‘Mão-de-obra criativa’ movimenta Carnaval 2009


| Tempo de leitura: 3 min
Nas mãos das costureiras o pedaço de pano vira arte. Nas mãos dos ferreiros, soldadores, marceneiros e carpinteiros está a responsabilidade de executar alegorias seguindo minuciosamente as regras de segurança e os critérios de julgamento. Pintores e artistas plásticos dão o acabamento. Tantos outros profissionais trabalham para concretizar nas avenidas enredos com temáticas variadas para satisfação e alegria dos espectadores dos desfiles das escolas de samba no Carnaval de rua. Todos são um pouco “historiadores” no momento em que tiram do papel o projeto do carnavalesco, que retrata outras vidas, outras épocas e outros sonhos. É assim com o grupo de costureiras da escola de samba Castelo. Juntas, a maioria ao menos há três décadas, elas confeccionam as fantasias das alas, dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, da bateria, das passistas e da comissão de frente e têm dificuldade na hora de elegerem a fantasia ou o enredo preferidos. “Todos. Nesses 30 anos não saberia falar apenas um. Eu gosto de todos”, sintetiza Nadir Bonvine, sem se distrair de sua máquina de costura. Além dos anos de profissão no Carnaval, dona Nadir e as demais costureiras têm em comum a paixão pela folia de momo, sentimento que as faz abrir mão de qualquer remuneração. “Somos todas voluntárias”, dizem elas, praticamente em coro. Outro veterano na atividade é o sapateiro Antônio Braz Capelozi, este sem agremiação “do coração”. Perto de completar 80 anos, nesta época do ano é em um pequeno quartinho, de cerca de quatro metros quadrados, que ele passa a maior parte do dia e, muitas vezes, da noite. Sozinho, ele desenha, cria, produz e faz o acabamento de aproximadamente 500 pares de calçados que vestirão os pés de sambistas das seis escolas de samba de Batatais. “Desde que se fala em Carnaval na cidade (década de 1970) eu faço sandálias, sapatilhas e botas para o pessoal desfilar. Faço também reformas. Tem botas que eu estou reformando, trocando a cor, pelo quinto ano”, afirma. Sem revelar o montante total da remuneração pelo ofício, ele diz que as sapatilhas custam R$ 5, as sandálias cerca de R$ 30 e as botas carnavalescas saem por R$ 50, em média. “Não adianta cobrar mais porque aí as escolas não fazem”. Na Acadêmicos do Samba, a exceção do trabalho voluntário se restringe a apenas cinco pessoas, segundo a presidente da escola, Maria Aparecida de Oliveira e Sousa, a Mary. “Temos que pagar funcionários específicos, como quem fica no barracão o dia todo, a costureira (que é terceirizada e receberá R$ 5 mil), o artista plástico que faz as esculturas”, afirma Mary. VOLUNTARIADO Na contramão, as escolas de samba mais humildes dispõem de um menor contingente de mão-de-obra gratuita. Enquanto a Castelo - atual campeã do Carnaval de Batatais - cede apenas pequenas gratificações para alguns de seus mais de 180 trabalhadores, a Império do Samba - última colocada no Carnaval 2008 - gasta 30% da verba de R$ 50 mil repassada pela prefeitura com o pagamento de funcionários. “Contamos com o trabalho voluntário dos amigos. Há muita gente envolvida. Se formos contar, temos muito mais que 180 colaboradores. O que fazemos é dar pequenas contribuições a título de gratificação, uma pequena ajuda de custo, para algumas poucas pessoas”, disse Rômulo Bruno Trevisani, um dos vice-presidentes da Castelo. Luís Renato Garbellini, o “Mestre Tosa”, um dos diretores e comandante da bateria da Império do Samba, disse considerar o gasto com profissionais muito elevado. “Estamos precisando formar os profissionais dentro das escolas. Hoje não conseguimos gente para trabalhar de graça. Gastamos uns R$ 15 mil com os pagamentos”, afirmou. Felicíssimo Antônio dos Santos, o “Simão”’, presidente da Unidos do Morro - terceira colocada no último Carnaval -, também cita o alto custo dos profissionais. “Gastamos pelo menos R$ 17 mil só com mão-de-obra”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários