentes de 2007 me marcaram muito. Foi muito difícil ver o sofrimento de tantas famílias sem água, desesperadas em busca de minas, bicas... Foi um aspecto social que me marcou bastante. Houve ainda um caso muito triste, também ocasionado pelas águas de 2007. Um garoto de 14 anos morreu quando caiu no Córrego dos Bagres, levado pelas águas da enxurrada. Foi uma situação muito difícil. Não me esqueço disso. </p>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.